São
os dois antebraços que vão suportando o peso de meu corpo que se encontra
oblíquo, inclinado sobre o parapeito de mármore da janela de meu quarto.
É
quase manhã. Mais um dia irá nascer. O céu apesenta-se ao mundo, e hoje, mais
se parece com um cimentado chão, tal a opacidade de que se veste. Não perdeu contudo
a subtileza.
Duas
nuvens, tímidas como eu, soltaram agora as mãos uma da outra, e por entre elas
fez-se ver uma breve noção da manhã. Porém, o sol ainda se encolhe, é tempo de
espreguiçar seus membros radiosos. O ar é leve, e também meu corpo. Parece ele
estar suspenso no ar, pairado no vazio, como um anjo que ao cair do céu fora
amparado pela atmosfera.
Reina
o silêncio nas ruelas de meu bairro. Tenho a sensação de recomeço total,
própria de um nascimento consciente na hora do parto. Vejo um mundo que é quase meu. A ânsia ou necessidade de testemunhar todos os eventos matinais, fez-me madrugar.
Do
outo lado da passagem donde vem a escassa luz, tudo ainda dormita. Dei por mim
a pensar enquanto esperava do sol as notícias rotineiras, que se todo o mundo
pudesse aqui estar, olhando o lívido rosto da manhã, escutando a mudez das
ruas, só de quando em vez interrompida pelo som das solitárias folhas, que
dançando ao sabor do vento, vão como que despertando do sono as duas ou três
árvores que aqui foram plantadas, ou pelo latir de uns quantos cães vagabundos,
que são os galos da cidade; se sentissem como eu, o repouso da azáfama, a
quietação das gentes, chegariam provavelmente á mesma reveladora conclusão que
agora cheguei eu. É grande a vontade de partilhar.
João Luciano
2016
Sem comentários:
Enviar um comentário