domingo, 2 de outubro de 2016

Na quarta-feira não estou

Vamos contar coisas.
Uma coisa que é boa de contar, é o dia de quarta-feira.  O meu dia de quarta, que por norma é sempre dia nulo.  Como se não entrasse na contagem decrescente para o fim da semana, o dia de quarta é um já conformado momento que se converteu sem saber ao curso do rio passante. Nem acordo irresoluto, nem passeio aluado, e o plano que não foi concebido, funciona perfeito, num balanço imperceptível, que nunca se sabe quando começou. Nem há a meu ver, maior definição de meio termo que o meu dia de quarta. 
Se me perguntarem quem sou, um pouco previsivelmente, direi que não sei, mas que não me venham conhecer em dia de quarta, que lá não estarei sendo eu. Venham antes na segunda, quando meu ar é vagabundo e as olheiras se me encrostam na cara. Quando a cama se embrulha á toa, e os lençóis se me acorrentam aos braços finos. E se me virem de colarinho mal amanhado, assim o deixem estar, que há de chegar a quarta. É só uma questão de tempo. Dois dias a mais e o mundo vira certo. 
Ou então venham na sexta, que não sei que vos diga! E se virem um êxtase pequenito,  é contar o tempo na parede, para que abrande antes da quarta. É só uma questão de tempo e tudo dá certo. 

Mas na quarta já nem me lembro, que foi que se deu? Ai, que não sou eu! 

Que veio no prato que comi? Que o passado se abriu em fenda, e tudo lá sumiu. O que se passa na quarta fica na quarta. Não há registos que comprovem o sucedido neste dia. Sou um insensível que pisa a calçada no dia de quarta, e nem que pingue do céu, uma chuva dourada, me bate no peito o coração comovido. Não há memória que tome nota, e a semana decresce, e perde o tamanho. Quarta é então, á falta de melhor lembrança, um passado distante, um vórtice no tempo, que em abuso dos procedimentos convencionais dos ponteiros, me fez tombar os compassos e perder a melodia. 


Quem sou eu? Tudo menos quarta, creio.






João Luciano
03-10-2016

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