quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Chuva

Foi num dia de chuva. E a chuva foi o dia só. O dia "da" chuva. E o comboio me entontava os sentidos num galopear desprendido, mais as pingas, quase a perfurar as vidraças das janelas tristes. Ia já por meio o percurso para Lisboa, e a chuva caindo densa.
Via o Tejo. E a água era abundante Todo um dia que nasceu chorando, e eu, vendo sentado a choradeira, sem verter lágrima alguma. Sério sem porquê, o queixo trancado e o olhar perdido. E contudo tão vulnerável que eu estava. Do meu lado esquerdo vieram dois risos contentes; duas gargalhadas desmedidas a destapar o dia discreto, mas o céu não se contagiou, e o dilúvio parecia o último. Para o ver, que o visse todo, e não ri nem um pouco. Olhei pelo vidro pingado, e continuei vendo o pranto do inicio de semana.
Mas que ofensa era esta? Rir perante este descalabro. Ainda por cima sem qualquer disfarce que se notasse, nem nenhum traço de arrependimento. E continuavam a malvadeza, contando cousas boas da vida, que haviam acontecido no fim-de-semana passado.
"Ai, que meu filho não me dá más noites. Dorme sorrindo. E seu dia é feliz sem birras nem manhas" - disse uma das mulheres enquanto sorria de felicidade, e balançava os ombros num gesto de tremelique do pouco riso que conteve. E eu ao lado ouvindo; entre a janela e as mulheres; entre o defeito e a demasia; forçado a conter a revolta de meu ser absorto.
Toda a gente sabe que não há bebés felizes, nem miúdos sem manhas. Não há direito a tanto! E se a chuva corre assim, não se pode rir daquela forma, nume esbanjar de alegria desnecessário.  Não se pode... Não se pode e pronto!  Tem que se ficar quieto e calado, olhando melancólico para o sítio indefinido, o ponto imaginário do pensamento profundo, que no meu caso ronda o olhar entreaberto a quarenta e cinco graus, vendo quase o chão sem o ver de verdade. Depois deixam-se estar as mãos quietas no colo. Nunca esbracejar repentinamente, nem vozear demasiado. Para isso há o verão, e o sol, e o calor. Mas no inverno, não há cá espaço para movimentos bruscos. Já basta o clima português, de sua virtude tropical, que lhe sobra o quente para dar e vender, para que em alturas de maior aragem, se deixem em paz os amuados, com seus pensares deprimentes, sem que se mostrem demasiado os dentes num ostentar prescindível.
E prosseguiram diálogo, as mulheres felizes. " O meu já faz sete este mês, e na escola já tem amiguinhas que o olhem. Pudera... De olhos verdes. E os amigos que tem, já me enchem a casa com suas malas atoladas, sempre que vêem em grupo depois das aulas da tarde. Às vezes jantam por lá, mas tudo menino de bem. Educados e sorridentes."
E a chuva a cair. E as mãos que quase se  antecipavam para uma palavra de ordem, mas o regaço tomou ordem, e ali se mantiveram paradas. O meu olhar virou ainda duas vezes para trás, e se cruzou por segundo com o sorriso branco da mulher chata. Os olhos viram-se, e logo se deixaram. Nada com esta gente, pensei, gente feliz é do piorio. São os piores. Um dia que a noite nos corra pior, e que o dia nos mande calar num silêncio inocente, que logo vêem dois ou três, em bando de alegria, obrigando-nos a falar, as histórias que tanto ouvem. Eu que nasci em tempo de morte, em alturas de desprendimento, quando os verdes caiem mansos, inevitavelmente, e perdem seu tom bonito. Eu, que tanto prezo o cinzento e sua virtude de ser meio. Eu que vejo o ir das folhas, morrendo ao vento, como se nascessem no ar novamente, talvez não saiba o que é sorrir. Talvez, eu nem saiba o que é viver em uma árvore, preso aos ramos da mãe maior, sem que me dê logo a ânsia de um despegar definitivo. Mas ao menos não pára a chuva, é o que vale é que não pára a chuva, está o céu de acordo comigo. E vai caindo a chuva densa. Lisboa vê-se ao fundo, e já vive sob manto cinza.
Cheguei ao local. Quatro homens se sentaram, e ali ficaram. Um baixinho boa tarde, e foi . As paredes de sombra escura e as persianas entreabertas. Lá fora ainda se ouve a chuva. Ninguém riu. Sentei, e é tudo. Trabalhei contente.

João Luciano


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