domingo, 31 de dezembro de 2017

"É uma página em branco"

Quando Maurício Meireles, homem feito, disse para mim as habituais frases que formam o preâmbulo de um ano que começa, (incluídas estavam aquelas de que todos, ao longo das curtinhas ou prolongadas vivências, temos vindo a tomar conhecimento) eu, simples rapazito e educado que sou, disse obrigado e igualmente. Mas mais um daqueles vultos realistas era o senhor com quem se principiou este texto, fora só nome inventado para a personificação de uma massa transversal que a todos tem cobrido. De entre as muitas frases-feitas que nesta altura se utilizam, aparece uma que, por razões não tão positivas, acaba presidindo por algum tempo na minha lembrança. Talvez na vossa também, espero. Ou senão que levante o dedo aquele que nunca ouviu o dito comum do "é uma página em branco", ou "é um novo começo". É sem o menor grau de pretensiosismo que me alegro de notar que tanto uma como outra são frases inócuas. Não acha senhor Maurício? Veja bem: Que quer dizer o senhor com página branca? Branca! E responda só a esta, porquanto se o fizer eu garanto que abro já o caderno que ali tenho, novinho em folha!



31 de Dezembro de 2017

Já um ciclo se fecha. Achegam-se as portas rígidas do seguinte instante. Nos semblantes dos transeuntes identifica-se uma alegria melancólica que se manifesta com sorrisos. Um sentimento de batalha findada partilha-se e alastra-se em mantos de gente andando. 
Debruço-me, e sobre a calçada cai uma chuva de sonhos, é o reflexo dos sobejos consumados, ou talvez o defeito daquilo que, ficando por fazer, a tenha trazido para o final acerto, última intervenção natural, aplanando a erva e lavando com lençóis de água a terra que agora se alisa uniforme. Prepara-se enfim da mesma maneira o mundo como os homens, com o típico torpor que se distende e inquieta ao ultimo instante. 
Não há novidade numa despedida; afinal são sempre feitos de seda mole os corações dos homens, compungidos que ficam os olhos perante os abraços que os juntam. Oxalá fosse o mundo inteiro como este lugar onde tenho vivido, esta gente com quem me cruzo, porque uma vila sonolenta jamais se ofusca pelo estridente e profundo embaraço da capital. Aqui, por se ter dormido, também se acorda, e as pessoas veem, e eu vejo-as. 
É para todos que vai meu abraço: porque nem só de uma vila se fez meu ano, nem só por penhascos rolados e lascas de xisto pisei, ou lamaçais onde a água caiu a alisar os rugosos caminhos, também na margem oposta do rio caminhei, também por lá fiz aparecer laços que se ataram e estenderam resistindo sobre as margens do Tejo, lembranças trago nos alforges, vivências palpitando neste coração que se abre; com tudo isto o ano me prendou. Por tudo isto se preenche o livro que terminei, está lá tudo e estão lá todos. 
Não sou de esperar muito da vida. Este anos espero que o consigam ler. 
Bom ano para todos. Os de lá os de cá - Barafustando sobre as sete colinas ou dormindo sonolentos entre os braços de morfeu.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sobre o natal

Nosso senhor de nazaré, rēx Iūdaeōrum, gozará esta noite o temperado aconchego daquele ainda não olvidado berço de palhas. Oxalá o não tome o agreste vendaval, esquálida correnteza das águas temerárias, que são estas as do tempo. Não está mal que assim se o diga, pertinente desejo foi, porquanto ao andar o observador ao tento das alcovas deste mundo talvez encontre o comum pinheiro, suspensa baga de azevinho cintilante, incensos de tudo e crisálidas de ouro, mas que a estrela guia é cada vez mais um ponto que se apaga, traço desvanecido sobre um manto de céu negro. Dá-se então uma estranhíssima comemoração de desejos e, subitamente, já em nós preside a quinta parte do menino a que  qualquer belchior vai prendando. Esquece-se.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Após uma saída com amigos

escrever sobre amizade é exercício dificílimo; os meus amigos só estão; e às vezes nem estão; os meus amigos nem pedem e eu nem peço aos meus amigos; vão embora como quem fica, e ficam com a presença como que de uma luz de presença; nem notada, levíssima e boa. Gosto deles como os da família, e fujo dos da família todos os dias,  e eles sabem porquê, e eles também sabem porquê, e nem chateiam nada. São leves quanto leves devem ser, e não são úteis como a máquina que é útil.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O erro e a percepção tardia.

