sábado, 17 de dezembro de 2016

Quando o homem nasce, sonhar é coisa pouca

Aqui o som toca os tímpanos de puro sono. É mudo o ar que banha o rio, e na margem há um cego que pressente a corrente desvairada, para lá, em direção ao sul fundo, onde a fundura não mais termina e o abismo se adivinha na areia molhada. Vê-se um homem na fronteira, é o magnus que toca o horizonte, veio aqui representar as gentes, com seu topo de cabeça astuto, mas não se lhe alarguem os prazos, que a este chegarão um par de milhões de anos, pouco mais, pouco menos, para que á luz dos que me leem se lhe tracem os términos á história e voltemos á voragem da qual viemos antes. É ele quem traz o ferro, os fortes lenhos de levantar a urbe. Se tanto pode, que sente?

No céu da noite brilham as estrelas, lá longe em reunião, sabem elas quanto tarda o dia, e se não se foram ainda algumas, nos chega a luz  de hoje, efémera, quanto sabemos de sua morte? E o homem que viu o fogo, não mais as quis ver, quão bela era sua chama, quão bela é a de hoje? No mar da praia antiga, a água espelhando o alto. As marés do mar índigo, que são? Que há do cego da outra margem? Pouco importa ao presente, se sonhar é já infante e o caminho o fez perder. E assim se faz retrato, com dois tons de mão se pinta a tela, esta porém áspera, só de uma lado deixou mancha, o outro que nada viu, ainda ali está sentado, vendo sem ver, o rio que lhe eriça as veias quentes. Se tanto sente, que pode?



João Luciano









sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Água Viva

Ouvi hoje a fonte, ímpar
Lhe caindo a cara nova, por aí vem
Abaixo à colina gasta
Corre; Seus contornos são de castanheiro
Morre; Bem no fundo derradeiro
Sofre; É de correria, a catadupa
E na mata há nevoeiro

Desce o monte, que já te avisto
E não morreste afinal, só vieste juntar
Água viva de cada dia nos dai hoje
Vem; E me afaga levemente
Cem; São as lágrimas de meu lamento
Quem? Te gasta o nome, Água viva!
Se na praia há teu vento


sábado, 26 de novembro de 2016

Esqueceste-me, Pessoa

Esqueceste meus períodos hiatos. Que é isso de amar para sempre, Pessoa? Não me digas que sempre te veio o choro, que não te trouxeram manhãs nuas e dias sem miolo, que ás vezes não morreste um pouco, ou lá o que é morte.
Nem me digas que sempre sentiste. Arr! Que te invejo! Meu roteiro nem sempre alegra ou faz dor, tem dias destes, em que a noite vem antes, e um sono me invade muito, até que eu deixe de Ser, e passe apenas a Estar, ou lá o que é estar.
Morrer é menos, certamente. O pior é ver. Ver que não há par que me assista. Há quem diga"vem, que te amo" outos "que te vás, que te odeio" e eu, tão no meio, sem a virtude de que se fala tanto. Só não morto, porque vejo, ou lá o que é ver.


João Luciano
26-11-2016


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

25 de Novembro

Adiado. Palavra nua que me despe consigo. Sim, sou isso, um adiado que não fez ontem; hoje não conta, e o amanhã não vem nunca.

Cá estou. A esteira que me trouxe, me leva devagarinho, e meu registo será oco, sem muito que se conte.

Venha a brisa até aqui. E que faça aplanar tudo o resto. Se cante baixinho,  que a vida é balada muda. Ouçam.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tente-se o poeta

Tente-se o poeta. A ele lhe pôr prazo na produção.
Como na montagem, as mãos repetentes
tocam o ferro, e o moldam de certeza.

Tente-se o poeta. E lhe peçam os favores,
para presentes de aniversário
Assim como quem quer coisa, e faz o pedido, esperando alegria

Tente-se o poeta. E se lhe mostre o sorriso, alegrando-o pois bem
Assim como se fácil fosse, o trabalho de viver contente

Tente-se! E se vá tentando, o poeta, e seu procedimento. Daqui a mais virá, como brinquedo de fabrico, seu mais fingido lamento.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Movimento

Tique-Taque... Batem teclas na fundura
Já é a mão morta, a repetir movimento
Apagando, escrevendo, sentindo...

Se me acabou o carvão. Que farei agora eu
Mais um cruento teclado? Se nem me sente ele a mim, 
nem meu pranto desanimado

Quero a folha mais antiga, antes que 
venha a mim rasgada. Minha grafite
companheira, quantas vezes foi quebrada?

Do que este bem todo manhoso, de letreiro 
organizado. Suas formas em quadrado
E um A-M-O-R separado

Não é assim a folha branca. Que essa
me toca direto o pêlo. Até me sente o arrepio
E me acolhe um cabelo

Nem é assim o pergaminho. Que esse
se abre desenrolando. E em toque de carinho, 
um riscar de tom brando

Para que veio este escusado, automatismo 
muito medido? Uma seta para cada lado
e um alfabeto perdido 

Não é assim meu pulso mole,  se curvando
ao verso quebrado. Desenhando uma por uma
da palavra ao fraseado

Nem é assim a lapizeira, que atua 
se esguiando. Quebra o bico e vai avante
e continua rabiscando

Tique-taque... Batem teclas na fundura
Já é a mão morta, a repetir movimento
Apagando,  escrevendo, sentindo...




João Luciano
08-11-2016



domingo, 6 de novembro de 2016

Os meninos brincando

Os meninos da minha vila, com balões e papagaios
pintaram o céu riscando. E no pardo céu soturno
encolheu a chuva os ombros, e nasceu um céu brando

Pouco a pouco, nuvem a nuvem. Lá se foi
o céu fingido. E seu tom gris, com a tralha colorida
dos balões e papagaios, partiu sem alarido

E se viram as cruzes vermelhas, dos fios enrolados
Os estrondos dos balões! Um grito afortunado!
Lá no fundo um sol novo, trouxe um dia inesperado
















quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Inspiração

Para onde vais? Tu que és graciosa
Subindo as escalas, deixando uma treita
Que quero guardar.
Teu perfume que me ocupa o tempo morto
E o jeito que se desvanece na ladeira

Quem és tu? Nem o digas de verdade, que não entendo
Um suspiro basta. E tua aura me sobeja
...Beija, meu corpo que se comove, e te acalça.

