Olho por cima das cabeças, mais à frente, três anos é exemplo, e que vejo? Há nevoeiro além, e no imediato o campo é turvo. Onde estarei? Aqui. Se bem que sei quão vaga é minha presença, e a cabeça que me guarda os olhos é não mais que uma afirmação material de meu presente. Meu pensamento não tem morada, todo o dia é dia novo, novo em demasia. E o hábito é coisa de outro, de outros, todos têm o hábito. Vejo o hábito atrás da névoa, e assim que me chego a ele, se vai, se foi, novamente pra além, e pouco dura o toque entre mim e o hábito. Pudesse medir distâncias que arriscaria em redondos; três metros são que nos separa. E é legítima a pergunta, vossa, minha, do porquê de alguém como eu, que se vem apelidando de tudo quanto são traços de incerteza, ser agora capaz de vos dar sem tremer o número perfeito, para a quantidade de distância entre dois pontos abstratos. Pois bem, três é certo. Três é o número que equivale ás três fases pelas quais passo até que, irremediavelmente, volte ao ponto de partida; ao ponto nulo; á estaca zero; onde o mar não mais ondula e onde se me aplana todo o semblante para que nada mais faça.
A fase primeira chama-se epifania. É dela que tudo vem. Disse há dias que é a epifania que me faz sentir vivo, e não menti. Vejo um homem, ou uma pedra que me desponta sentidos, e nasço, aliás acordo, acordo de vida. Nesses dias tudo flui, sem grandes pensamentos. Escrever torna-se, no verdadeiro sentido da palavra, um gesto; um movimento natural que pouco objetiva. Então escrevo devaneando, sem propósito, pois é assim minha epifania - um grande esquecimento. E se esqueço, lembro, e tudo flui, meu mal é pensamento.
Na fase dois, faz-se. Mas faz-se sem saber, como agora faço, e amanhã não lembrarei como fiz. É certo que algo fica, é certo que algo vai, mas nada é certo. É esta a fase de que menos sei, e é aqui que menos falo.
A última fase não importa, que não tem nome. É o fim que não acaba. Pois se sei que terminei, sei também que me faltam recomeços. E como em qualquer recomeço, nascer faz dor, e mais dói ainda quando não nos é dada a data do parto, e ali ficamos, como um feto que aguarda o dia, sem saber porquê, e para que espera. Nesses dias não há mundo. Esses dias nem são dias, pois ao útero não chega nem o sol, nem a lua. E lá se vai o hábito, meus nascimentos são desfasados, e é tão dúbio meu período gestacional. Nem se fale em esquecimentos, ou lembranças de maior memória, que não as há, no útero. Só se está, e disso estou certo. Certo de meu novo nascimento, aquando a menor luz de minha salvadora. Epifania.
João Luciano

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