O pior das coisas incompatíveis é a sua perceção tardia. Na vida, o erro, é a máquina responsável e o machado que dobra a árvore e a extingue. Quando nos compenetramos do erro, ele não é mais o erro, mas o primeiro passo para a sua correção; a última perna da raiz adonde a árvore se abraça resistindo. Outras alturas há em que o amontoamento dos erros embrulha e atrapalha a percepção. O erro,  é uma coisa que deve ser vista e apanhada no momento antecedente á corrida do erro para os outros erros, mas á falta do mecanismo da maturidade em alturas joviais, o melhor é errar a saber e a dizerem-nos. Tenho visto gente, e lido gente, a quem o erro, pela multiplicidade em que se desdobrou e repetiu, perdeu o sentido erróneo. O erro não é incompatível com a vida; é, aliás,  tão necessário quanto ela e quanto a notação dela. O que é mau é o que é tardio. Não há um grande medo de morrer e não saber de um erro meu, ou não saber da vida e das árvores truncadas; das oliveiras abatidas aos milhares pelo excesso de azeite na Europa; das vacas no cutelo pelo excesso de leite ou de carne, ou excesso de outra coisa qualquer que nem era excedente ou perto disso. Há só o medo de vir a sabê-lo tarde, quando um emaranhado ou novelo de linhas confundir o último erro com os outros todos, e vier à vida a tirar-lhe o sentido das coisas e do mundo.  


sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Pacto

De manhã, na casa das loiças, Maria Fragoso desistiu de lançar pirraças ao destino. Achou ter visto mais do que os olhos logravam - a obra de um destino cruel - abrir-se um mar a meio com um fundo muito negro, sem se lhe ter anunciado foi, no mínimo, um acto de ostentação divina. Afinal até Deus erguia o peito. Ao menor pensamento ousado fez saber que ali estava. Mas o pensamento de Maria nem era nada de mal.  Um único desejo que não merecia o segredo de uma intimidade muito sua, nem um recanto num lugar longínquo de sua alma onde não o pudesse lembrar, era aquele que de manhã a ocupava, enquanto lavava a louça  e devaneava sobre a eternidade da vida; de como não vir a perdê-la. Assim como, eterna? Mas o susto que a deteve fez com se conformasse, sem sequer ter pensado em conformar-se. E tranquilizou-se.

Os pratos que ao de leve recebiam os primeiros rios de água morna, tilintavam como espadas sem ritmo, contra os copos e talheres, e quando Maria se distraía olhando pela janela, sem ver, por vezes se rachava um e outro, frágeis como sua alma tremebunda. Recebera-os numa comunhão de amigas, quando sem vontade se haveria deslocado ao pátio no dia anterior, afim de comemorar os oitenta e nove da dona Alberta que não tinha cá o neto. Terá sido por razão essa e não outra (achava Maria) que haveria concebido todo aquele aparato; convidado toda aquela gente louca, de primaveras muitas e outonos outros tantos. Foi um fiasco, afinal. A coitada não merecia tanto; morrer assim, em festejo iminente - o Pai que nos trouxe nos leva, é ele Quem sabe nossa hora; nosso momento derradeiro é para nós como um sopro na areia, que vem como vai, sem que se deia conta alguma ou se acerte em cálculo de mãos e cabeça; assim, pensar na morte é um devaneio insensato - pensou. Ter na pele que é nossa, a dor de um outro ser é por outro lado um acto muito digno. Ora Maria sempre sentia no corpo e na alma uma angústia que não era sua, como alguém que, sem que em momento algum tivesse pedido para cá estar, vir ao mundo fosse um sacrifício enormíssimo, e estar nele vivendo, um desastre escandaloso. Mas enquanto lavava as loiças fez para consigo um pacto muito metido - não contrariar aquilo que por mão maior foi feito. E tranquilizou-se. 

