sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Amor

Muito se tem dito sobre o amor. Mas eu, que sei o suficiente para poder opinar, acho que nem tudo sem tem dito bem. Que o digam as linhas das milhentas historietas que o tempo guarda, sempre sobre um indivíduo, num choro de noite perdida, clamando baixinho pela volta da companheira mor. Ou então um outro pobre coitado que nem a volta pede, que nunca houve quem tivesse vindo antes. Variam aqui e ali. Ora falamos de uma cabeleira escura a condizer com carnudos lábios pintados, ora de um dourado que brilha à luz do sol, mais a pele da brancura frágil.  Depois damos nós as cordas da história, e tudo fica confusamente mais profundo e bonito, e nós, emaranhados como gostamos, num sonho de vida inteira. Se termina bem, e o dilema não concretiza, é história pobre, e o interesse perde o tamanho. Ai, se me ouve o Shakespeare! Que lhe dói tanto o peito.

Mas e que mais? Só isto? E tanto disto?

Se é dor? Custa a ouvir, sim. E o amor não é fogo que arde, nem se cobre de uma invisibilidade suave. Ou se é, não é só isso. O amor não dói, e é só isso. O que dói é a dor. Um apego que ao querer demasiado, se desmuronou, numa pancada seca que não lhe trouxe tanto. E vai tudo para o mesmo saco. O amor do buda, e o apego de uma folha persistente. O querer e o não querer mais.  
Tanto é amoroso quem muito quer de outro, e com devoção, o faz ter, como quem nada exige, e tudo abraça conforme está, sem nenhum interesse de tirar nem pôr, ao produto que o tempo esculpiu. 
Mas agora se dói! Oh, que é amor profundo. E não se aperta retraído um coração, se de um acaso se trata. Tem razões para chorar, então chora que não mais tem fim. E a querer e a querer, até não querer mais. 
Quando a alma é outra, daquelas conformadas, que não aqui estão por razão nenhuma, e que respondem direito ou torto na medida em que destapam de manhã os pés flutuantes. Essas que tão pouco anseiam pela vida, e se vão apagando num ofuscar de luzes alheias, lhes chamamos do puro amor. Se deixam o lírio no campo, e lhes basta um olhar contemplativo, aí lhe chamamos de puro amor. E brota a primavera  cheia. 


Mas o mal é que não há quem seja um só lado, e portanto, todos bebem dos dois rios. Tratar destas coisas como se fossem água e azeite, não resulta bem. E o amor não é como dizem ser, um crescendo que se levanta firme e que abraça o mundo inteiro. Eu já cortei o amor, e já me cortaram também a mim, o meu. O amor pode ser cortado, e ainda assim ser amor. O amor não pode ser dor, mas não há amor que não doa. Qualquer coisa sobra, e a tentativa sempre falha. 

O amor não tem caixa onde se o possa pôr como um vaso que brota rosas. O amor nunca cabe.
O amor não é o fogo de Camões, nem o reencontro de Platão. Nem a cegueira de Shakespeare, nem sequer a eternidade de Pessoa, ao afirmar que amar, para ser amar , tem de ser para sempre.

O amor é o que falta. 

O amor é como o ovo da Clarice, não existe. 






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