quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Senhora Solidão


Sozinhos
Somos mais
Sozinhos 
Não existem dois nem três
Sozinhos
somos um
Um só sem porquês
Sozinhos
Somos juntos
Acompanhados
Somos uns quantos
Uns quantos somos muitos
Mas sozinhos somos tantos
Quando a senhora solidão
se acompanha por algum de nós
Ela mesmo partilha
Pois a própria solidão
Precisa de companhia



João Luciano
28-3-2016

domingo, 28 de agosto de 2016

Conselhos e lamentações

Ah! Esse corpo encurvado, que se faça erguido
Ah! Esse olhar caído, que não viu que o justifique
Ah! O desânimo que é vaidade
Ah! Que mal que se nega o despique

Oh! Que é cedo para amores perdidos
Oh! Que é bela a infância de olhos nus
Oh! Quem dera o tempo voltasse
Oh! Á alegria dos dias primeiros

Ah! Na Primavera de há dois anos...
Ah! Que o calor que me trouxe hoje
Ah! Pudesse eu o que podia antes
Ah! Que os defeitos eram outros

Oh! Ponderada opinião a minha
Oh! Tão certa de alheios mundos
Oh! Que sei, que saiba, o que sei mais hoje
Oh! Que o diga de maiores certezas


João Luciano






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Meu nariz pingado

Ja perdi o gosto ao prato. E o faro, esse nem me aflige desde há muito. Sofro de um mal de nariz que me ocupa os invernos de lenço na mão, e gastam-se sem medida, ensopados pelas mucosas tiradas a custo das narinas avermelhadas. 
É tudo esforço inglório. Não há um concretizar nunca. Sempre aquém do que deveria ser, como um pinheiro que quase tocou o céu, ou uma prece que ao pedir demasiado, morreu padecendo do que faltou na dádiva do altíssimo. 

Então faço força com o nariz já esfolado, mas é ingrato, só saiem pingas poucas, e o entupimento não cura, para mal da minha voz  anasalada. Pensei para mim mesmo," É o que tenho, e foi Deus que me deu"  mas até o pensamento saiu froxo, trocando os "mês" pelo "bês". Era gozo próprio, humilhação que vinha de mim para mim. Quem dera poder livrar-me deste defeito interminável num esforço último e único, que a voz me viesse nova e limpa, que seu som se recompusesse forte e projetante. Que o aroma da terra molhada me invadisse livremente as narinas, numa novidade de antigamente. Mas nunca assim foi. Basta que vire o tempo, umas quantas águas que pingam, uns sopros de maior nome e um céu que desce aos prédios, que já se me dita o destino, imediatamente, até ao voltar do próximo sol.



Dos alperces que meu quintal brotou, se encheu a mesa do jantar. Lindos, laranja avermelhado, com pele apetecível. Peguei um, trinquei, e foi como morder água fria, inodora e sem sabor. Não fosse o tatear aprovado que nem a pele áspera lhes provava. Sobrou-me pouco da essência da fruta. Maldito inverno que ainda se avizinha, e já me vem rogando praga.

A mim só me chegou parte do todo inteiro. A mim, no inverno, só me restam os dois sentidos. Ouço o vento atentamente e quase que lhe toco esfomeado. Quanto à visão, é turva todo o ano, meu ver nunca foi de olhos.

João Luciano




terça-feira, 23 de agosto de 2016

E se Deus fosse pintor?

Diz-se o mundo em prosa. Porém foram versos os primeiros dias. Na forma de livre encanto  traziam consigo nas quadras, como um feto que aguarda calmo, o rumo a tomar adiante, afinando assim ao criador todo o mar que se havia visto bruto. Só depois, depois do esboço primordial, da poesia vasta e vaga,  das palavras que fogem em apresso, o texto tomou sua corrente, e se formou a circunferência linear, com mil traços curvos, que a antecipavam ao de leve num rodopiar de lapiseira ambicioso.

