Já um ciclo se fecha. Achegam-se as portas rígidas do seguinte instante. Nos semblantes dos transeuntes identifica-se uma alegria melancólica que se manifesta com sorrisos. Um sentimento de batalha findada partilha-se e alastra-se em mantos de gente andando.
Debruço-me, e sobre a calçada cai uma chuva de sonhos, é o reflexo dos sobejos consumados, ou talvez o defeito daquilo que, ficando por fazer, a tenha trazido para o final acerto, última intervenção natural, aplanando a erva e lavando com lençóis de água a terra que agora se alisa uniforme. Prepara-se enfim da mesma maneira o mundo como os homens, com o típico torpor que se distende e inquieta ao ultimo instante.
Não há novidade numa despedida; afinal são sempre feitos de seda mole os corações dos homens, compungidos que ficam os olhos perante os abraços que os juntam. Oxalá fosse o mundo inteiro como este lugar onde tenho vivido, esta gente com quem me cruzo, porque uma vila sonolenta jamais se ofusca pelo estridente e profundo embaraço da capital. Aqui, por se ter dormido, também se acorda, e as pessoas veem, e eu vejo-as.
É para todos que vai meu abraço: porque nem só de uma vila se fez meu ano, nem só por penhascos rolados e lascas de xisto pisei, ou lamaçais onde a água caiu a alisar os rugosos caminhos, também na margem oposta do rio caminhei, também por lá fiz aparecer laços que se ataram e estenderam resistindo sobre as margens do Tejo, lembranças trago nos alforges, vivências palpitando neste coração que se abre; com tudo isto o ano me prendou. Por tudo isto se preenche o livro que terminei, está lá tudo e estão lá todos.
Não sou de esperar muito da vida. Este anos espero que o consigam ler.
Bom ano para todos. Os de lá os de cá - Barafustando sobre as sete colinas ou dormindo sonolentos entre os braços de morfeu.
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