E
numa galáxia de palmas abertas, flutuavam planetas como ideias suspensas.
Minha
leitura de primário aluno, permitiu-me interpretar o universo de forma própria.
E foi isto que disse á minha mãe quando me perguntou o significado dos círculos
que ia rabiscando nas folhas brancas – já profetizando meu destino.
Não
são bolas mãe, isto são planetas no espaço. Talvez tenham sido estas as palavras
escolhidas para explicar meus gatafunhos imensos. Estes que, estando em fase
ainda embrionária daquilo que viriam a ser mais tarde, eram portanto
inexplicáveis por si mesmos. Necessitavam de uma voz que guiasse a mensagem até
á outra margem. Um auxiliar intermediário, um tradutor de devaneios infantis.
Mas esse sujeito, era eu mesmo. Assumia o cargo de peito feito, e convictamente
respondia sem hesitações.
Quando
meu rosto não previa ainda a escassa barba, e meus cabelos brilhavam como ouro
derretido. Eu era criança. Quando a ânsia de descobrir se sobrepunha ao medo da
queda e do fracasso, me chamavam de criança. E eu o era sem saber. E respondia
convicto.
Há
nas crianças um certo clarão que emana, uma clarividência que não se deixa
pegar, um diamante em bruto que se vai esculpindo com a vida. E que se perde em
completude. A busca do adulto, é em parte pela que criança que foi, e que
jamais poderá ser. A busca pela poeira do cristal que o tempo lixou.
Hoje
não respondo às perguntas da minha mãe. Aliás, sou eu quem a questiono.
Aos
quadros dos rostos que vou fazendo, não se lhes sobram espaços para interpretações.
São realismos exatos, que objetivam o concreto. Talvez neles se reflita a minha
busca pelo certo, a ânsia de respostas que dantes tinha, ou o medo da oscilação
das marés, ou dos planetas. O querer um mundo parado. Mais que não fosse, que
por um momento se quebrassem os malditos ponteiros.
Portanto,
creio que o realismo nada mais é senão um escape da realidade, Uma tentativa
malograda e efêmera de desumanização. E contudo, mascarando-se de um traje
belo. Uma ilusão de realidade.
Se
me chamarem de artista, alegro meu rosto e agradeço. Porém, de que vale a
paisagem que banha o rio, se mesmo perto não lhe toca? Assim me escapa o real.
Diria melhor, sou eu quem foge dele. E corro que me falta o fôlego.
João Luciano
08-08-2016

Sem comentários:
Enviar um comentário