Uma referência - Tu És. Portanto,
mulher, te fito em meu momento nobre
Sei bem, que não sei que noto
Mas pelo menos, é para o céu que meu olhar aponta

João Luciano
27-10-2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A poesia é um manto

A poesia é um manto, que encobre
dentro um ser, que querendo-se expor
não se dá ao mundo, sem que
o mundo se dê a ele

E dá-se então inteiro, o mundo sublime
em uma bandeja de elementos
Que fazem o poeta, ser
Uma rosa de dois ventos

Que sopra para dois lados, sem
muito ressentimento. Dizem que querer
de um mundo que se espera. Mas
que a mudança não vem deles

E se soltam as palavras, disfarçadas
pois bem; sabendo o que são
sem o serem. Diz o poeta: amor,
Sem saber ao certo para que foi

João Luciano
26-10-2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Chegou-me alegria

Não durou eterno, meu íntimo curvado
que se retrai ao mundo, e se abala adentro
Hoje não o houve, hoje não o vi

Se apronta um novo começo. Nem sei
que pensar devo. E que importa o amanhã?
Hoje sou eu, hoje sou feliz

Me deixem estacar quieto, que já não
é longa minha nova quadra. E se vê a neve
de meu sorriso raro. Hoje sou todo, hoje sou amado



João Luciano
25-10-2016









sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Amor

Muito se tem dito sobre o amor. Mas eu, que sei o suficiente para poder opinar, acho que nem tudo sem tem dito bem. Que o digam as linhas das milhentas historietas que o tempo guarda, sempre sobre um indivíduo, num choro de noite perdida, clamando baixinho pela volta da companheira mor. Ou então um outro pobre coitado que nem a volta pede, que nunca houve quem tivesse vindo antes. Variam aqui e ali. Ora falamos de uma cabeleira escura a condizer com carnudos lábios pintados, ora de um dourado que brilha à luz do sol, mais a pele da brancura frágil.  Depois damos nós as cordas da história, e tudo fica confusamente mais profundo e bonito, e nós, emaranhados como gostamos, num sonho de vida inteira. Se termina bem, e o dilema não concretiza, é história pobre, e o interesse perde o tamanho. Ai, se me ouve o Shakespeare! Que lhe dói tanto o peito.

Mas e que mais? Só isto? E tanto disto?

Se é dor? Custa a ouvir, sim. E o amor não é fogo que arde, nem se cobre de uma invisibilidade suave. Ou se é, não é só isso. O amor não dói, e é só isso. O que dói é a dor. Um apego que ao querer demasiado, se desmuronou, numa pancada seca que não lhe trouxe tanto. E vai tudo para o mesmo saco. O amor do buda, e o apego de uma folha persistente. O querer e o não querer mais.  
Tanto é amoroso quem muito quer de outro, e com devoção, o faz ter, como quem nada exige, e tudo abraça conforme está, sem nenhum interesse de tirar nem pôr, ao produto que o tempo esculpiu. 
Mas agora se dói! Oh, que é amor profundo. E não se aperta retraído um coração, se de um acaso se trata. Tem razões para chorar, então chora que não mais tem fim. E a querer e a querer, até não querer mais. 
Quando a alma é outra, daquelas conformadas, que não aqui estão por razão nenhuma, e que respondem direito ou torto na medida em que destapam de manhã os pés flutuantes. Essas que tão pouco anseiam pela vida, e se vão apagando num ofuscar de luzes alheias, lhes chamamos do puro amor. Se deixam o lírio no campo, e lhes basta um olhar contemplativo, aí lhe chamamos de puro amor. E brota a primavera  cheia. 


Mas o mal é que não há quem seja um só lado, e portanto, todos bebem dos dois rios. Tratar destas coisas como se fossem água e azeite, não resulta bem. E o amor não é como dizem ser, um crescendo que se levanta firme e que abraça o mundo inteiro. Eu já cortei o amor, e já me cortaram também a mim, o meu. O amor pode ser cortado, e ainda assim ser amor. O amor não pode ser dor, mas não há amor que não doa. Qualquer coisa sobra, e a tentativa sempre falha. 

O amor não tem caixa onde se o possa pôr como um vaso que brota rosas. O amor nunca cabe.
O amor não é o fogo de Camões, nem o reencontro de Platão. Nem a cegueira de Shakespeare, nem sequer a eternidade de Pessoa, ao afirmar que amar, para ser amar , tem de ser para sempre.

O amor é o que falta. 

O amor é como o ovo da Clarice, não existe. 






sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Melodia

Ao ouvir a tocar, o piano
em passadas de pézinho manso
Deixei o mundo em sua mão

E quando as notas pretas
Soaram transitando, de dedo em dedo
Também eu era escuridão

Tocaram sostenidos, sombria a minha alma
Me descera pelo corpo atiçado
Um embrião de sujo negro, inofensivo
Mas que corroera por dentro, adocicado

Mas logo, as brancas, ao virem
Me salvar suavemente, me deixei ir
Em suas palmas da salvação

E andei, interpolado, entre os dois
Sons que se opondo, não opostos
Me quebraram o coração

Se termina bem, numa nota maior
Se verte uma lágrima, verdadeira
Comoção de quem faz, soar o mundo
Tal como o pranto da vez primeira

João Luciano

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Há por aí um bando

Há por aí um bando, que
Dizem uns; não se sabe ser
Mas que vão no roteiro, atados
Desprendidos e apegados
Em um caminho de nascer

Não se vêem na testa traços
É olhar profundo; dizem outros
Ora há dias muito amados
Que tocam os lírios estimados,
Mas há muito choro noutros

São meninos do tempo todo
E é sempre primeira vez,
Quando olham um pé descalço, ou
Num cair de teto falso, são
Tudo espantos sem porquês



domingo, 2 de outubro de 2016

Na quarta-feira não estou

Vamos contar coisas.
Uma coisa que é boa de contar, é o dia de quarta-feira.  O meu dia de quarta, que por norma é sempre dia nulo.  Como se não entrasse na contagem decrescente para o fim da semana, o dia de quarta é um já conformado momento que se converteu sem saber ao curso do rio passante. Nem acordo irresoluto, nem passeio aluado, e o plano que não foi concebido, funciona perfeito, num balanço imperceptível, que nunca se sabe quando começou. Nem há a meu ver, maior definição de meio termo que o meu dia de quarta. 
Se me perguntarem quem sou, um pouco previsivelmente, direi que não sei, mas que não me venham conhecer em dia de quarta, que lá não estarei sendo eu. Venham antes na segunda, quando meu ar é vagabundo e as olheiras se me encrostam na cara. Quando a cama se embrulha á toa, e os lençóis se me acorrentam aos braços finos. E se me virem de colarinho mal amanhado, assim o deixem estar, que há de chegar a quarta. É só uma questão de tempo. Dois dias a mais e o mundo vira certo. 
Ou então venham na sexta, que não sei que vos diga! E se virem um êxtase pequenito,  é contar o tempo na parede, para que abrande antes da quarta. É só uma questão de tempo e tudo dá certo. 

Mas na quarta já nem me lembro, que foi que se deu? Ai, que não sou eu! 

Que veio no prato que comi? Que o passado se abriu em fenda, e tudo lá sumiu. O que se passa na quarta fica na quarta. Não há registos que comprovem o sucedido neste dia. Sou um insensível que pisa a calçada no dia de quarta, e nem que pingue do céu, uma chuva dourada, me bate no peito o coração comovido. Não há memória que tome nota, e a semana decresce, e perde o tamanho. Quarta é então, á falta de melhor lembrança, um passado distante, um vórtice no tempo, que em abuso dos procedimentos convencionais dos ponteiros, me fez tombar os compassos e perder a melodia. 


Quem sou eu? Tudo menos quarta, creio.






João Luciano
03-10-2016

domingo, 25 de setembro de 2016

O Medo e o Verso

E se a prosa te mordeu hoje,
Com uma bocada de bico feito
Ai, se sei! sangrou e verteu escondido
... O sangue de um eu desfeito

Mas se o verso persiste, morando
Numa alma que o vai vendo
Que mal vem ao mundo, se sem jeito
Escrevinhar no meu caderno?

Então venho a ele, e dito-he sem maneira,
nem amanho de maior segredo
Uma palavra descoberta, nua e deserta
... Quão grande é meu medo!

