De manhã, na casa das loiças, Maria Fragoso desistiu de lançar pirraças ao destino. Achou ter visto mais do que os olhos logravam - a obra de um destino cruel - abrir-se um mar a meio com um fundo muito negro, sem se lhe ter anunciado foi, no mínimo, um acto de ostentação divina. Afinal até Deus erguia o peito. Ao menor pensamento ousado fez saber que ali estava. Mas o pensamento de Maria nem era nada de mal. Um único desejo que não merecia o segredo de uma intimidade muito sua, nem um recanto num lugar longínquo de sua alma onde não o pudesse lembrar, era aquele que de manhã a ocupava, enquanto lavava a louça e devaneava sobre a eternidade da vida; de como não vir a perdê-la. Assim como, eterna? Mas o susto que a deteve fez com se conformasse, sem sequer ter pensado em conformar-se. E tranquilizou-se.
Os pratos que ao de leve recebiam os primeiros rios de água morna, tilintavam como espadas sem ritmo, contra os copos e talheres, e quando Maria se distraía olhando pela janela, sem ver, por vezes se rachava um e outro, frágeis como sua alma tremebunda. Recebera-os numa comunhão de amigas, quando sem vontade se haveria deslocado ao pátio no dia anterior, afim de comemorar os oitenta e nove da dona Alberta que não tinha cá o neto. Terá sido por razão essa e não outra (achava Maria) que haveria concebido todo aquele aparato; convidado toda aquela gente louca, de primaveras muitas e outonos outros tantos. Foi um fiasco, afinal. A coitada não merecia tanto; morrer assim, em festejo iminente - o Pai que nos trouxe nos leva, é ele Quem sabe nossa hora; nosso momento derradeiro é para nós como um sopro na areia, que vem como vai, sem que se deia conta alguma ou se acerte em cálculo de mãos e cabeça; assim, pensar na morte é um devaneio insensato - pensou. Ter na pele que é nossa, a dor de um outro ser é por outro lado um acto muito digno. Ora Maria sempre sentia no corpo e na alma uma angústia que não era sua, como alguém que, sem que em momento algum tivesse pedido para cá estar, vir ao mundo fosse um sacrifício enormíssimo, e estar nele vivendo, um desastre escandaloso. Mas enquanto lavava as loiças fez para consigo um pacto muito metido - não contrariar aquilo que por mão maior foi feito. E tranquilizou-se.
Quando Maria fechou a torneira, já tinha os pés na terra e as mãos muito cheirosas. Podia ser outra mulher, mas Deus não deixou. Matou-a ali. Com um golpe muito súbito retirou-lhe o que por defeito lhe pertencia. Sem mais, num desmaio, embateu com a cabeça contra uma quina de bancada. E tranquilizou-se.
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