Terá sido Deus um inspirado pintor? Um poeta que nasce antes do Tempo?


Lá fora faz sol forte, brilha como nunca a parede branca de meu quarto. Veem-se nela pendurados, dois quadros de rostos preto e branco. Olhos-os em desinteresse e reconhece-lhes limitações. São dois filhos que me olham mudos, desprovidos de alimento. Foram dados ao mundo prematuros e faltam-lhes os cabelos.
Não tenho porém em mim, menor ressentimento que o valha, nem me acordam na madrugada os berros das criaturas incompletas, esgueirando-se para fora da moldura, com insultos da boa língua protestante. Antes assim fosse!... Que merecedor de repreensão já sou eu grande, e o tempo me aperta em soluço incomodativo, o coração que tanto me inquieta o corpo.
Na melhor das hipóteses, retomando o percurso do carvão afiado, riscarei uns quantos fios que se desencontram pela tela abaixo, sem muita vontade porém, diga-se. Não fossem pois os gritantes que me rodeiam, que toda a obra era meia, todo o texto era verso perdido, e o pensamento...oh esse maldito!! Era fazer-lhe valer o nome. 

Mas agora os quadros ; esses é ouvi-los calados, basta que me olhem a mim, maltratados pelo tempo, inexpressivos e inacabados. Que farei com os quadros inacabados senão os posso juntar aos bons? É amontoa-los? Será certo? É recuperar-lhes a vida, ou melhor dar-lhes a vida? Não, isso não. Ou há recomeço total ou tardam morrendo os interruptos.

Mas e se Deus fosse pintor? Ninguém responde? Se sua tela fôssemos nós, pregados às paredes nebulosas do paraíso. Se é que as há para lá do céu vistoso, lá onde o céu não sabe que é céu, porque lhe falta o teto. Se porventura somos produto de inspirado momento divino, não terá Deus também seu olhar agudo, de crítico da Arte moderna. Não lhe faltarão contudo, cabelos por deliniar nas cabeças de seus filhos?
E agora lhe gritamos nós, tal e qual como haviam feito as telas de meu quarto, se o pudessem. Gritamos pelo fio de cabelo que nos falta. Pela pedra que termina a corrente desvairada. Pelo número último que descodifica o infinito e o põe perante o fim mais cruel. Gritamos pelo ponto final. Que Deus ponha termo ao quadro e que assine por baixo. Sim, que se lembre de o marcar. Não vá o diabo tece-las.


No fim de tarde morno, á hora do sol-posto, sentei-me ma cama desfeita. Nem na volta mais longa do cérebro perplexo que é o meu, havia passado outrora tão insólita questão quanto esta. E se a Deus, lhe permitíssemos o erro?

João Luciano




domingo, 21 de agosto de 2016

Sonho

Amo o erro
De todo o meu coração
Sim, coração
Se ao cérebro lhe cabe os acertos
A este bastam-se-lhe os sonhos
Os sonhos e os devaneios
Os equívocos grosseiros
Viver sem sonho é escapar-se o coração
É morrer em antecipação
Acordar na escuridão.
Porém, viver de sonho
É negar a compreensão
Que ao homem chegue então
A linha de separação
A devida distinção
A mais que opinião
Quantidade de precisão
Entre a cama e o chão
Entre os dedos e a mão
Entre a realidade e ilusão


