sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A rocha

Numa das extremidades de meus dedos, tocaram delicadamente os seus cabelos. Estava a brisa a meu favor. Era meu o mundo. Não lhes senti, nos fios, nenhum toque de rosas do costume, nenhuma verdejante fragrância que me entrasse pelas narinas, não senti tao pouco qualquer vestígio do habitual jasmim que sempre se encontra algures nas histórias deste tipo. Deixei correr o vento, algo haveria de vir. Mais não fosse um rasto do perfume de ontem, uma essência do amor provável, um calafrio de ansiedade própria, um golpe do calor humano quando junta dois corpos, um sorriso do alto estrelado, uma estrela que risca o céu, um sinal divino. Enfim, um empurrão de "vai-lá-é-esta". Mas nada veio senão o cheiro da terra firme, da terra que não cede aos sopros da ventania. Estava a rocha ali perante mim, a pedra que me chamou de volta. Parei de sonhar. Acabaram-se os devaneios verdes, as ânsias de amores perdidos. Trouxe me de volta o rochedo. Amparei nele o fatigado crânio. Era rocha fofa. Adormeci nela deitado. Na manhã seguinte, embora envolvido por braços de natureza rochosa, acordei sem mazelas. Fiz da rocha minha cama. Fiz da rocha minha vida. Amparou meus devaneios. Minha rocha querida.

João Luciano

2016


Sem comentários:

Enviar um comentário