sábado, 20 de agosto de 2016

O pó que cegando, fez ver


Não fossem as estantes dos famosos livros estar por baixo do piso zero, e os misteriosos contos que se continuavam por gerações, herdados do boca-em-boca e relatados nas altas horas vespertinas aquando dos jantares e ceias, pelos avós do menino Timóteo, sobre encantos e monstruosidades escondidos, fadas e duendes entre páginas que se abrem; que ele não teria decerto esta curiosidade que agora o ocupara, de descer a íngreme escadaria do lado da despensa, que conduzia á cave.
O acto não fora ainda consumado. Não só por falta de oportuno momento, pois era casa sempre cheia, e seria portanto, inevitavelmente apanhado em flagrante se se aventurasse pela escadaria abaixo, como pela celebração da habitual hesitação em momentos de risco, que travava já em pés de chumbo o menino Timóteo nas duas malogradas tentativas da semana anterior. De todo o modo, era menino persistente. Talvez os dias vindouros trouxessem novidades mais favoráveis – pensou otimista – e para mais ainda, operações deste calibre, cujos fins sempre são ocultos e muitas vezes de difícil acesso, duros de roer, exigem desde já uma mentalidade disposta ao erro, á tentativa-erro. E bem vistas as coisas, um par de investidas fracassadas não poderiam jamais justificar um baixar de braços definitivo, uma desistência desanimada Mas desengane-se quem pensar que o menino Timóteo era desses que se deixam tombar ao primeiro sopro da ventania, pelo contrário, era antes criança curiosa, em idade de pura novidade e anseio de medos. Não tarda que por aí esteja já a empregar planos táticos de intervenção às secretas, numa dessas noites em que tudo se cala dormindo.

Timóteo comia agora á mesa, rodeado do pai e mãe, avó e avô e dois irmãos mais novos, que enquanto às ordens da mãe, fingiam ir comendo de bom-grado, despejavam sorrateiramente, bocado a bocado, naco a naco, o frango com caril pelo um saco abaixo, que escondiam pendurado numa das gavetas contidas no tampo. Por norma, o irmão mais velho nada dizia que os denunciasse, ia rindo como cúmplice da traquinice, mas hoje por excepção, e numa palavra de ordem, repreendeu firmemente os mais novos que parassem com o desperdício. Assim o fizeram os pequenitos, bem-mandados, como nunca antes visto. 
O jantar terminara em silêncio, após gritarias sobrepostas, correções e chamadas de atenção de lá para cá, resultantes da intervenção quase paternal do irmão mais velho. E ato contínuo, um por um, tudo fora dormitar para os quartos, como que em refúgio da barulheira, enquanto sozinho, o menino Timóteo, ainda na sala, sofria o sermão do pai, que lhe dizia não ter agido da forma correta com a miudeza maior. Timóteo sentira-se alvo de injusta repreensão, mas calou. Sua vingança estava para breve.

Nessa mesma noite, horas mais tarde, Timóteo levantou-se do sofá – onde tinha ficado intencionalmente a fingir o sono – e num golpe de coragem sem berço, pé ante pé foi-se aproximando da despensa. Seu pensamento fora atormentado milhentas vezes durante o percurso sob a possibilidade do fracasso, seu corpo tremendo em anseios já conhecidos, suas pernas cedendo ao frio do inverno que se fazia sentir agora mais, enquanto lhe brilhavam na testa gotas de suores frios. Porém hoje era noite de bravura, e esta tomou-o então por completo, a pontos dos pés, outrora convertidos em chumbo, terem agora ganho asas, e em salto subtil o terem levado até ao destino tão desejado. Timóteo tinha o mundo a seus pés, ou pelo menos, uns metros abaixo. Talvez fossem dez os degraus a descer, talvez vinte, ou trinta, ou sabe-se lá cem ou duzentos. No entanto estava decidido a não vacilar desta vez, por maior que fosse o negrume para lá da porta aberta, havia de o descer até ao fim, para depois alcançar em satisfação todas aquelas páginas que se fechavam por anos, e abrindo-as uma por uma, lê-las, como se estivesse descobrindo as origens do mundo.

