sábado, 17 de dezembro de 2016

Quando o homem nasce, sonhar é coisa pouca

Aqui o som toca os tímpanos de puro sono. É mudo o ar que banha o rio, e na margem há um cego que pressente a corrente desvairada, para lá, em direção ao sul fundo, onde a fundura não mais termina e o abismo se adivinha na areia molhada. Vê-se um homem na fronteira, é o magnus que toca o horizonte, veio aqui representar as gentes, com seu topo de cabeça astuto, mas não se lhe alarguem os prazos, que a este chegarão um par de milhões de anos, pouco mais, pouco menos, para que á luz dos que me leem se lhe tracem os términos á história e voltemos á voragem da qual viemos antes. É ele quem traz o ferro, os fortes lenhos de levantar a urbe. Se tanto pode, que sente?

No céu da noite brilham as estrelas, lá longe em reunião, sabem elas quanto tarda o dia, e se não se foram ainda algumas, nos chega a luz  de hoje, efémera, quanto sabemos de sua morte? E o homem que viu o fogo, não mais as quis ver, quão bela era sua chama, quão bela é a de hoje? No mar da praia antiga, a água espelhando o alto. As marés do mar índigo, que são? Que há do cego da outra margem? Pouco importa ao presente, se sonhar é já infante e o caminho o fez perder. E assim se faz retrato, com dois tons de mão se pinta a tela, esta porém áspera, só de uma lado deixou mancha, o outro que nada viu, ainda ali está sentado, vendo sem ver, o rio que lhe eriça as veias quentes. Se tanto sente, que pode?



João Luciano









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