Joao Luciano
06-07-2016



sábado, 20 de agosto de 2016

O pó que cegando, fez ver


Não fossem as estantes dos famosos livros estar por baixo do piso zero, e os misteriosos contos que se continuavam por gerações, herdados do boca-em-boca e relatados nas altas horas vespertinas aquando dos jantares e ceias, pelos avós do menino Timóteo, sobre encantos e monstruosidades escondidos, fadas e duendes entre páginas que se abrem; que ele não teria decerto esta curiosidade que agora o ocupara, de descer a íngreme escadaria do lado da despensa, que conduzia á cave.
O acto não fora ainda consumado. Não só por falta de oportuno momento, pois era casa sempre cheia, e seria portanto, inevitavelmente apanhado em flagrante se se aventurasse pela escadaria abaixo, como pela celebração da habitual hesitação em momentos de risco, que travava já em pés de chumbo o menino Timóteo nas duas malogradas tentativas da semana anterior. De todo o modo, era menino persistente. Talvez os dias vindouros trouxessem novidades mais favoráveis – pensou otimista – e para mais ainda, operações deste calibre, cujos fins sempre são ocultos e muitas vezes de difícil acesso, duros de roer, exigem desde já uma mentalidade disposta ao erro, á tentativa-erro. E bem vistas as coisas, um par de investidas fracassadas não poderiam jamais justificar um baixar de braços definitivo, uma desistência desanimada Mas desengane-se quem pensar que o menino Timóteo era desses que se deixam tombar ao primeiro sopro da ventania, pelo contrário, era antes criança curiosa, em idade de pura novidade e anseio de medos. Não tarda que por aí esteja já a empregar planos táticos de intervenção às secretas, numa dessas noites em que tudo se cala dormindo.

Timóteo comia agora á mesa, rodeado do pai e mãe, avó e avô e dois irmãos mais novos, que enquanto às ordens da mãe, fingiam ir comendo de bom-grado, despejavam sorrateiramente, bocado a bocado, naco a naco, o frango com caril pelo um saco abaixo, que escondiam pendurado numa das gavetas contidas no tampo. Por norma, o irmão mais velho nada dizia que os denunciasse, ia rindo como cúmplice da traquinice, mas hoje por excepção, e numa palavra de ordem, repreendeu firmemente os mais novos que parassem com o desperdício. Assim o fizeram os pequenitos, bem-mandados, como nunca antes visto. 
O jantar terminara em silêncio, após gritarias sobrepostas, correções e chamadas de atenção de lá para cá, resultantes da intervenção quase paternal do irmão mais velho. E ato contínuo, um por um, tudo fora dormitar para os quartos, como que em refúgio da barulheira, enquanto sozinho, o menino Timóteo, ainda na sala, sofria o sermão do pai, que lhe dizia não ter agido da forma correta com a miudeza maior. Timóteo sentira-se alvo de injusta repreensão, mas calou. Sua vingança estava para breve.

Nessa mesma noite, horas mais tarde, Timóteo levantou-se do sofá – onde tinha ficado intencionalmente a fingir o sono – e num golpe de coragem sem berço, pé ante pé foi-se aproximando da despensa. Seu pensamento fora atormentado milhentas vezes durante o percurso sob a possibilidade do fracasso, seu corpo tremendo em anseios já conhecidos, suas pernas cedendo ao frio do inverno que se fazia sentir agora mais, enquanto lhe brilhavam na testa gotas de suores frios. Porém hoje era noite de bravura, e esta tomou-o então por completo, a pontos dos pés, outrora convertidos em chumbo, terem agora ganho asas, e em salto subtil o terem levado até ao destino tão desejado. Timóteo tinha o mundo a seus pés, ou pelo menos, uns metros abaixo. Talvez fossem dez os degraus a descer, talvez vinte, ou trinta, ou sabe-se lá cem ou duzentos. No entanto estava decidido a não vacilar desta vez, por maior que fosse o negrume para lá da porta aberta, havia de o descer até ao fim, para depois alcançar em satisfação todas aquelas páginas que se fechavam por anos, e abrindo-as uma por uma, lê-las, como se estivesse descobrindo as origens do mundo.

