sábado, 6 de agosto de 2016

Trouxeram-nos o Outouno

O vento tornou a soprar forte. Leva agora consigo as inúteis tralhas que se lhe vão intrometendo no caminho. Esvoaçam os opacos plásticos das garrafas, já gastas de transparência pela persistência das areias, arrastam-se os bocados de coisas dispensáveis que para o chão foram atiradas, bailam os cartões de caixas e pacotes já vazios de conteúdo, sentem-se cheiros de sobras de comidas já por duas ou três bocas caninas mastigadas, por todo o lado caiem folhas secas, umas ainda verdes outras de castanho cansado. Trouxeram-nos o Outono. Voa o tempo. Pairam no ar pedaços de esquecimento, fragmentos de víveres passados, recordações que vão e voltam. Nem tudo é lixo, mas tudo levou o vento.
Corre agora com mais força, desprendido de exitações, não se lhe adivinham delicadezas nem calmarias, tudo leva consigo. 
Ao fundo avista-se a linha imaginária separadora. De um lado o infinito, doutro tudo quanto tem fim. Atraem-se os opostos. 
Corre o vento pela tarde fora.
João Luciano

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