terça-feira, 23 de agosto de 2016

E se Deus fosse pintor?

Diz-se o mundo em prosa. Porém foram versos os primeiros dias. Na forma de livre encanto  traziam consigo nas quadras, como um feto que aguarda calmo, o rumo a tomar adiante, afinando assim ao criador todo o mar que se havia visto bruto. Só depois, depois do esboço primordial, da poesia vasta e vaga,  das palavras que fogem em apresso, o texto tomou sua corrente, e se formou a circunferência linear, com mil traços curvos, que a antecipavam ao de leve num rodopiar de lapiseira ambicioso.

Terá sido Deus um inspirado pintor? Um poeta que nasce antes do Tempo?


Lá fora faz sol forte, brilha como nunca a parede branca de meu quarto. Veem-se nela pendurados, dois quadros de rostos preto e branco. Olhos-os em desinteresse e reconhece-lhes limitações. São dois filhos que me olham mudos, desprovidos de alimento. Foram dados ao mundo prematuros e faltam-lhes os cabelos.
Não tenho porém em mim, menor ressentimento que o valha, nem me acordam na madrugada os berros das criaturas incompletas, esgueirando-se para fora da moldura, com insultos da boa língua protestante. Antes assim fosse!... Que merecedor de repreensão já sou eu grande, e o tempo me aperta em soluço incomodativo, o coração que tanto me inquieta o corpo.
Na melhor das hipóteses, retomando o percurso do carvão afiado, riscarei uns quantos fios que se desencontram pela tela abaixo, sem muita vontade porém, diga-se. Não fossem pois os gritantes que me rodeiam, que toda a obra era meia, todo o texto era verso perdido, e o pensamento...oh esse maldito!! Era fazer-lhe valer o nome. 

Mas agora os quadros ; esses é ouvi-los calados, basta que me olhem a mim, maltratados pelo tempo, inexpressivos e inacabados. Que farei com os quadros inacabados senão os posso juntar aos bons? É amontoa-los? Será certo? É recuperar-lhes a vida, ou melhor dar-lhes a vida? Não, isso não. Ou há recomeço total ou tardam morrendo os interruptos.

Mas e se Deus fosse pintor? Ninguém responde? Se sua tela fôssemos nós, pregados às paredes nebulosas do paraíso. Se é que as há para lá do céu vistoso, lá onde o céu não sabe que é céu, porque lhe falta o teto. Se porventura somos produto de inspirado momento divino, não terá Deus também seu olhar agudo, de crítico da Arte moderna. Não lhe faltarão contudo, cabelos por deliniar nas cabeças de seus filhos?
E agora lhe gritamos nós, tal e qual como haviam feito as telas de meu quarto, se o pudessem. Gritamos pelo fio de cabelo que nos falta. Pela pedra que termina a corrente desvairada. Pelo número último que descodifica o infinito e o põe perante o fim mais cruel. Gritamos pelo ponto final. Que Deus ponha termo ao quadro e que assine por baixo. Sim, que se lembre de o marcar. Não vá o diabo tece-las.


No fim de tarde morno, á hora do sol-posto, sentei-me ma cama desfeita. Nem na volta mais longa do cérebro perplexo que é o meu, havia passado outrora tão insólita questão quanto esta. E se a Deus, lhe permitíssemos o erro?

João Luciano




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