Quando Maria fechou a torneira, já tinha os pés na terra e as mãos muito cheirosas. Podia ser outra mulher, mas Deus não deixou. Matou-a ali. Com um golpe muito súbito retirou-lhe o que por defeito lhe pertencia. Sem mais, num desmaio, embateu com a cabeça contra uma quina de bancada. E tranquilizou-se.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Juntos por Todos" - A propósito

a comunhão das gentes, hoje, é quase um fenómeno muito inaudito. e lembrar uma dor que não tive, um passo valoroso e crucial para o entendimento do outro, o acudimento do outro. que bom ver parte de uma noite bonita. saber de uma união que quero enquanto efetiva foi experimentar um suco de um desejo que sempre tive. 
no passado dia vinte e sete minha esperança recuperou um terreno generoso. minha vontade se tornou momentaneamente real. e foi então que acreditei, como em tantas outras ocasiões, numa humanidade ressurgindo. minha fé se restaurou por instantes ao saber que a tragédia que abateu Portugal foi Realmente sentida de verdade. 
não pude deixar de manifestar meu agrado; meu alento recomposto.
para alguém que se alega dormente, crer sempre é algo longínquo; acreditar é, como um jeito meio-infantil, de criança mesmo. mas tenho para mim que há um mundo melhor; como aquele a quem, nesse dia, Portugal deu berço. 
saber ainda que pelo menos mais de vinte eram artistas que se deram assim só; fez-me sentir. e sentir não é coisa pouca. não precisa de palavras que lhe sucedam. 

resta o sonho.

Imagem: http://myway.pt/juntos-por-todos-uma-noite-magica-de-solidariedade/38339


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Tripulação, tribulação

E esse é meu mar, rio que se esguia adonde
Escrito tenho, p'las ondas mares e marés
De sol posto; pensares; condados de terras e conde 
E onde, com vagar o vento, vai trepando o convés

Assim me eis; sem que dado me tenha, nem eu 
Que num batel ondulante que oscila, me sei 
Imaginem! Que será viver assim? Feito ateu 
E ter nas mãos a Vida, um ser fora-de-lei 

Mais valia uma desgraça; uma nau esbarrando 
No cais mais despejado, contra fragas e penedos 
E que estilhaçasse por fim 

Pois que nem vale a maior rota, se não a tem a razão
E há dias que nem o mar, nem a terra ou abegão 
Se apoderam de mim 















sexta-feira, 2 de junho de 2017

Viver

Ás vezes, há uma necessidade meio turva que me impele; sopro de uma fonte inescrutável. Outras, há o hiato, onde a vida é tempo que se perde. escrever, é então impulso; assim tudo. E viver, é um evento inaudito, que se comemora de quando em vez; descomprometidamente.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Epifania

Aqui, onde a noite mais se entranha, nós que mudos 
E da palavra pouca, p'los recantos nos guardemos 
E se perdidos, pois com vagar também sopremos... 
Pelo doce ócio estirados, num selim de veludos

Até que nos venha o verso... Ressuscitar!
Como candeia que se ascende só, morte num drama contada
Pela calada duma noite, num golpe de faca afiada 
À minh'alma e tua, esventrando, em silêncios e luar 

Chamemos-lhe a mãe nossa! Com seu nome mais altivo 
Donde nascem e brotam rimas e consonâncias 
Eloquentes extravagâncias...

Que assim não vem mais, se só num grito a clamamos
Desesperados tais; A vós, que os tenha a mansidão 
Pois que esperar é virtude, e nós que a tanto amamos 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Posse

Penso; Que mais que as sobras que me trazem
A mim me darão? Serão saldo de gente outra?
Cujas mãos lhes meti, e saquei, parte de mim contra
E que nada em mim, mais agora fazem...

Penso; Quem foi que aqui morou?
Em tempos da passada noite, cujos dias não vivi
E levou meu tronco... Ó, se levou! Que nem eu senti!
E aqui deixou, levemente uma brisa, que soprando, me desabou 

E no dia mais oco, derramando em sal, por olhos meus te verei
Sem saber como,  em cinzas de meio-tom sem cor 
E tu que vens... Deixarás um pouco...

E eu, que assim serei, vago de matiz alguma, a ti beijarei! 
Sem saber como, teus lábios tocarei, tuas asas de condor 
E tu que vens, a ti te copiarei meu amor...