João Luciano
25-09-2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Chuva

Foi num dia de chuva. E a chuva foi o dia só. O dia "da" chuva. E o comboio me entontava os sentidos num galopear desprendido, mais as pingas, quase a perfurar as vidraças das janelas tristes. Ia já por meio o percurso para Lisboa, e a chuva caindo densa.
Via o Tejo. E a água era abundante Todo um dia que nasceu chorando, e eu, vendo sentado a choradeira, sem verter lágrima alguma. Sério sem porquê, o queixo trancado e o olhar perdido. E contudo tão vulnerável que eu estava. Do meu lado esquerdo vieram dois risos contentes; duas gargalhadas desmedidas a destapar o dia discreto, mas o céu não se contagiou, e o dilúvio parecia o último. Para o ver, que o visse todo, e não ri nem um pouco. Olhei pelo vidro pingado, e continuei vendo o pranto do inicio de semana.
Mas que ofensa era esta? Rir perante este descalabro. Ainda por cima sem qualquer disfarce que se notasse, nem nenhum traço de arrependimento. E continuavam a malvadeza, contando cousas boas da vida, que haviam acontecido no fim-de-semana passado.
"Ai, que meu filho não me dá más noites. Dorme sorrindo. E seu dia é feliz sem birras nem manhas" - disse uma das mulheres enquanto sorria de felicidade, e balançava os ombros num gesto de tremelique do pouco riso que conteve. E eu ao lado ouvindo; entre a janela e as mulheres; entre o defeito e a demasia; forçado a conter a revolta de meu ser absorto.
Toda a gente sabe que não há bebés felizes, nem miúdos sem manhas. Não há direito a tanto! E se a chuva corre assim, não se pode rir daquela forma, nume esbanjar de alegria desnecessário.  Não se pode... Não se pode e pronto!  Tem que se ficar quieto e calado, olhando melancólico para o sítio indefinido, o ponto imaginário do pensamento profundo, que no meu caso ronda o olhar entreaberto a quarenta e cinco graus, vendo quase o chão sem o ver de verdade. Depois deixam-se estar as mãos quietas no colo. Nunca esbracejar repentinamente, nem vozear demasiado. Para isso há o verão, e o sol, e o calor. Mas no inverno, não há cá espaço para movimentos bruscos. Já basta o clima português, de sua virtude tropical, que lhe sobra o quente para dar e vender, para que em alturas de maior aragem, se deixem em paz os amuados, com seus pensares deprimentes, sem que se mostrem demasiado os dentes num ostentar prescindível.
E prosseguiram diálogo, as mulheres felizes. " O meu já faz sete este mês, e na escola já tem amiguinhas que o olhem. Pudera... De olhos verdes. E os amigos que tem, já me enchem a casa com suas malas atoladas, sempre que vêem em grupo depois das aulas da tarde. Às vezes jantam por lá, mas tudo menino de bem. Educados e sorridentes."
E a chuva a cair. E as mãos que quase se  antecipavam para uma palavra de ordem, mas o regaço tomou ordem, e ali se mantiveram paradas. O meu olhar virou ainda duas vezes para trás, e se cruzou por segundo com o sorriso branco da mulher chata. Os olhos viram-se, e logo se deixaram. Nada com esta gente, pensei, gente feliz é do piorio. São os piores. Um dia que a noite nos corra pior, e que o dia nos mande calar num silêncio inocente, que logo vêem dois ou três, em bando de alegria, obrigando-nos a falar, as histórias que tanto ouvem. Eu que nasci em tempo de morte, em alturas de desprendimento, quando os verdes caiem mansos, inevitavelmente, e perdem seu tom bonito. Eu, que tanto prezo o cinzento e sua virtude de ser meio. Eu que vejo o ir das folhas, morrendo ao vento, como se nascessem no ar novamente, talvez não saiba o que é sorrir. Talvez, eu nem saiba o que é viver em uma árvore, preso aos ramos da mãe maior, sem que me dê logo a ânsia de um despegar definitivo. Mas ao menos não pára a chuva, é o que vale é que não pára a chuva, está o céu de acordo comigo. E vai caindo a chuva densa. Lisboa vê-se ao fundo, e já vive sob manto cinza.
Cheguei ao local. Quatro homens se sentaram, e ali ficaram. Um baixinho boa tarde, e foi . As paredes de sombra escura e as persianas entreabertas. Lá fora ainda se ouve a chuva. Ninguém riu. Sentei, e é tudo. Trabalhei contente.

João Luciano


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Numa Mão

Numa mão...
Numa mão, de quem quer
O sopro de um som que ecoa
Se veem rastros de lassidão
Aqui e acolá...
Numa mão nua

Que a minha que vem à luz,
Numa alvorada bagunceira
É a pejar-se, que sorrateiramente
Se desvela ao sol recente

Vai vindo... Vai vendo...
Minha mão mol, desguarnecida
E o quebrado pulso de firmeza
Ao romper da veste envelhecida


João Luciano
15-09-2016


sábado, 10 de setembro de 2016

Intimidade

Do tórrido beijo teu
Fiz meu aninho duradouro
E do palmo de minha medida
Um gear em completude

Que aqueceu depois, da algidez
Um lançar de queimor ampliado
Para no corpo descer forte, em abalo
De sentimento almejado

Mais o pulsar, que era o meu
Coração cego e embevecido
E o olhar que se atreveu
A fechar-se, contemplativo



João Luciano
10-09-2016






domingo, 4 de setembro de 2016

O Homem Novo

Do crer se fez o homem novo
Num sonhar que se continua
E assim se foi vendo, vulto
Por uma nesga de fechadura

Agora ao desvelar-se, enigmático
Se desencontra revolto, entorpecido
Como um vão que desce escada
Ao lugar oprimido

Aventureira contenda
Estranho bando da desgraça
Armamos dois olhos, com venda
Por mais que se morra na praça



João Luciano
04-09-2016


















sábado, 3 de setembro de 2016

Paremos o tempo

Paremos os três ponteiros,
numa alusão de murmúrio tórrido
Sussuremos!
    já ao tempo parco,
    insuficiente,
Todo o pesar do antigamente

Prás lamúrias ocupantes,
do instante diminuto
    Paremos o tempo,
    Doravante!
Que há do passado que era meu?

Paremos o tempo!
Enquanto há tempo...
 
