terça-feira, 9 de agosto de 2016

Estória de um abandono

O senhor Fernando não notara que no canto do quarto – talvez por ter sido do lado oposto de onde ficava a cama – já se acumulavam pequenas manchas de umidade. E portanto deitara-se sem preocupações de maior calibre, e dormira uma suave noite de sono. Uma noite calma, como todas as outras o tinham sido antes. O senhor Fernando vivia sozinho, e completara hoje oitenta e sete anos de idade, e catorze de solidão conjugal. Porém, esta absoluta solidão só se havia consumado, nem tinha ainda cumprido uma semana. Tinha ficado neste estado quando, já em alturas de naturais e compreensivas exigências da vida, o recém-adulto seu neto decidira alugar casa fora da aldeia, e dar o nó com a namorada na cidade.

Nas noites primeiras, o sono ainda se escondia por entre os lençóis, e o senhor Fernando, cansado como estava das amarguras da vida, limitava-se a esperar que ele chegasse. Enquanto o fazia – eram sempre longas as esperas – dava voltas e voltas ao cérebro, em tentativas malogradas de compreender os misticismos deste destino, que agora o encurralara entre a espada e a parede. Ou entre a cama e a flanela. Por um lado as saudades apertavam-lhe o coração, e as lembranças dos viveres passados eram – apesar da idade – como memórias vivas, detalhadas de pormenores imensos, que quase o faziam implorar o regresso do neto a casa. Lembrara-se do chá das cinco. Ritual em que o neto tanto fazia questão de estar presente. Passavam-se duas e três horas na conversa um com o outro pela tarde fora, até á hora do sol-posto. Depois jantavam á mesa juntos, onde naturalmente também não faltavam trocas de palavras e novidades diárias – estas últimas, mais do neto. Na maior parte das vezes, o neto apenas ouvia. Os assuntos do avô eram-lhe ainda incompreensíveis para sua idade fresca, mas, e para que não se pense que só de ouvido preenchia suas presenças, saiba-se – e nisto pensava agora o avô – que sempre que a conversa tombava para as lágrimas, em assuntos de maior delicadeza, comovia-se de tal modo o neto a pontos de com a sua mão macia, num gesto de pura ternura e indizível compaixão, limpar do avô as gotas salgadas á medida que lhe iam escorrendo o rosto.
- As lágrimas não podem secar na pele avô. Tenho de as limpar antes que desapareçam nos poros. Cada lágrima que a pele seca é cada tristeza na vida futura – dizia o neto em tons de sabedoria de pouca idade. Só quando se certificasse que já haviam terminado as amarguras, ficava descansado, e podia ir á sua vida.
Se por um lado tudo isto palpitava no pensar do Senhor Fernando, dizíamos, por outro lado, sabia como era a vida, e os seus inescapáveis ciclos. E que de uma certa forma, tudo estava seguindo o rumo normal.
No final do primeiro mês, o sono já era de fácil encontro, e o senhor Fernando já não se embrenhava como antes nos seus debates introspetivos de prós e contras quando se ia deitar. Seu pensamento era outro. As manchas da umidade tinham subido parede acima e já se haviam transformado numa espécie de aquosidade saburrenta que chegava a pingar os azulejos e a tresandar a mofo.

O senhor Fernando pensou em chamar alguém para o ajudar. Mas o neto nunca fora para si uma opção válida para este trabalho. Além disso não sabia trabalhar com o telemóvel que este lhe havia oferecido, nem o queria incomodar, se conseguisse. Portanto decidiu chamar o vizinho da casa ao lado. Um homem robusto e de bons princípios como este era, jamais diria que não a um velhote em fim de vida. Foi portanto assim que fez. Com maior determinação que nunca, o senhor Fernando despiu as vestes caseiras que já cheiravam a mofo, vestiu o que melhor pôde, e pôs os pés a caminho.
Não precisou de andar meio caminho para que logo dali visse – admirado – uma tabuleta na janela do vizinho que dizia “Vende-se”. Não queria acreditar. Indignado com o mundo, o senhor Fernando tornou atrás a trilha, cabisbaixo, e percebera que havia passado já mais de mês e meio desde a última vez que fechara a porta de sua casa. Que se ainda se tinha podido alimentar em todo este tempo, fora só pela bondade do padeiro local, que não tardava na sua hora matutina, a entrega do pão nosso de cada dia.
O senhor Fernando não dormiu nessa noite. Ou então dormiu mal. Um levanta-deita que mais se parecia com um sonâmbulo acordado. As paredes pioravam a cada dia passante. Já o teto era preto, e o corredor que se prevenisse.

Meses mais tarde, o padeiro já não entrava em casa do senhor Fernando. Pendurava na porta os papos-secos ensacados, e seguia seu rumo até ao seguinte domicílio. Eram escassas – para não dizer nenhumas – as pessoas que por ali deambulavam. Era aldeia velha. O neto do senhor Fernando não dava sinais de vida, e no entanto, seu avô já quase sinalizava a morte. Seu quarto já era um negrume sombrio, seu corpo como um palito seco, e suas unhas como garras sujas. Não era o mesmo o homem. Era um pobre homem abandonado pelo seu neto. E pior, pelo mundo. O mundo que brincava na cidade luminosa a quarenta quilómetros daqui. Tão perto, tão longe. “Nada posso fazer, senão esperar”- disse. Como se ainda lhe sobrasse tempo para esperas. E sentou-se no fundo da cama olhando os carregados tons que tocavam o teto. Nesse momento, o senhor Fernando lembrou-se do neto. E perguntou-se o porquê de ainda não ter vindo, porém não encontrou respostas. Este cérebro já não era o mesmo. As ideias morriam embrionárias, como se não corressem tempo suficiente para serem assimiladas. A memória já falhava, e as mãos tremiam sem frio. Deitou-se. E ali ficou aguardando como tinha dito, não se sabe bem pelo quê, nem por quanto tempo esperou ele deitado.

Certa noite, quando o senhor Fernando já havia apagado o candeeiro de cabeceira. A porta da rua bateu. Era o neto. Acendeu a luz do corredor, e foi como se de nada valesse. A casa parecia uma gruta escura. O chão brilhava de água suja que pingava do teto. Sentia-se um pesar de atmosfera, um silêncio de fim do mundo. O neto não sacudiu os pés como sempre tinha aprendido a fazer, antes de avançar. Boquiaberto pelo facto visto, chamou pelo nome de avô, sem se perceber o que sentia quando clamava em alta voz. Do quarto nada veio, a não ser uma leve brisa de uma chama que se apaga com um sopro. Já não foi a tempo de limpar a última lágrima que lhe secou na face.


João Luciano
09-08-2016




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