Descidos os três primeiros degraus, já se via o fim á escada. Era curta e encaracolada, sem corrimão. E como que em tons de amarelo fogo, no fundo, via-se uma claridade pequena sobre a parede oposta á qual estava vindo a descer, e donde saia embutida, a escada.  Já de pés assentes no piso inferior, Timóteo dobrou a esquina que vinha no seguimento da descida, e olhando em espanto de criança para seu lado direito, avistou espalhadas pela cave, quatro enormes estantes de madeira velha, atoladas de alto a baixo com livros que se pareciam iguais entre si. O adjetivo, atribuiu-o á coloração das capas, que por sua vez se apresentavam cobertas de pó castanho carregado, confundindo mesmo os livros com as inúmeras prateleiras de madeira. De resto, em tamanho, eram diversificados. Uns grandes e largos, outros finos e de tamanho médio, mas quase todos amarrotados algures, ou na ponta das páginas, ou mesmo, e em muitos casos, em todo o seu volume. Fazendo lembrar por vezes, panfletos velhos de importância nenhuma. Timóteo transbordou alegria, estava extasiado em silêncio, como uma criança que tenta não rir perante a mais cómica das piadas.
A avaliar pela primeira impressão, era espaço abandonado, caído em esquecimento por longos anos. A luz era fraca. No teto sujo, pendia uma lâmpada num fio descarnado, e era só. A atmosfera era pesada e o ar denso, impessoal, impróprio a crianças. Havia também uma espécie de fumaça que não o era, um antes nevoeiro sublime que entontava sensações. Talvez outrora a sala fosse usada por velhos homens fumadores, que bafejando constantemente charutos ou cigarrilhas, fossem clamando poesias e dizendo histórias de voz alta e timbre grosso. Timóteo já imaginava um, sentado no cadeirão do canto da cave. Barbudo, e de cabelos desgrenhados lhe construiu a imagem, quanto ás vestes, teriam de ser antigas, claro, e de preferência velhos farrapos rotos que concordassem com o parecer velho da sala actual. Tudo isto não levou minuto a passar-se na cabeça de Timóteo, foi mais um de seus devaneios passantes que vão e vêm; este foi e não veio. Não precisou de muito tempo para que a hipnose contemplativa lhe tomasse o corpo em completude. Não andava como gente normal, Timóteo deambulava em puro encanto pelos pequenos corredores da cave, e fitava os livros sem atenção consciente, como se todos fossem um só, unidos, e o olhassem a ele dizendo-lhe “olha-nos” numa espécie de feitiço anónimo. Após os instantes do bruxedo (salvo seja o termo), Timóteo decidiu escolher ao acaso, um dos livros que estivessem á sua altura de menino, não no sentido figurado, mas no propriamente dito, visto que eram altas as estantes, o que o impossibilitava de alcançar as prateleiras superiores. Ficou –se nas que lhe davam pelo joelho. Era categoria filosófica, mas Timóteo não leu o título, não só pelo pó que dificultava a tarefa, mas também pela ânsia de lhe ver o interior das páginas. Leu sem grandes assimilações, um ou dois capítulos introdutórios, era denso de conteúdo, e pesado na volumetria. Uma compilação de pequenos pensamentos da filosofia antiga. Depois passou sem demoras á secção das fábulas – que lera com maior proveito – e seguidamente ao corredor da ficção científica, onde não demorou muito, até chegar, em última leitura da noite – estipulou-se a si mesmo – á divisão da poesia. Aqui mesmo, deparou-se com um capa que lhe captou a atenção. Era de tons de vermelho-tinto, com pequenos e delicados traços de floreado na lombada. O facto de Timóteo se encontrar agora particularmente desperto, deveu-se também á limpeza de que este livro se fazia ver, ao contrário de toda a sala, o pó parecia aqui não ter caído abundante. Havia-o sim, mas apenas em redor do livro, como se este beneficiasse de virtudes humanas, e tivesse sido limpo em datas de passado próximo. Timóteo estava decidido em alcançá-lo, não fosse ele estar a dois metros de altura, que já decerto neste momento lhe comia as palavras. Não havia tempo a ser perdido, por entre a porta que deixou aberta, já se iam vendo noções de dia nascente. Timóteo pensou em escalar as prateleiras, pegar o dito-cujo, e á falta de melhor ideia, correr em silêncio para seu quarto com o livro debaixo do braço. Mais tarde teria tempo de o ler, embrulhado nos lençóis de seu aposento. Assim fez. Numa acção de pura loucura, subiu torto a estante acima, e facilmente tocou o objeto num gesto que o fez tombar, e consequentemente cair-lhe com peso em cima do olho esquerdo. Afinal havia pó, sim. As mil páginas abriram-se em obrigação, como que acordadas á força, e de lá saíram mil grãos de areia autêntica, que, em conformidade com o choque, danificaram generosamente a vista esquerda do menino Timóteo. Como o sangue era ainda quente, a dor só se fez sentir minutos depois, quando já se embrulhava no edredão da cama de seu quarto, simulando um sono quieto.
O que iria dizer agora Timóteo, com um olho negro? Esconder-se não podia. A manhã aproximava-se em pressa, e a luz que perfurava as precianas fez roxear ainda mais o inchaço. Não tarda muito teria sua mãe á porta dizendo-lhe que se despachasse. O autocarro do colégio não atrasava um minuto. E o pior é que Timóteo por norma também não.