Que se dobra a dor,
De casca dura
Á corrente de rio passante
Escapa-se o mar,
    Amargura...
Nem se vê o viajante


João Luciano
03-09-2016












sexta-feira, 2 de setembro de 2016

1 de Setembro

Se meu amar toca o mundo
De olhos tons de avelã
Já é o vagaroso cair das folhas
Num sopro nu da manhã

Vejo mil mães que se despem agora
Dos agasalhos mais redobrados
Mal a época lhes traz o vento
Logo desnudam braços cruzados

É o chão que se cobre em parte
Num tapar de calçada acabada
E os filhos que se largam absortos
Dos corpos da mãe abastada

Desprende-se miseravelmente
O fio de nuca da gente humana
Para depois, se levantar novo
Num chegar de outra semana

João Luciano

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Senhora Solidão


Sozinhos
Somos mais
Sozinhos 
Não existem dois nem três
Sozinhos
somos um
Um só sem porquês
Sozinhos
Somos juntos
Acompanhados
Somos uns quantos
Uns quantos somos muitos
Mas sozinhos somos tantos
Quando a senhora solidão
se acompanha por algum de nós
Ela mesmo partilha
Pois a própria solidão
Precisa de companhia



João Luciano
28-3-2016

domingo, 28 de agosto de 2016

Conselhos e lamentações

Ah! Esse corpo encurvado, que se faça erguido
Ah! Esse olhar caído, que não viu que o justifique
Ah! O desânimo que é vaidade
Ah! Que mal que se nega o despique

Oh! Que é cedo para amores perdidos
Oh! Que é bela a infância de olhos nus
Oh! Quem dera o tempo voltasse
Oh! Á alegria dos dias primeiros

Ah! Na Primavera de há dois anos...
Ah! Que o calor que me trouxe hoje
Ah! Pudesse eu o que podia antes
Ah! Que os defeitos eram outros

Oh! Ponderada opinião a minha
Oh! Tão certa de alheios mundos
Oh! Que sei, que saiba, o que sei mais hoje
Oh! Que o diga de maiores certezas


João Luciano






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Meu nariz pingado

Ja perdi o gosto ao prato. E o faro, esse nem me aflige desde há muito. Sofro de um mal de nariz que me ocupa os invernos de lenço na mão, e gastam-se sem medida, ensopados pelas mucosas tiradas a custo das narinas avermelhadas. 
É tudo esforço inglório. Não há um concretizar nunca. Sempre aquém do que deveria ser, como um pinheiro que quase tocou o céu, ou uma prece que ao pedir demasiado, morreu padecendo do que faltou na dádiva do altíssimo. 

Então faço força com o nariz já esfolado, mas é ingrato, só saiem pingas poucas, e o entupimento não cura, para mal da minha voz  anasalada. Pensei para mim mesmo," É o que tenho, e foi Deus que me deu"  mas até o pensamento saiu froxo, trocando os "mês" pelo "bês". Era gozo próprio, humilhação que vinha de mim para mim. Quem dera poder livrar-me deste defeito interminável num esforço último e único, que a voz me viesse nova e limpa, que seu som se recompusesse forte e projetante. Que o aroma da terra molhada me invadisse livremente as narinas, numa novidade de antigamente. Mas nunca assim foi. Basta que vire o tempo, umas quantas águas que pingam, uns sopros de maior nome e um céu que desce aos prédios, que já se me dita o destino, imediatamente, até ao voltar do próximo sol.



Dos alperces que meu quintal brotou, se encheu a mesa do jantar. Lindos, laranja avermelhado, com pele apetecível. Peguei um, trinquei, e foi como morder água fria, inodora e sem sabor. Não fosse o tatear aprovado que nem a pele áspera lhes provava. Sobrou-me pouco da essência da fruta. Maldito inverno que ainda se avizinha, e já me vem rogando praga.

A mim só me chegou parte do todo inteiro. A mim, no inverno, só me restam os dois sentidos. Ouço o vento atentamente e quase que lhe toco esfomeado. Quanto à visão, é turva todo o ano, meu ver nunca foi de olhos.

João Luciano




terça-feira, 23 de agosto de 2016

E se Deus fosse pintor?

Diz-se o mundo em prosa. Porém foram versos os primeiros dias. Na forma de livre encanto  traziam consigo nas quadras, como um feto que aguarda calmo, o rumo a tomar adiante, afinando assim ao criador todo o mar que se havia visto bruto. Só depois, depois do esboço primordial, da poesia vasta e vaga,  das palavras que fogem em apresso, o texto tomou sua corrente, e se formou a circunferência linear, com mil traços curvos, que a antecipavam ao de leve num rodopiar de lapiseira ambicioso.

Terá sido Deus um inspirado pintor? Um poeta que nasce antes do Tempo?


Lá fora faz sol forte, brilha como nunca a parede branca de meu quarto. Veem-se nela pendurados, dois quadros de rostos preto e branco. Olhos-os em desinteresse e reconhece-lhes limitações. São dois filhos que me olham mudos, desprovidos de alimento. Foram dados ao mundo prematuros e faltam-lhes os cabelos.
Não tenho porém em mim, menor ressentimento que o valha, nem me acordam na madrugada os berros das criaturas incompletas, esgueirando-se para fora da moldura, com insultos da boa língua protestante. Antes assim fosse!... Que merecedor de repreensão já sou eu grande, e o tempo me aperta em soluço incomodativo, o coração que tanto me inquieta o corpo.
Na melhor das hipóteses, retomando o percurso do carvão afiado, riscarei uns quantos fios que se desencontram pela tela abaixo, sem muita vontade porém, diga-se. Não fossem pois os gritantes que me rodeiam, que toda a obra era meia, todo o texto era verso perdido, e o pensamento...oh esse maldito!! Era fazer-lhe valer o nome. 

Mas agora os quadros ; esses é ouvi-los calados, basta que me olhem a mim, maltratados pelo tempo, inexpressivos e inacabados. Que farei com os quadros inacabados senão os posso juntar aos bons? É amontoa-los? Será certo? É recuperar-lhes a vida, ou melhor dar-lhes a vida? Não, isso não. Ou há recomeço total ou tardam morrendo os interruptos.

Mas e se Deus fosse pintor? Ninguém responde? Se sua tela fôssemos nós, pregados às paredes nebulosas do paraíso. Se é que as há para lá do céu vistoso, lá onde o céu não sabe que é céu, porque lhe falta o teto. Se porventura somos produto de inspirado momento divino, não terá Deus também seu olhar agudo, de crítico da Arte moderna. Não lhe faltarão contudo, cabelos por deliniar nas cabeças de seus filhos?
E agora lhe gritamos nós, tal e qual como haviam feito as telas de meu quarto, se o pudessem. Gritamos pelo fio de cabelo que nos falta. Pela pedra que termina a corrente desvairada. Pelo número último que descodifica o infinito e o põe perante o fim mais cruel. Gritamos pelo ponto final. Que Deus ponha termo ao quadro e que assine por baixo. Sim, que se lembre de o marcar. Não vá o diabo tece-las.


No fim de tarde morno, á hora do sol-posto, sentei-me ma cama desfeita. Nem na volta mais longa do cérebro perplexo que é o meu, havia passado outrora tão insólita questão quanto esta. E se a Deus, lhe permitíssemos o erro?

João Luciano




domingo, 21 de agosto de 2016

Sonho

Amo o erro
De todo o meu coração
Sim, coração
Se ao cérebro lhe cabe os acertos
A este bastam-se-lhe os sonhos
Os sonhos e os devaneios
Os equívocos grosseiros
Viver sem sonho é escapar-se o coração
É morrer em antecipação
Acordar na escuridão.
Porém, viver de sonho
É negar a compreensão
Que ao homem chegue então
A linha de separação
A devida distinção
A mais que opinião
Quantidade de precisão
Entre a cama e o chão
Entre os dedos e a mão
Entre a realidade e ilusão