Descidos os três primeiros degraus, já se via o fim á escada. Era curta e encaracolada, sem corrimão. E como que em tons de amarelo fogo, no fundo, via-se uma claridade pequena sobre a parede oposta á qual estava vindo a descer, e donde saia embutida, a escada.  Já de pés assentes no piso inferior, Timóteo dobrou a esquina que vinha no seguimento da descida, e olhando em espanto de criança para seu lado direito, avistou espalhadas pela cave, quatro enormes estantes de madeira velha, atoladas de alto a baixo com livros que se pareciam iguais entre si. O adjetivo, atribuiu-o á coloração das capas, que por sua vez se apresentavam cobertas de pó castanho carregado, confundindo mesmo os livros com as inúmeras prateleiras de madeira. De resto, em tamanho, eram diversificados. Uns grandes e largos, outros finos e de tamanho médio, mas quase todos amarrotados algures, ou na ponta das páginas, ou mesmo, e em muitos casos, em todo o seu volume. Fazendo lembrar por vezes, panfletos velhos de importância nenhuma. Timóteo transbordou alegria, estava extasiado em silêncio, como uma criança que tenta não rir perante a mais cómica das piadas.
A avaliar pela primeira impressão, era espaço abandonado, caído em esquecimento por longos anos. A luz era fraca. No teto sujo, pendia uma lâmpada num fio descarnado, e era só. A atmosfera era pesada e o ar denso, impessoal, impróprio a crianças. Havia também uma espécie de fumaça que não o era, um antes nevoeiro sublime que entontava sensações. Talvez outrora a sala fosse usada por velhos homens fumadores, que bafejando constantemente charutos ou cigarrilhas, fossem clamando poesias e dizendo histórias de voz alta e timbre grosso. Timóteo já imaginava um, sentado no cadeirão do canto da cave. Barbudo, e de cabelos desgrenhados lhe construiu a imagem, quanto ás vestes, teriam de ser antigas, claro, e de preferência velhos farrapos rotos que concordassem com o parecer velho da sala actual. Tudo isto não levou minuto a passar-se na cabeça de Timóteo, foi mais um de seus devaneios passantes que vão e vêm; este foi e não veio. Não precisou de muito tempo para que a hipnose contemplativa lhe tomasse o corpo em completude. Não andava como gente normal, Timóteo deambulava em puro encanto pelos pequenos corredores da cave, e fitava os livros sem atenção consciente, como se todos fossem um só, unidos, e o olhassem a ele dizendo-lhe “olha-nos” numa espécie de feitiço anónimo. Após os instantes do bruxedo (salvo seja o termo), Timóteo decidiu escolher ao acaso, um dos livros que estivessem á sua altura de menino, não no sentido figurado, mas no propriamente dito, visto que eram altas as estantes, o que o impossibilitava de alcançar as prateleiras superiores. Ficou –se nas que lhe davam pelo joelho. Era categoria filosófica, mas Timóteo não leu o título, não só pelo pó que dificultava a tarefa, mas também pela ânsia de lhe ver o interior das páginas. Leu sem grandes assimilações, um ou dois capítulos introdutórios, era denso de conteúdo, e pesado na volumetria. Uma compilação de pequenos pensamentos da filosofia antiga. Depois passou sem demoras á secção das fábulas – que lera com maior proveito – e seguidamente ao corredor da ficção científica, onde não demorou muito, até chegar, em última leitura da noite – estipulou-se a si mesmo – á divisão da poesia. Aqui mesmo, deparou-se com um capa que lhe captou a atenção. Era de tons de vermelho-tinto, com pequenos e delicados traços de floreado na lombada. O facto de Timóteo se encontrar agora particularmente desperto, deveu-se também á limpeza de que este livro se fazia ver, ao contrário de toda a sala, o pó parecia aqui não ter caído abundante. Havia-o sim, mas apenas em redor do livro, como se este beneficiasse de virtudes humanas, e tivesse sido limpo em datas de passado próximo. Timóteo estava decidido em alcançá-lo, não fosse ele estar a dois metros de altura, que já decerto neste momento lhe comia as palavras. Não havia tempo a ser perdido, por entre a porta que deixou aberta, já se iam vendo noções de dia nascente. Timóteo pensou em escalar as prateleiras, pegar o dito-cujo, e á falta de melhor ideia, correr em silêncio para seu quarto com o livro debaixo do braço. Mais tarde teria tempo de o ler, embrulhado nos lençóis de seu aposento. Assim fez. Numa acção de pura loucura, subiu torto a estante acima, e facilmente tocou o objeto num gesto que o fez tombar, e consequentemente cair-lhe com peso em cima do olho esquerdo. Afinal havia pó, sim. As mil páginas abriram-se em obrigação, como que acordadas á força, e de lá saíram mil grãos de areia autêntica, que, em conformidade com o choque, danificaram generosamente a vista esquerda do menino Timóteo. Como o sangue era ainda quente, a dor só se fez sentir minutos depois, quando já se embrulhava no edredão da cama de seu quarto, simulando um sono quieto.
O que iria dizer agora Timóteo, com um olho negro? Esconder-se não podia. A manhã aproximava-se em pressa, e a luz que perfurava as precianas fez roxear ainda mais o inchaço. Não tarda muito teria sua mãe á porta dizendo-lhe que se despachasse. O autocarro do colégio não atrasava um minuto. E o pior é que Timóteo por norma também não.