Poss

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ao rio, uma prece

Ao rio, deitemos as mãos folgadas, nos cepos
Dos braços que contemos. É o mar aberto 
Que se desenrola, pois que é lívida de mundo incerto
E esquálida a corrente, p'los seixos e p'los trepos 

Quem nos abraça e nos recebe? Esse mar imenso...
Cujas primícias são dois beijos, de água e sal 
E as margens dos desejos, como o mato jovial 
Donde as mãos lhe estendemos, a esse mar extenso...

E pedimos perdão... Ó mundo este o nosso!
Que tanto nos faz querer. Seria melhor se mar fosse
Esta vida ansiosa...

Invade-nos por inteiro! Com esse teu rio remansado
E afaga-nos as pressas, como um manto que tapa
Esta dor dolorosa...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Amar é

E amar, é ter no mundo, a razão condoída 
Das aves mais sumidas que voejam 
E que no ar se espairecem, vagarosamente
É ver no céu ardente, duas asas que se beijam 

É olhar-se de olhos nus e é também esquecer-se...
É revoar por plainos verdes. Ou p'las eiras dos arvoredos 
Estacar os pés dormentes, pois amar é também perder-se
No empoeirado chão dos silvedos. 

É ser só o tempo todo, como Oliveira em terra firme
Legar o pobre e o mais louco, pois amar é não bastar!
É exceder-se por tão pouco

E viver sempre aquém, numa angústia exaltada
É desejar tanto e tão pouco; pois que é também ver-se louco
E ter a miragem de uma luz, que jamais apagada


João Luciano
13-04-2017



sábado, 8 de abril de 2017

Palavras vãs

Deixemos então, ao vento as palavras
Pois que todas elas são meio canto
E nossos cantares, são preces que almejam tanto
que nos versos faltantes, lhes cortam as quadras

E inutilmente, se diz quanto se pode
Pois só de palavra é o homem curto, desventurado...
Já que só depois da morte, é sabido amado
Aquele que de uma vida, fez a Ode

Ó palavras mudas! Vós que sois fachada
Vos fizemos de olhos sujos, com as mãos encharcadas
E os alfabetos vazios

Vós, palavras tantas! Fartas de um proveito
Quem foi que assim vos fez? Folhas de árvores truncadas
Cujos troncos são dois rios...

João Luciano
08-04-2017

terça-feira, 14 de março de 2017

O Riso

Na portada de uma festa, com luz de velas
Passeio nas calçadas do padrão nosso
Olho o refulgente lustre pelas janelas
E o sorriso que de lá vem, também eu o esboço

Então parei a trilha, do meio da rua ali vendo
os gritos e as risadas estridentes, se escusados,
quanto então serão excedentes? Assim sendo,
mais verdadeiros serão os fados

Porém, também as lamúrias se ultrapassam.
E na demasia se derramam de quando em vez
Mas o riso é mais, faz pouco da morte de um ser

Quanto então custa o fazer, pela face cair a gota? Mais que um esticar de beiça, que tanto se o faz sem deixa, em demonstração de um parecer

João Luciano 2017

domingo, 12 de março de 2017

Se soubesse ser amargo

E fui doce, numa escapada de bom-senso, fui doce
Quis ao mundo escabroso, comprazer de verdade
E na minha ingenuidade, talvez produto de idade, fui doce

Fiz escoar meu jarro para o largo extenso, pensando eu
Assim ser doce. Olvidei meu ser de tal maneira
que se evadiu a derradeira, zarpou de algibeira, a essência que fosse

Ah, se soubesse ser amargo no lugar de querer ser doce
Se soubesse, então penetrava pela porta capital de todos vós,
Assim a sós, sem medir prós, nem que me conviesse

Ah, se soubesse ser amargo, diria falando
pela boca do trombone. O que em mim seria, minh'alma fria,
de ousada alvenaria. Não escreveria

Diria alto e ressonante, nem amado nem amante
Era o grito da verdade, estrito pela espinha do ouvinte,
oxalá por conseguinte, ousasse ser metade