Joao Luciano
06-07-2016



sábado, 20 de agosto de 2016

O pó que cegando, fez ver


Não fossem as estantes dos famosos livros estar por baixo do piso zero, e os misteriosos contos que se continuavam por gerações, herdados do boca-em-boca e relatados nas altas horas vespertinas aquando dos jantares e ceias, pelos avós do menino Timóteo, sobre encantos e monstruosidades escondidos, fadas e duendes entre páginas que se abrem; que ele não teria decerto esta curiosidade que agora o ocupara, de descer a íngreme escadaria do lado da despensa, que conduzia á cave.
O acto não fora ainda consumado. Não só por falta de oportuno momento, pois era casa sempre cheia, e seria portanto, inevitavelmente apanhado em flagrante se se aventurasse pela escadaria abaixo, como pela celebração da habitual hesitação em momentos de risco, que travava já em pés de chumbo o menino Timóteo nas duas malogradas tentativas da semana anterior. De todo o modo, era menino persistente. Talvez os dias vindouros trouxessem novidades mais favoráveis – pensou otimista – e para mais ainda, operações deste calibre, cujos fins sempre são ocultos e muitas vezes de difícil acesso, duros de roer, exigem desde já uma mentalidade disposta ao erro, á tentativa-erro. E bem vistas as coisas, um par de investidas fracassadas não poderiam jamais justificar um baixar de braços definitivo, uma desistência desanimada Mas desengane-se quem pensar que o menino Timóteo era desses que se deixam tombar ao primeiro sopro da ventania, pelo contrário, era antes criança curiosa, em idade de pura novidade e anseio de medos. Não tarda que por aí esteja já a empregar planos táticos de intervenção às secretas, numa dessas noites em que tudo se cala dormindo.

Timóteo comia agora á mesa, rodeado do pai e mãe, avó e avô e dois irmãos mais novos, que enquanto às ordens da mãe, fingiam ir comendo de bom-grado, despejavam sorrateiramente, bocado a bocado, naco a naco, o frango com caril pelo um saco abaixo, que escondiam pendurado numa das gavetas contidas no tampo. Por norma, o irmão mais velho nada dizia que os denunciasse, ia rindo como cúmplice da traquinice, mas hoje por excepção, e numa palavra de ordem, repreendeu firmemente os mais novos que parassem com o desperdício. Assim o fizeram os pequenitos, bem-mandados, como nunca antes visto. 
O jantar terminara em silêncio, após gritarias sobrepostas, correções e chamadas de atenção de lá para cá, resultantes da intervenção quase paternal do irmão mais velho. E ato contínuo, um por um, tudo fora dormitar para os quartos, como que em refúgio da barulheira, enquanto sozinho, o menino Timóteo, ainda na sala, sofria o sermão do pai, que lhe dizia não ter agido da forma correta com a miudeza maior. Timóteo sentira-se alvo de injusta repreensão, mas calou. Sua vingança estava para breve.

Nessa mesma noite, horas mais tarde, Timóteo levantou-se do sofá – onde tinha ficado intencionalmente a fingir o sono – e num golpe de coragem sem berço, pé ante pé foi-se aproximando da despensa. Seu pensamento fora atormentado milhentas vezes durante o percurso sob a possibilidade do fracasso, seu corpo tremendo em anseios já conhecidos, suas pernas cedendo ao frio do inverno que se fazia sentir agora mais, enquanto lhe brilhavam na testa gotas de suores frios. Porém hoje era noite de bravura, e esta tomou-o então por completo, a pontos dos pés, outrora convertidos em chumbo, terem agora ganho asas, e em salto subtil o terem levado até ao destino tão desejado. Timóteo tinha o mundo a seus pés, ou pelo menos, uns metros abaixo. Talvez fossem dez os degraus a descer, talvez vinte, ou trinta, ou sabe-se lá cem ou duzentos. No entanto estava decidido a não vacilar desta vez, por maior que fosse o negrume para lá da porta aberta, havia de o descer até ao fim, para depois alcançar em satisfação todas aquelas páginas que se fechavam por anos, e abrindo-as uma por uma, lê-las, como se estivesse descobrindo as origens do mundo.

Descidos os três primeiros degraus, já se via o fim á escada. Era curta e encaracolada, sem corrimão. E como que em tons de amarelo fogo, no fundo, via-se uma claridade pequena sobre a parede oposta á qual estava vindo a descer, e donde saia embutida, a escada.  Já de pés assentes no piso inferior, Timóteo dobrou a esquina que vinha no seguimento da descida, e olhando em espanto de criança para seu lado direito, avistou espalhadas pela cave, quatro enormes estantes de madeira velha, atoladas de alto a baixo com livros que se pareciam iguais entre si. O adjetivo, atribuiu-o á coloração das capas, que por sua vez se apresentavam cobertas de pó castanho carregado, confundindo mesmo os livros com as inúmeras prateleiras de madeira. De resto, em tamanho, eram diversificados. Uns grandes e largos, outros finos e de tamanho médio, mas quase todos amarrotados algures, ou na ponta das páginas, ou mesmo, e em muitos casos, em todo o seu volume. Fazendo lembrar por vezes, panfletos velhos de importância nenhuma. Timóteo transbordou alegria, estava extasiado em silêncio, como uma criança que tenta não rir perante a mais cómica das piadas.
A avaliar pela primeira impressão, era espaço abandonado, caído em esquecimento por longos anos. A luz era fraca. No teto sujo, pendia uma lâmpada num fio descarnado, e era só. A atmosfera era pesada e o ar denso, impessoal, impróprio a crianças. Havia também uma espécie de fumaça que não o era, um antes nevoeiro sublime que entontava sensações. Talvez outrora a sala fosse usada por velhos homens fumadores, que bafejando constantemente charutos ou cigarrilhas, fossem clamando poesias e dizendo histórias de voz alta e timbre grosso. Timóteo já imaginava um, sentado no cadeirão do canto da cave. Barbudo, e de cabelos desgrenhados lhe construiu a imagem, quanto ás vestes, teriam de ser antigas, claro, e de preferência velhos farrapos rotos que concordassem com o parecer velho da sala actual. Tudo isto não levou minuto a passar-se na cabeça de Timóteo, foi mais um de seus devaneios passantes que vão e vêm; este foi e não veio. Não precisou de muito tempo para que a hipnose contemplativa lhe tomasse o corpo em completude. Não andava como gente normal, Timóteo deambulava em puro encanto pelos pequenos corredores da cave, e fitava os livros sem atenção consciente, como se todos fossem um só, unidos, e o olhassem a ele dizendo-lhe “olha-nos” numa espécie de feitiço anónimo. Após os instantes do bruxedo (salvo seja o termo), Timóteo decidiu escolher ao acaso, um dos livros que estivessem á sua altura de menino, não no sentido figurado, mas no propriamente dito, visto que eram altas as estantes, o que o impossibilitava de alcançar as prateleiras superiores. Ficou –se nas que lhe davam pelo joelho. Era categoria filosófica, mas Timóteo não leu o título, não só pelo pó que dificultava a tarefa, mas também pela ânsia de lhe ver o interior das páginas. Leu sem grandes assimilações, um ou dois capítulos introdutórios, era denso de conteúdo, e pesado na volumetria. Uma compilação de pequenos pensamentos da filosofia antiga. Depois passou sem demoras á secção das fábulas – que lera com maior proveito – e seguidamente ao corredor da ficção científica, onde não demorou muito, até chegar, em última leitura da noite – estipulou-se a si mesmo – á divisão da poesia. Aqui mesmo, deparou-se com um capa que lhe captou a atenção. Era de tons de vermelho-tinto, com pequenos e delicados traços de floreado na lombada. O facto de Timóteo se encontrar agora particularmente desperto, deveu-se também á limpeza de que este livro se fazia ver, ao contrário de toda a sala, o pó parecia aqui não ter caído abundante. Havia-o sim, mas apenas em redor do livro, como se este beneficiasse de virtudes humanas, e tivesse sido limpo em datas de passado próximo. Timóteo estava decidido em alcançá-lo, não fosse ele estar a dois metros de altura, que já decerto neste momento lhe comia as palavras. Não havia tempo a ser perdido, por entre a porta que deixou aberta, já se iam vendo noções de dia nascente. Timóteo pensou em escalar as prateleiras, pegar o dito-cujo, e á falta de melhor ideia, correr em silêncio para seu quarto com o livro debaixo do braço. Mais tarde teria tempo de o ler, embrulhado nos lençóis de seu aposento. Assim fez. Numa acção de pura loucura, subiu torto a estante acima, e facilmente tocou o objeto num gesto que o fez tombar, e consequentemente cair-lhe com peso em cima do olho esquerdo. Afinal havia pó, sim. As mil páginas abriram-se em obrigação, como que acordadas á força, e de lá saíram mil grãos de areia autêntica, que, em conformidade com o choque, danificaram generosamente a vista esquerda do menino Timóteo. Como o sangue era ainda quente, a dor só se fez sentir minutos depois, quando já se embrulhava no edredão da cama de seu quarto, simulando um sono quieto.
O que iria dizer agora Timóteo, com um olho negro? Esconder-se não podia. A manhã aproximava-se em pressa, e a luz que perfurava as precianas fez roxear ainda mais o inchaço. Não tarda muito teria sua mãe á porta dizendo-lhe que se despachasse. O autocarro do colégio não atrasava um minuto. E o pior é que Timóteo por norma também não.

