domingo, 14 de agosto de 2016

Na manhã que quase nasce, vejo um mundo quase meu

São os dois antebraços que vão suportando o peso de meu corpo que se encontra oblíquo, inclinado sobre o parapeito de mármore da janela de meu quarto.
É quase manhã. Mais um dia irá nascer. O céu apesenta-se ao mundo, e hoje, mais se parece com um cimentado chão, tal a opacidade de que se veste. Não perdeu contudo a subtileza.
Duas nuvens, tímidas como eu, soltaram agora as mãos uma da outra, e por entre elas fez-se ver uma breve noção da manhã. Porém, o sol ainda se encolhe, é tempo de espreguiçar seus membros radiosos. O ar é leve, e também meu corpo. Parece ele estar suspenso no ar, pairado no vazio, como um anjo que ao cair do céu fora amparado pela atmosfera.
Reina o silêncio nas ruelas de meu bairro. Tenho a sensação de recomeço total, própria de um nascimento consciente na hora do parto. Vejo um mundo que é quase meu. A ânsia ou necessidade de testemunhar todos os eventos matinais, fez-me madrugar. 

Do outo lado da passagem donde vem a escassa luz, tudo ainda dormita. Dei por mim a pensar enquanto esperava do sol as notícias rotineiras, que se todo o mundo pudesse aqui estar, olhando o lívido rosto da manhã, escutando a mudez das ruas, só de quando em vez interrompida pelo som das solitárias folhas, que dançando ao sabor do vento, vão como que despertando do sono as duas ou três árvores que aqui foram plantadas, ou pelo latir de uns quantos cães vagabundos, que são os galos da cidade; se sentissem como eu, o repouso da azáfama, a quietação das gentes, chegariam provavelmente á mesma reveladora conclusão que agora cheguei eu. É grande a vontade de partilhar.

João Luciano
2016


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