Numa das
extremidades de meus dedos, tocaram delicadamente os seus cabelos. Estava a
brisa a meu favor. Era meu o mundo. Não lhes senti, nos fios, nenhum toque de
rosas do costume, nenhuma verdejante fragrância que me entrasse pelas narinas,
não senti tao pouco qualquer vestígio do habitual jasmim que sempre se encontra
algures nas histórias deste tipo. Deixei correr o vento, algo haveria de vir.
Mais não fosse um rasto do perfume de ontem, uma essência do amor provável, um calafrio de ansiedade própria, um golpe do calor humano quando
junta dois corpos, um sorriso do alto estrelado, uma estrela que risca o céu,
um sinal divino. Enfim, um empurrão de "vai-lá-é-esta". Mas nada veio
senão o cheiro da terra firme, da terra que não cede aos sopros da ventania.
Estava a rocha ali perante mim, a pedra que me chamou de volta. Parei de
sonhar. Acabaram-se os devaneios verdes, as ânsias de amores perdidos. Trouxe
me de volta o rochedo. Amparei nele o fatigado crânio. Era rocha fofa. Adormeci
nela deitado. Na manhã seguinte, embora envolvido por braços de natureza
rochosa, acordei sem mazelas. Fiz da rocha minha cama. Fiz da rocha minha vida.
Amparou meus devaneios. Minha rocha querida.
João Luciano
2016

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