Poupem-se os meios ao leitor, que agora são dispensáveis. Atalhe-se o caminho, deixando em suficiência os termos do que aqui veio depois a acontecer. Timóteo, para além de sermões valentes, levou acoitadas de força, e sem alternativa, fora obrigado a confessar o crime perante o agregado inteiro. Foi manhã de mau começo, e o dia que se prevenisse.
No colégio, a rebelião da miudagem encheu de insultos e troças a nova mancha de Timóteo. E se ele não verteu lágrimas, foi só porque o abcesso assim o impedia. Foi tortura desmedida, tanto em casa como fora. Timóteo já ao tempo que se havia arrependido do ato que tivera, e perguntava-se a si mesmo se já não lhe havia servido de castigo, a cegueira temporária.

Durante as noites seguintes, sua cama foi sua companheira mor, a par do livro que havia furtado da cave misteriosa. Lia lentamente cada palavra como se delas viesse um mundo novo, uma flor que desabrocha no cimento de um muro, e na quebra dos versos sentia a quebra da alma, a melodia da poesia que acorda suavemente do sono o músico, e que o faz dormir em seguida, o sono do sensível. O mais sublime de todos os sonos. Via como se tornava agora um deles, sensível, de dia para dia, cada vez mais. Timóteo dormia enquanto acordado, jamais havia saído da cave, tudo eram estantes de livros. Sentia cada toque de alma, cada nota do vento, cada choro alheio era lágrima também sua. Via o mundo em profundidade. Porém o mundo era cinza, impenetrável. A lidação social uma tortura. A escola, um período longo e doloroso. Timóteo via-se procurando cascata em muralha de castelo. Um esforço inglório. A troça havia piorado. Timóteo era cego do olho esquerdo.

Numa manhã igual ás outras, na sala de aula, a professora pediu a Timóteo que lesse um texto que ela havia escrito no quadro, mas ele não conseguira ver bem, sua vista defeituosa o impedira de assimilar coisa longe. Então num calafrio de vergonha íntima, Timóteo leu conforme pôde. Era poesia bonita e leve. Aqui e ali, ia trocando palavras por outras que pensava ter visto. A ordem do poema ficou completamente alterada, e a essência, desvanecendo, foi perdendo sua magia. No final da leitura, a classe soltou uma gargalhada diabólica que havia suspendido até então, em troça já familiar e de má memória. A professora calou, e todos disseram quase em coro “ Cegou-te o olho esquerdo, mas não vês direito, com o direito!”.  
Timóteo chorou e calou por completo, mas no fundo de seu íntimo, sabia que via muito mais para além dos olhos.


João Luciano
20-08-2016




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Culpa

Nem se praga ou sina fosse
Notariam em mim de igual forma
Este sombreado que me vem dentro,
Esse cansaço que me veem fora
Estilhaços de alma dispersos
Que se partiram algures dentro
São olhos entreabertos
Perdidos há já tempo
Maldito destino que não veio
Desgraçada liberdade a minha
É grande a dor, o ter de escolher
Eterno ardor, o ter de ver
Antes fosse culpa não minha
Lá do alto céu divino
Antes fosse assim, o género de Caim
O erróneo que vagueou pelo mundo
Mas sem ter podido dizer sim
Sem escolher, sofreu
O erro não foi seu
Já este é só meu
Ninguém mo deu
Se erro, escolhi errar
Se amo, escolhi amar
Mas escolher dói na alma
Não é coisa calma
Se Caim morreu condenado
Irei eu sendo adiado
Joao luciano



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sou escasso, sou esculto

Falho quando me pedem
coisas para amanhã
caio quando cedem
à palavra vã

peço demais aos que falham
falho demais aos que pedem
por isso sou meio termo
e não um lado só
escolho meu temperamento
sem dar nó

vergo conforme posso
dou conforme peço
e tropeço
como todos nós
tento não ficar a sós
nem do avesso
nem prometo
nem cumpro
sou vago
sou vulto
sou escasso
sou esculto



João Luciano
29-05-2016

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quão pouco somos

No mundo que nos opõe, inevitavelmente
Entre a chuva e o sol ardente
Vai e vem um vento que os afaga,
Tanto ao tempo como á gente

Um dia mais, e tudo se irá junto
Dos polos que se refutam,
Aos elementos que se concordam
Dos filhos que lutam,
Aos amores que transbordam

Tudo é como nada,
E o nada é tão pouco! Como o tudo
Guardo nas costas as mãos crispadas
E na boca o alfabeto mudo

Retornarão atrás as marés; uma última vez
No tom de fim de tarde rosa
E o calar de meu propósito, contudo
Que é o da mente tenebrosa, e olhar agudo
Dever-se-á ao sol que se pôe ao fundo





João Luciano
16-06-2016






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Desânimo

Conformada quietude a minha
De maciez demasiada
Padece de violência necessária
Para ver obra acabada
Acalmam-se-me os braços finos
Sempre algures a meio
São eles o desânimo
Mas quieto nao sou eu, afinal
Antes fosse bom ponteiro
De hora marcada e minutos certos
Que tudo lhes dá na ordem
Sou antes inconsistente, digamos
Profunda melancolia
Como o sono de todos os dias
Que tardando ou não
Sempre se faz sentir
Vou vivendo, vendo-o vir
Vendo-me ir, divagado
Estou quebrado
Sou bico de esquina
Aresta do cubo quadrado
Que por ser apenas quase face
Estou impedido de tocar nos lados