Da metade do todo que não sou, e tento ser, ao querer ser doce.
Até mesma essa, onde se acaba?  É contagem de maré,
Onde mar sem pé, me afogando, se desaba

E então me levo, assim pouco de peça, diariamente
Um pingo de lima em travo de amargura,
Pela alma que não pura, pulvilhado ao de cima

Se soubesse ser amargo, no lugar de querer ser doce
Estaria resolvido o mal posto. De acrimonia ou azedume,
sendo amargo, teria ao menos tido gosto































quarta-feira, 8 de março de 2017

Petição

Sobre a talha de mogno me sento
Ao amparo de um ensombro, escrupulosamente anseio
Pela alma suplicando ao vento: Que me chegue alimento
Venha o pão de nossa cerne poetisa, o centeio

E então, tal qual o esmoleiro e sua petição
Tambem assim me eis, de aberta palma pedindo
Ao céu que se abre, fortuitamente, pela escada de vão
Uma brisa descendo traga em mão, o pão de Deus vindo

Palavras outras dizendo, inspirações epifanias
Pão nossos de alguns dias





terça-feira, 7 de março de 2017

A Lisboa chegando

Ali à beira-rio, vão cheias as lezírias
Nas cercanias da cidade,  imundos os charcos
Pelo céu que tanto traz, e só hoje alaga tanto,
o cais onde retumbam os barcos

É a nau que nos leva ao Terreiro do Paço
Assim é linda a Lisboa, ungida de pranto
O alto que se entorpece, as nuvens tom baço
Pelo chão esbarrando, o sol pouco. Que espanto!

Há ainda a periferia, lá no centro do engodo
Turvo manto daqui se vendo, finge ser sem que o seja
Já daqui o sol nascendo, é a Primavera que se arranja














































domingo, 5 de março de 2017

Me encantará teu seio

Por entre as curvas de teu ventre
se me afagam as lembranças
de um passado que é presente
nas memórias de minhas ânsias

E ali me faço acalentar, calmamente
Prezado recanto o de minha musa
Em pele de quente âmago se sente
o que sente minh'alma abstrusa

Me encantará teu seio, me encantará
Quando ao ver tua pele, de rosa seda
se desvele, ao bem-vir oxalá

Me encontrará teu seio, me encontrará
No pardo mato soturno, ou no comum
Sol diurno, bem sei que assim será



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cansaço (numa brisa de nossa boca)

Sopro de nós, é a lufada de vida
que passa, galgando as ombreiras segue
Turvado som se ouve, onomatopeia que faz bafo
Numa brisa de nossa boca

Ufff... Vai-se um dia, foi-se no horizonte
do mato o sol quente, ou no areal o mar
que o engole, silenciosamente
numa brisa de nossa boca

Se fazem os sóis inteiros, em lamento
de canseira, desesperando, o sopro
é o sopro de nós, a lufada da vida

O dia, é o que recolhe, uma vez mais
Sob o manto de um murmúrio se faz a sombra
Qual o dia de amanhã, qual a noite?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Hábito e as Três Fases

Olho por cima das cabeças, mais à frente, três anos é exemplo, e que vejo? Há nevoeiro além, e no imediato o campo é turvo. Onde estarei? Aqui. Se bem que sei quão vaga é minha presença, e a cabeça que me guarda os olhos é não mais que uma afirmação material de meu presente. Meu pensamento não tem morada, todo o dia é dia novo, novo em demasia. E o hábito é coisa de outro, de outros, todos têm o hábito. Vejo o hábito atrás da névoa, e assim que me chego a ele, se vai, se foi,  novamente pra além, e pouco dura o toque entre mim e o hábito. Pudesse medir distâncias que arriscaria em redondos; três metros são que nos separa.  E é legítima a pergunta, vossa, minha, do porquê de alguém como eu, que se vem apelidando de tudo quanto são traços de incerteza, ser agora capaz de vos dar sem tremer o número perfeito, para a quantidade de distância entre dois pontos abstratos. Pois bem, três é certo. Três é o número que equivale ás três fases pelas quais passo até que, irremediavelmente, volte ao ponto de partida; ao ponto nulo; á estaca zero; onde o mar não mais ondula e onde se me aplana todo o semblante para que nada mais faça.

