quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A banalidade suposta


No dia de amanhã, sem significante diferença dos dias de até hoje, o homem levantar-se-á da cama nas primeiras horas matutinas, colocará no corpo a indumentária adequada á ocasião que o espera, e sairá pela mesma porta que o tem visto passar para lá e para cá durante os já vários rotineiros anos. Se nos for permitida a descabida fantasia de dar ás portas aquilo que a nós nos tem faltado, diriam elas, inteligentemente, as ombreiras da madeira, em tom de impotência, natural das limitações físicas a que estão sujeitas, que se andar pudessem, sob duas pernas humanas, a este homem travariam e impediriam, todo o santo dia que por elas passasse, questionado-o sobre o capital motivo que o estaria fazendo esquecer delas, não lhes notar a presença nem o devido valor.  Como que indignado pela interpelação fantasiastica, o homem não teria outro remédio senão responder perguntando - E porque haveria eu de dar conta de coisa banal, e que interesse nenhum tem? Ao que sabiamente, ato contínuo,  responderia a madeira, para benefício da sua nova habilidade intelectual. Pois se banal somos nós perante ti, e portanto, segundo dizes, desinteressantes, diz-nos de que interesse se veste a tua rotina banal? Os repetidos rituais matinais? as vazias palavras que trocas com os colegas de trabalho? As fragmentadas funções da tua actividade, que essas, se de um todo são parte, basta-se-lhes a sua insignificante pequenez para que se calem? E tudo quanto tens feito até hoje, de que vale mais senão de um caminhar de trilha que de certo só tem o fim? Nada disto te soa banal? Algo disto tem interesse?
A vida tem destas coisas. Portas que se fecham, impeditivas. Outras que se abrem, convidativas. Objetos que parece que falam. Que exprimente qualquer um deitar por mais de um instante a vista ao teto, por exemplo, que logo verá o quão surto de banalidade de lá sairá. Por outro lado, quantas ideias, de lá não sairão também novas, prontas a ser usadas. Já não seria a primeira vez que o teto ou a parede ou a porta nos fariam como que em tom de flash-back de quem tudo vê para trás, ter uma ideia nova para a frente, dessas ideias  que reescrevem os já antes mal previstos futuros.
Portanto que não menospreze o homem o banal, que é lá que muitas vezes está o contraditório. Que o diga o nosso homem que neste dia, de casa não saiu. Paralizaram-no os veios da madeira, a profundidade das gretas das ombreiras. Quem sabe, se dali sairá amanhã a nova sinfonia imortal, a mais recente Mona Lisa ou até mesmo, arrisquemos, a resposta ao porquê de aqui estarmos.


Joao Luciano
2016








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