João Luciano



Imortal natural

Sou imortal
no que toca ás ideias
morrem as peles
ficam as veias
conduzem o sangue
ao devido lugar
não param a meio
mas não há pressa em chegar
Sou imortal
com o maior dos amores
matemos ilusões
e os demais odores
acabam os medos
e os vários desejos
floresce a primavera
com os mil beijos
nascem as árvores
e os mares enormes
choram as nuvens
de céus uniformes
Sou imortal
uno em um todo
venho da terra
e é para lá que torno
E os planetas
e os cometas
os anos-luz
e a própria luz
tudo cabe dentro
não há cruz
nem há só um ventre
nem um só Jesus
Sou imortal
nada sobra
nada falta
não nasci
nem morrerei
abastada família
a de nossa mãe

João Luciano
28-05-2016




domingo, 14 de agosto de 2016

Folhas do devaneio

Troco tudo por um troco
tudo quanto faço no meu bloco
Brancas folhas de gramagens diversas
viram parteiras de ideias dispersas

Nelas cai o mundo de olhos meus
o caos á minha ordem
As mãos de preto sujo
A alma de superordem

De rabiscos e gatafunhos
está já o quarto cheio
enchem e tapam o pavimento
as folhas do devaneio


João Luciano 
29-06-2016




Na manhã que quase nasce, vejo um mundo quase meu

São os dois antebraços que vão suportando o peso de meu corpo que se encontra oblíquo, inclinado sobre o parapeito de mármore da janela de meu quarto.
É quase manhã. Mais um dia irá nascer. O céu apesenta-se ao mundo, e hoje, mais se parece com um cimentado chão, tal a opacidade de que se veste. Não perdeu contudo a subtileza.
Duas nuvens, tímidas como eu, soltaram agora as mãos uma da outra, e por entre elas fez-se ver uma breve noção da manhã. Porém, o sol ainda se encolhe, é tempo de espreguiçar seus membros radiosos. O ar é leve, e também meu corpo. Parece ele estar suspenso no ar, pairado no vazio, como um anjo que ao cair do céu fora amparado pela atmosfera.
Reina o silêncio nas ruelas de meu bairro. Tenho a sensação de recomeço total, própria de um nascimento consciente na hora do parto. Vejo um mundo que é quase meu. A ânsia ou necessidade de testemunhar todos os eventos matinais, fez-me madrugar. 

Do outo lado da passagem donde vem a escassa luz, tudo ainda dormita. Dei por mim a pensar enquanto esperava do sol as notícias rotineiras, que se todo o mundo pudesse aqui estar, olhando o lívido rosto da manhã, escutando a mudez das ruas, só de quando em vez interrompida pelo som das solitárias folhas, que dançando ao sabor do vento, vão como que despertando do sono as duas ou três árvores que aqui foram plantadas, ou pelo latir de uns quantos cães vagabundos, que são os galos da cidade; se sentissem como eu, o repouso da azáfama, a quietação das gentes, chegariam provavelmente á mesma reveladora conclusão que agora cheguei eu. É grande a vontade de partilhar.

João Luciano
2016


sábado, 13 de agosto de 2016

Não me digam nada (certamente)

Não me digam quando
As verdades tocarão os lábios
Nem o mundo se tornará verdadeiro

Não me digam ás claras
Para que serve o canto dos pássaros
E a dança dos ventos

Não me digam de frieza
A inutilidade dos quatro versos
E a delicadeza do Outouno

Não me digam nada, certamente
Calemos a teoria, a contagem das marés
...Ouçamos a brisa, 
...Sintamos os pés

João Luciano

01-08-2016


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A rocha

Numa das extremidades de meus dedos, tocaram delicadamente os seus cabelos. Estava a brisa a meu favor. Era meu o mundo. Não lhes senti, nos fios, nenhum toque de rosas do costume, nenhuma verdejante fragrância que me entrasse pelas narinas, não senti tao pouco qualquer vestígio do habitual jasmim que sempre se encontra algures nas histórias deste tipo. Deixei correr o vento, algo haveria de vir. Mais não fosse um rasto do perfume de ontem, uma essência do amor provável, um calafrio de ansiedade própria, um golpe do calor humano quando junta dois corpos, um sorriso do alto estrelado, uma estrela que risca o céu, um sinal divino. Enfim, um empurrão de "vai-lá-é-esta". Mas nada veio senão o cheiro da terra firme, da terra que não cede aos sopros da ventania. Estava a rocha ali perante mim, a pedra que me chamou de volta. Parei de sonhar. Acabaram-se os devaneios verdes, as ânsias de amores perdidos. Trouxe me de volta o rochedo. Amparei nele o fatigado crânio. Era rocha fofa. Adormeci nela deitado. Na manhã seguinte, embora envolvido por braços de natureza rochosa, acordei sem mazelas. Fiz da rocha minha cama. Fiz da rocha minha vida. Amparou meus devaneios. Minha rocha querida.

João Luciano

2016


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A banalidade suposta


No dia de amanhã, sem significante diferença dos dias de até hoje, o homem levantar-se-á da cama nas primeiras horas matutinas, colocará no corpo a indumentária adequada á ocasião que o espera, e sairá pela mesma porta que o tem visto passar para lá e para cá durante os já vários rotineiros anos. Se nos for permitida a descabida fantasia de dar ás portas aquilo que a nós nos tem faltado, diriam elas, inteligentemente, as ombreiras da madeira, em tom de impotência, natural das limitações físicas a que estão sujeitas, que se andar pudessem, sob duas pernas humanas, a este homem travariam e impediriam, todo o santo dia que por elas passasse, questionado-o sobre o capital motivo que o estaria fazendo esquecer delas, não lhes notar a presença nem o devido valor.  Como que indignado pela interpelação fantasiastica, o homem não teria outro remédio senão responder perguntando - E porque haveria eu de dar conta de coisa banal, e que interesse nenhum tem? Ao que sabiamente, ato contínuo,  responderia a madeira, para benefício da sua nova habilidade intelectual. Pois se banal somos nós perante ti, e portanto, segundo dizes, desinteressantes, diz-nos de que interesse se veste a tua rotina banal? Os repetidos rituais matinais? as vazias palavras que trocas com os colegas de trabalho? As fragmentadas funções da tua actividade, que essas, se de um todo são parte, basta-se-lhes a sua insignificante pequenez para que se calem? E tudo quanto tens feito até hoje, de que vale mais senão de um caminhar de trilha que de certo só tem o fim? Nada disto te soa banal? Algo disto tem interesse?
A vida tem destas coisas. Portas que se fecham, impeditivas. Outras que se abrem, convidativas. Objetos que parece que falam. Que exprimente qualquer um deitar por mais de um instante a vista ao teto, por exemplo, que logo verá o quão surto de banalidade de lá sairá. Por outro lado, quantas ideias, de lá não sairão também novas, prontas a ser usadas. Já não seria a primeira vez que o teto ou a parede ou a porta nos fariam como que em tom de flash-back de quem tudo vê para trás, ter uma ideia nova para a frente, dessas ideias  que reescrevem os já antes mal previstos futuros.
Portanto que não menospreze o homem o banal, que é lá que muitas vezes está o contraditório. Que o diga o nosso homem que neste dia, de casa não saiu. Paralizaram-no os veios da madeira, a profundidade das gretas das ombreiras. Quem sabe, se dali sairá amanhã a nova sinfonia imortal, a mais recente Mona Lisa ou até mesmo, arrisquemos, a resposta ao porquê de aqui estarmos.


Joao Luciano
2016








quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Essência ou parecer?