Poupem-se os meios ao leitor, que agora são dispensáveis. Atalhe-se o caminho, deixando em suficiência os termos do que aqui veio depois a acontecer. Timóteo, para além de sermões valentes, levou acoitadas de força, e sem alternativa, fora obrigado a confessar o crime perante o agregado inteiro. Foi manhã de mau começo, e o dia que se prevenisse.
No colégio, a rebelião da miudagem encheu de insultos e troças a nova mancha de Timóteo. E se ele não verteu lágrimas, foi só porque o abcesso assim o impedia. Foi tortura desmedida, tanto em casa como fora. Timóteo já ao tempo que se havia arrependido do ato que tivera, e perguntava-se a si mesmo se já não lhe havia servido de castigo, a cegueira temporária.

Durante as noites seguintes, sua cama foi sua companheira mor, a par do livro que havia furtado da cave misteriosa. Lia lentamente cada palavra como se delas viesse um mundo novo, uma flor que desabrocha no cimento de um muro, e na quebra dos versos sentia a quebra da alma, a melodia da poesia que acorda suavemente do sono o músico, e que o faz dormir em seguida, o sono do sensível. O mais sublime de todos os sonos. Via como se tornava agora um deles, sensível, de dia para dia, cada vez mais. Timóteo dormia enquanto acordado, jamais havia saído da cave, tudo eram estantes de livros. Sentia cada toque de alma, cada nota do vento, cada choro alheio era lágrima também sua. Via o mundo em profundidade. Porém o mundo era cinza, impenetrável. A lidação social uma tortura. A escola, um período longo e doloroso. Timóteo via-se procurando cascata em muralha de castelo. Um esforço inglório. A troça havia piorado. Timóteo era cego do olho esquerdo.

Numa manhã igual ás outras, na sala de aula, a professora pediu a Timóteo que lesse um texto que ela havia escrito no quadro, mas ele não conseguira ver bem, sua vista defeituosa o impedira de assimilar coisa longe. Então num calafrio de vergonha íntima, Timóteo leu conforme pôde. Era poesia bonita e leve. Aqui e ali, ia trocando palavras por outras que pensava ter visto. A ordem do poema ficou completamente alterada, e a essência, desvanecendo, foi perdendo sua magia. No final da leitura, a classe soltou uma gargalhada diabólica que havia suspendido até então, em troça já familiar e de má memória. A professora calou, e todos disseram quase em coro “ Cegou-te o olho esquerdo, mas não vês direito, com o direito!”.  
Timóteo chorou e calou por completo, mas no fundo de seu íntimo, sabia que via muito mais para além dos olhos.


