Parecia ter perdido a noção de minha mão. Tinha a ideia de nunca a ter visto assim, e de nunca a ter olhado por tanto tempo seguido. Pareceu-me palma de muitos anos, com dores de vinco vincado, durezas que não podiam ter existido, calos que não eram meus - nem sei de quem eram - verdades escondidas a punho, vontades perdidas como sonhos. O culminar de um sofrimento anónimo.
Nesse mesmo minuto chorei. Mas foi choro de olhos secos, como se tivessem secado as lágrimas, ou já se tivessem esgotado. Senti-me velho. Senti-me outro. Aquela não era a minha mão, não podia ser. E contudo ali estava.
Ainda no dia anterior, a esta mesma mão tinha-lhe sido empregado um trabalho de minúcia enorme, e fê-lo com quase perfeição total. Um quadro de tamanho A2, pintado de alto a baixo com peles, poros e desgovernados cabelos humanos. A poesia de um retrato sob grafite de vários lápis. Um realismo exigente de punhos firmes. Um sonho tornado realidade. Sim, esta mesma mão que aqui se fazia ver velha, já havia realizado sonhos. E dos grandes.
E agora parecia que o sonho era outro, uma espécie de pesadelo acordado. Uma inútil mão direita que nem no antebraço se aguentava de pé. Que lhe bastava no dedo médio enfeitar-se de um anel, para que não maior utilidade tivesse.
Amargurado, fiz descer meus olhos em direcção ao antebraço, comprimi o queixo contra o peito. O movimento fizera meu corpo encolher, as pernas subiram ao banco e os joelhos tocaram-se. Eu era como um feto velho que não sabia se estava para nascer, ou se já se havia esquecido de o ter feito.
No seguimento do punho, tudo normal. O braço era o de ontem, e também o resto de mim. Só a mão direita tinha sido afectada.
E de repente, nma breve sensação de inefável desprezo, todo o meu corpo parecia ter-me fugido do controlo. Escaparam-se-me os braços como que fugindo de algum vírus. As pernas voltaram á posicão inicial, os pés tocaram a calçada, e lá ficaram. Tudo o mais longe possível da mão direita, ordenou o cérebro - também ele fora de mim. Eu estava assistindo a tudo. Vi com meus olhos (só eles é que me obedeciam) o meu próprio corpo rejeitando-se a si mesmo, como se não fosse ele apenas um. Um inteiro, um todo. Impossível de se subtrair.
Chegou uma lágrima tardia. Pingou na palma da mão direita, e alastrou-se, subdividindo-se em mil gotas que chegaram a cobri-la por completo. Atrás dela veio outra, e outra, e uma mais, e mais outras tantas que inundaram meus olhos e os impediram de ver além. A mão direita ficou cheia de água, e depois transformou-se numa mão diferente. Uma mão de criança, que obviamente também não era minha, porém era esta de mais agradável vista. Toquei-lhe com a mão esquerda - que agora não vacilou. Juntei os dez. Cinco da esquerda com cinco da direita, unidos pelas extremidades, como que fazendo um acorde de piano. Uma nota maior. Depois senti-os um por um. Percorri a escala. Era macia a pele, e lenta a melodia. Uma espécie de Chopin, mas com intimidade própria de meu ser. O ar mudou. Mas a mão não era minha.
Levantei-me e desci a rua com a mala ás costas. Ia com o ânimo renovado, e uma mão de cada tempo.
Se tivesse olhado de novo o banco, teria visto a quantidade de pessoas que lá tinha deixado.
João Luciano
07-08-2016

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