domingo, 12 de março de 2017

Se soubesse ser amargo

E fui doce, numa escapada de bom-senso, fui doce
Quis ao mundo escabroso, comprazer de verdade
E na minha ingenuidade, talvez produto de idade, fui doce

Fiz escoar meu jarro para o largo extenso, pensando eu
Assim ser doce. Olvidei meu ser de tal maneira
que se evadiu a derradeira, zarpou de algibeira, a essência que fosse

Ah, se soubesse ser amargo no lugar de querer ser doce
Se soubesse, então penetrava pela porta capital de todos vós,
Assim a sós, sem medir prós, nem que me conviesse

Ah, se soubesse ser amargo, diria falando
pela boca do trombone. O que em mim seria, minh'alma fria,
de ousada alvenaria. Não escreveria

Diria alto e ressonante, nem amado nem amante
Era o grito da verdade, estrito pela espinha do ouvinte,
oxalá por conseguinte, ousasse ser metade

Da metade do todo que não sou, e tento ser, ao querer ser doce.
Até mesma essa, onde se acaba?  É contagem de maré,
Onde mar sem pé, me afogando, se desaba

E então me levo, assim pouco de peça, diariamente
Um pingo de lima em travo de amargura,
Pela alma que não pura, pulvilhado ao de cima

Se soubesse ser amargo, no lugar de querer ser doce
Estaria resolvido o mal posto. De acrimonia ou azedume,
sendo amargo, teria ao menos tido gosto































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