João Luciano
20-08-2016




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Culpa

Nem se praga ou sina fosse
Notariam em mim de igual forma
Este sombreado que me vem dentro,
Esse cansaço que me veem fora
Estilhaços de alma dispersos
Que se partiram algures dentro
São olhos entreabertos
Perdidos há já tempo
Maldito destino que não veio
Desgraçada liberdade a minha
É grande a dor, o ter de escolher
Eterno ardor, o ter de ver
Antes fosse culpa não minha
Lá do alto céu divino
Antes fosse assim, o género de Caim
O erróneo que vagueou pelo mundo
Mas sem ter podido dizer sim
Sem escolher, sofreu
O erro não foi seu
Já este é só meu
Ninguém mo deu
Se erro, escolhi errar
Se amo, escolhi amar
Mas escolher dói na alma
Não é coisa calma
Se Caim morreu condenado
Irei eu sendo adiado
Joao luciano



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sou escasso, sou esculto

Falho quando me pedem
coisas para amanhã
caio quando cedem
à palavra vã

peço demais aos que falham
falho demais aos que pedem
por isso sou meio termo
e não um lado só
escolho meu temperamento
sem dar nó

vergo conforme posso
dou conforme peço
e tropeço
como todos nós
tento não ficar a sós
nem do avesso
nem prometo
nem cumpro
sou vago
sou vulto
sou escasso
sou esculto



João Luciano
29-05-2016

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quão pouco somos

No mundo que nos opõe, inevitavelmente
Entre a chuva e o sol ardente
Vai e vem um vento que os afaga,
Tanto ao tempo como á gente

Um dia mais, e tudo se irá junto
Dos polos que se refutam,
Aos elementos que se concordam
Dos filhos que lutam,
Aos amores que transbordam

Tudo é como nada,
E o nada é tão pouco! Como o tudo
Guardo nas costas as mãos crispadas
E na boca o alfabeto mudo

Retornarão atrás as marés; uma última vez
No tom de fim de tarde rosa
E o calar de meu propósito, contudo
Que é o da mente tenebrosa, e olhar agudo
Dever-se-á ao sol que se pôe ao fundo





João Luciano
16-06-2016






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Desânimo

Conformada quietude a minha
De maciez demasiada
Padece de violência necessária
Para ver obra acabada
Acalmam-se-me os braços finos
Sempre algures a meio
São eles o desânimo
Mas quieto nao sou eu, afinal
Antes fosse bom ponteiro
De hora marcada e minutos certos
Que tudo lhes dá na ordem
Sou antes inconsistente, digamos
Profunda melancolia
Como o sono de todos os dias
Que tardando ou não
Sempre se faz sentir
Vou vivendo, vendo-o vir
Vendo-me ir, divagado
Estou quebrado
Sou bico de esquina
Aresta do cubo quadrado
Que por ser apenas quase face
Estou impedido de tocar nos lados

João Luciano



Imortal natural

Sou imortal
no que toca ás ideias
morrem as peles
ficam as veias
conduzem o sangue
ao devido lugar
não param a meio
mas não há pressa em chegar
Sou imortal
com o maior dos amores
matemos ilusões
e os demais odores
acabam os medos
e os vários desejos
floresce a primavera
com os mil beijos
nascem as árvores
e os mares enormes
choram as nuvens
de céus uniformes
Sou imortal
uno em um todo
venho da terra
e é para lá que torno
E os planetas
e os cometas
os anos-luz
e a própria luz
tudo cabe dentro
não há cruz
nem há só um ventre
nem um só Jesus
Sou imortal
nada sobra
nada falta
não nasci
nem morrerei
abastada família
a de nossa mãe

João Luciano
28-05-2016




domingo, 14 de agosto de 2016

Folhas do devaneio

Troco tudo por um troco
tudo quanto faço no meu bloco
Brancas folhas de gramagens diversas
viram parteiras de ideias dispersas

Nelas cai o mundo de olhos meus
o caos á minha ordem
As mãos de preto sujo
A alma de superordem

De rabiscos e gatafunhos
está já o quarto cheio
enchem e tapam o pavimento
as folhas do devaneio