Subitamente me veem os caminhos 
ao limiar da conceção humana
Não busco nada, são já vizinhos,
Como antigos azevinhos 
que enfeitam, as paredes de minha religião

Ungidos arvoredos, sagrados de outrora
Renasceram em segredos 
Para iluminar minha hora
Plantas de folhas lustrosas que me vestem 
cintilantes bagas vermelhas suspensas

Tremulante superfície, que nada mais é
Cintilante, a casca de Minh ‘alma
Ó essência de humano ser!
Que fazes tu para te fazeres ver?
Senão vestir-te de um parecer

Se és isto ou aquilo, sê-o então, pois
Não navegues demasiado a barca
Não divagues pelos mares do "ser" ou "estar"
Quem somos nós senão a farsa
Em tentativa de se decifrar?


João Luciano
03-08-2016


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Estória de um abandono

O senhor Fernando não notara que no canto do quarto – talvez por ter sido do lado oposto de onde ficava a cama – já se acumulavam pequenas manchas de umidade. E portanto deitara-se sem preocupações de maior calibre, e dormira uma suave noite de sono. Uma noite calma, como todas as outras o tinham sido antes. O senhor Fernando vivia sozinho, e completara hoje oitenta e sete anos de idade, e catorze de solidão conjugal. Porém, esta absoluta solidão só se havia consumado, nem tinha ainda cumprido uma semana. Tinha ficado neste estado quando, já em alturas de naturais e compreensivas exigências da vida, o recém-adulto seu neto decidira alugar casa fora da aldeia, e dar o nó com a namorada na cidade.

Nas noites primeiras, o sono ainda se escondia por entre os lençóis, e o senhor Fernando, cansado como estava das amarguras da vida, limitava-se a esperar que ele chegasse. Enquanto o fazia – eram sempre longas as esperas – dava voltas e voltas ao cérebro, em tentativas malogradas de compreender os misticismos deste destino, que agora o encurralara entre a espada e a parede. Ou entre a cama e a flanela. Por um lado as saudades apertavam-lhe o coração, e as lembranças dos viveres passados eram – apesar da idade – como memórias vivas, detalhadas de pormenores imensos, que quase o faziam implorar o regresso do neto a casa. Lembrara-se do chá das cinco. Ritual em que o neto tanto fazia questão de estar presente. Passavam-se duas e três horas na conversa um com o outro pela tarde fora, até á hora do sol-posto. Depois jantavam á mesa juntos, onde naturalmente também não faltavam trocas de palavras e novidades diárias – estas últimas, mais do neto. Na maior parte das vezes, o neto apenas ouvia. Os assuntos do avô eram-lhe ainda incompreensíveis para sua idade fresca, mas, e para que não se pense que só de ouvido preenchia suas presenças, saiba-se – e nisto pensava agora o avô – que sempre que a conversa tombava para as lágrimas, em assuntos de maior delicadeza, comovia-se de tal modo o neto a pontos de com a sua mão macia, num gesto de pura ternura e indizível compaixão, limpar do avô as gotas salgadas á medida que lhe iam escorrendo o rosto.
- As lágrimas não podem secar na pele avô. Tenho de as limpar antes que desapareçam nos poros. Cada lágrima que a pele seca é cada tristeza na vida futura – dizia o neto em tons de sabedoria de pouca idade. Só quando se certificasse que já haviam terminado as amarguras, ficava descansado, e podia ir á sua vida.
Se por um lado tudo isto palpitava no pensar do Senhor Fernando, dizíamos, por outro lado, sabia como era a vida, e os seus inescapáveis ciclos. E que de uma certa forma, tudo estava seguindo o rumo normal.
No final do primeiro mês, o sono já era de fácil encontro, e o senhor Fernando já não se embrenhava como antes nos seus debates introspetivos de prós e contras quando se ia deitar. Seu pensamento era outro. As manchas da umidade tinham subido parede acima e já se haviam transformado numa espécie de aquosidade saburrenta que chegava a pingar os azulejos e a tresandar a mofo.

O senhor Fernando pensou em chamar alguém para o ajudar. Mas o neto nunca fora para si uma opção válida para este trabalho. Além disso não sabia trabalhar com o telemóvel que este lhe havia oferecido, nem o queria incomodar, se conseguisse. Portanto decidiu chamar o vizinho da casa ao lado. Um homem robusto e de bons princípios como este era, jamais diria que não a um velhote em fim de vida. Foi portanto assim que fez. Com maior determinação que nunca, o senhor Fernando despiu as vestes caseiras que já cheiravam a mofo, vestiu o que melhor pôde, e pôs os pés a caminho.
Não precisou de andar meio caminho para que logo dali visse – admirado – uma tabuleta na janela do vizinho que dizia “Vende-se”. Não queria acreditar. Indignado com o mundo, o senhor Fernando tornou atrás a trilha, cabisbaixo, e percebera que havia passado já mais de mês e meio desde a última vez que fechara a porta de sua casa. Que se ainda se tinha podido alimentar em todo este tempo, fora só pela bondade do padeiro local, que não tardava na sua hora matutina, a entrega do pão nosso de cada dia.
O senhor Fernando não dormiu nessa noite. Ou então dormiu mal. Um levanta-deita que mais se parecia com um sonâmbulo acordado. As paredes pioravam a cada dia passante. Já o teto era preto, e o corredor que se prevenisse.

Meses mais tarde, o padeiro já não entrava em casa do senhor Fernando. Pendurava na porta os papos-secos ensacados, e seguia seu rumo até ao seguinte domicílio. Eram escassas – para não dizer nenhumas – as pessoas que por ali deambulavam. Era aldeia velha. O neto do senhor Fernando não dava sinais de vida, e no entanto, seu avô já quase sinalizava a morte. Seu quarto já era um negrume sombrio, seu corpo como um palito seco, e suas unhas como garras sujas. Não era o mesmo o homem. Era um pobre homem abandonado pelo seu neto. E pior, pelo mundo. O mundo que brincava na cidade luminosa a quarenta quilómetros daqui. Tão perto, tão longe. “Nada posso fazer, senão esperar”- disse. Como se ainda lhe sobrasse tempo para esperas. E sentou-se no fundo da cama olhando os carregados tons que tocavam o teto. Nesse momento, o senhor Fernando lembrou-se do neto. E perguntou-se o porquê de ainda não ter vindo, porém não encontrou respostas. Este cérebro já não era o mesmo. As ideias morriam embrionárias, como se não corressem tempo suficiente para serem assimiladas. A memória já falhava, e as mãos tremiam sem frio. Deitou-se. E ali ficou aguardando como tinha dito, não se sabe bem pelo quê, nem por quanto tempo esperou ele deitado.

Certa noite, quando o senhor Fernando já havia apagado o candeeiro de cabeceira. A porta da rua bateu. Era o neto. Acendeu a luz do corredor, e foi como se de nada valesse. A casa parecia uma gruta escura. O chão brilhava de água suja que pingava do teto. Sentia-se um pesar de atmosfera, um silêncio de fim do mundo. O neto não sacudiu os pés como sempre tinha aprendido a fazer, antes de avançar. Boquiaberto pelo facto visto, chamou pelo nome de avô, sem se perceber o que sentia quando clamava em alta voz. Do quarto nada veio, a não ser uma leve brisa de uma chama que se apaga com um sopro. Já não foi a tempo de limpar a última lágrima que lhe secou na face.


João Luciano
09-08-2016