A fase primeira chama-se epifania. É dela que tudo vem. Disse há dias que é a epifania que me faz sentir vivo, e não menti.  Vejo um homem, ou uma pedra que me desponta sentidos, e nasço, aliás acordo, acordo de vida. Nesses dias tudo flui, sem grandes pensamentos. Escrever torna-se, no verdadeiro sentido da palavra, um gesto; um movimento natural que pouco objetiva. Então escrevo devaneando, sem propósito, pois é assim minha epifania - um grande esquecimento. E se esqueço, lembro, e tudo flui, meu mal é pensamento.

Na fase dois, faz-se. Mas faz-se sem saber, como agora faço, e amanhã não lembrarei como fiz. É certo que algo fica, é certo que algo vai, mas nada é certo. É esta a fase de que menos sei, e é aqui que menos falo.

A última fase não importa, que não tem nome. É o fim que não acaba. Pois se sei que terminei, sei também que me faltam recomeços. E como em qualquer recomeço, nascer faz dor, e mais dói ainda quando não nos é dada a data do parto, e ali ficamos, como um feto que aguarda o dia, sem saber porquê, e para que espera. Nesses dias não há mundo. Esses dias nem são dias, pois ao útero não chega nem o sol, nem a lua. E lá se vai o hábito, meus nascimentos são desfasados, e é tão dúbio meu período gestacional. Nem se fale em esquecimentos, ou lembranças de maior memória, que não as há, no útero. Só se está, e disso estou certo. Certo de meu novo nascimento, aquando a menor luz de minha salvadora. Epifania.


João Luciano







domingo, 15 de janeiro de 2017

Na calma de teu regaço

Na calma de teu regaço, ó minha musa
Assentei nuas, as palmas das mãos tremidas
Que inverno fora este, que noite havia sido
Se tuas malhas quentes, tivessem sido esquecidas

E as tuas mãos, vindo depois lentas
Nas minhas vieram tocando, mornas de seda
Tua pele de algodão, meu semblante inibido
Vestidos caminhámos juntos, em uma só vereda

Caíram gotas das folhagens, era Junho de frio muito
As precianas todas baixas, o silêncio do mundo
Toquei-te os fios do cabelo, se sei de teu perfume
O cheiro das acácias, de teu jardim oriundo

Depois te beijei muito, no caminho do chão de pedra
Se te lembras? Tão bem sabes, certamente
Que eu tomei nota, com desenhos de folha inteira
E aos restos da madeira, guardarei em minha mente

E lembro mais ainda, quanto queres que te diga?
Te direi quanto baste, para saberes que te sei
Não de cor, mas de espanto todo o dia
De não saber que viria, e saber quanto te amei


João Luciano




sábado, 7 de janeiro de 2017

Fotografia

E da janela do aposento, branca
a cozinha da casa do campo, bate
a luz no paredão. Dois rostos de vida toda

Só o momento tem em soma, e o cheiro não se diz.
O aroma da romãzeira, o chá príncipe.
Dois restos da lembrança

Captura, captura! Toca no botão! Que o que posso, aqui deixo.
No tom de cinza preto, como a memória se faz ter.
Na forma de fotografia, meu momento triunfante.
Duas faces da beleza, sob o um sol de leveza, e a alegria abundante.

João Luciano

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

3 de Janeiro

É o terceiro sol, dia de ver as sobras. Uma nesga de luz escassa rompeu a cortina descorada. Na TV fala o repórter ilustre, seu ar sisudo transborda pelo vidro e me invade o aposento, sua voz traz a chuva, é uma espécie de trovão ritmado que todo
o ano rasga o céu, uma vez agora, outra depois  mais tarde, aquando se comerão as passas. Tal foi hoje, tal foi ainda há dias, quando a noite se queria em ansiedade pela última vez. E é certo como a morte, cadente que nem ponteiro, fazendo o habitual balanço anual do que foi. Depois, daquilo que virá e, ultimamente, caso se cumpram tradições, é a voz das gentes que se juntará ao canto, todo tão certo de si mesmo, como um cálculo previsível. E eu, músico que sou, tão fora da banda estarei ouvindo. Ouvindo de paixão, invejando sem maldade o compasso que sempre me escapou.