sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Meu nariz pingado

Ja perdi o gosto ao prato. E o faro, esse nem me aflige desde há muito. Sofro de um mal de nariz que me ocupa os invernos de lenço na mão, e gastam-se sem medida, ensopados pelas mucosas tiradas a custo das narinas avermelhadas. 
É tudo esforço inglório. Não há um concretizar nunca. Sempre aquém do que deveria ser, como um pinheiro que quase tocou o céu, ou uma prece que ao pedir demasiado, morreu padecendo do que faltou na dádiva do altíssimo. 

Então faço força com o nariz já esfolado, mas é ingrato, só saiem pingas poucas, e o entupimento não cura, para mal da minha voz  anasalada. Pensei para mim mesmo," É o que tenho, e foi Deus que me deu"  mas até o pensamento saiu froxo, trocando os "mês" pelo "bês". Era gozo próprio, humilhação que vinha de mim para mim. Quem dera poder livrar-me deste defeito interminável num esforço último e único, que a voz me viesse nova e limpa, que seu som se recompusesse forte e projetante. Que o aroma da terra molhada me invadisse livremente as narinas, numa novidade de antigamente. Mas nunca assim foi. Basta que vire o tempo, umas quantas águas que pingam, uns sopros de maior nome e um céu que desce aos prédios, que já se me dita o destino, imediatamente, até ao voltar do próximo sol.



Dos alperces que meu quintal brotou, se encheu a mesa do jantar. Lindos, laranja avermelhado, com pele apetecível. Peguei um, trinquei, e foi como morder água fria, inodora e sem sabor. Não fosse o tatear aprovado que nem a pele áspera lhes provava. Sobrou-me pouco da essência da fruta. Maldito inverno que ainda se avizinha, e já me vem rogando praga.

A mim só me chegou parte do todo inteiro. A mim, no inverno, só me restam os dois sentidos. Ouço o vento atentamente e quase que lhe toco esfomeado. Quanto à visão, é turva todo o ano, meu ver nunca foi de olhos.

João Luciano




Sem comentários:

Enviar um comentário