Poupem-se os meios ao leitor, que agora são dispensáveis. Atalhe-se o caminho, deixando em suficiência os termos do que aqui veio depois a acontecer. Timóteo, para além de sermões valentes, levou acoitadas de força, e sem alternativa, fora obrigado a confessar o crime perante o agregado inteiro. Foi manhã de mau começo, e o dia que se prevenisse.
No colégio, a rebelião da miudagem encheu de insultos e troças a nova mancha de Timóteo. E se ele não verteu lágrimas, foi só porque o abcesso assim o impedia. Foi tortura desmedida, tanto em casa como fora. Timóteo já ao tempo que se havia arrependido do ato que tivera, e perguntava-se a si mesmo se já não lhe havia servido de castigo, a cegueira temporária.

Durante as noites seguintes, sua cama foi sua companheira mor, a par do livro que havia furtado da cave misteriosa. Lia lentamente cada palavra como se delas viesse um mundo novo, uma flor que desabrocha no cimento de um muro, e na quebra dos versos sentia a quebra da alma, a melodia da poesia que acorda suavemente do sono o músico, e que o faz dormir em seguida, o sono do sensível. O mais sublime de todos os sonos. Via como se tornava agora um deles, sensível, de dia para dia, cada vez mais. Timóteo dormia enquanto acordado, jamais havia saído da cave, tudo eram estantes de livros. Sentia cada toque de alma, cada nota do vento, cada choro alheio era lágrima também sua. Via o mundo em profundidade. Porém o mundo era cinza, impenetrável. A lidação social uma tortura. A escola, um período longo e doloroso. Timóteo via-se procurando cascata em muralha de castelo. Um esforço inglório. A troça havia piorado. Timóteo era cego do olho esquerdo.

Numa manhã igual ás outras, na sala de aula, a professora pediu a Timóteo que lesse um texto que ela havia escrito no quadro, mas ele não conseguira ver bem, sua vista defeituosa o impedira de assimilar coisa longe. Então num calafrio de vergonha íntima, Timóteo leu conforme pôde. Era poesia bonita e leve. Aqui e ali, ia trocando palavras por outras que pensava ter visto. A ordem do poema ficou completamente alterada, e a essência, desvanecendo, foi perdendo sua magia. No final da leitura, a classe soltou uma gargalhada diabólica que havia suspendido até então, em troça já familiar e de má memória. A professora calou, e todos disseram quase em coro “ Cegou-te o olho esquerdo, mas não vês direito, com o direito!”.  
Timóteo chorou e calou por completo, mas no fundo de seu íntimo, sabia que via muito mais para além dos olhos.


João Luciano
20-08-2016




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