João Luciano 
29-06-2016




Na manhã que quase nasce, vejo um mundo quase meu

São os dois antebraços que vão suportando o peso de meu corpo que se encontra oblíquo, inclinado sobre o parapeito de mármore da janela de meu quarto.
É quase manhã. Mais um dia irá nascer. O céu apesenta-se ao mundo, e hoje, mais se parece com um cimentado chão, tal a opacidade de que se veste. Não perdeu contudo a subtileza.
Duas nuvens, tímidas como eu, soltaram agora as mãos uma da outra, e por entre elas fez-se ver uma breve noção da manhã. Porém, o sol ainda se encolhe, é tempo de espreguiçar seus membros radiosos. O ar é leve, e também meu corpo. Parece ele estar suspenso no ar, pairado no vazio, como um anjo que ao cair do céu fora amparado pela atmosfera.
Reina o silêncio nas ruelas de meu bairro. Tenho a sensação de recomeço total, própria de um nascimento consciente na hora do parto. Vejo um mundo que é quase meu. A ânsia ou necessidade de testemunhar todos os eventos matinais, fez-me madrugar. 

Do outo lado da passagem donde vem a escassa luz, tudo ainda dormita. Dei por mim a pensar enquanto esperava do sol as notícias rotineiras, que se todo o mundo pudesse aqui estar, olhando o lívido rosto da manhã, escutando a mudez das ruas, só de quando em vez interrompida pelo som das solitárias folhas, que dançando ao sabor do vento, vão como que despertando do sono as duas ou três árvores que aqui foram plantadas, ou pelo latir de uns quantos cães vagabundos, que são os galos da cidade; se sentissem como eu, o repouso da azáfama, a quietação das gentes, chegariam provavelmente á mesma reveladora conclusão que agora cheguei eu. É grande a vontade de partilhar.

João Luciano
2016


sábado, 13 de agosto de 2016

Não me digam nada (certamente)

Não me digam quando
As verdades tocarão os lábios
Nem o mundo se tornará verdadeiro

Não me digam ás claras
Para que serve o canto dos pássaros
E a dança dos ventos

Não me digam de frieza
A inutilidade dos quatro versos
E a delicadeza do Outouno

Não me digam nada, certamente
Calemos a teoria, a contagem das marés
...Ouçamos a brisa, 
...Sintamos os pés

João Luciano

01-08-2016


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A rocha

Numa das extremidades de meus dedos, tocaram delicadamente os seus cabelos. Estava a brisa a meu favor. Era meu o mundo. Não lhes senti, nos fios, nenhum toque de rosas do costume, nenhuma verdejante fragrância que me entrasse pelas narinas, não senti tao pouco qualquer vestígio do habitual jasmim que sempre se encontra algures nas histórias deste tipo. Deixei correr o vento, algo haveria de vir. Mais não fosse um rasto do perfume de ontem, uma essência do amor provável, um calafrio de ansiedade própria, um golpe do calor humano quando junta dois corpos, um sorriso do alto estrelado, uma estrela que risca o céu, um sinal divino. Enfim, um empurrão de "vai-lá-é-esta". Mas nada veio senão o cheiro da terra firme, da terra que não cede aos sopros da ventania. Estava a rocha ali perante mim, a pedra que me chamou de volta. Parei de sonhar. Acabaram-se os devaneios verdes, as ânsias de amores perdidos. Trouxe me de volta o rochedo. Amparei nele o fatigado crânio. Era rocha fofa. Adormeci nela deitado. Na manhã seguinte, embora envolvido por braços de natureza rochosa, acordei sem mazelas. Fiz da rocha minha cama. Fiz da rocha minha vida. Amparou meus devaneios. Minha rocha querida.

João Luciano

2016


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A banalidade suposta


No dia de amanhã, sem significante diferença dos dias de até hoje, o homem levantar-se-á da cama nas primeiras horas matutinas, colocará no corpo a indumentária adequada á ocasião que o espera, e sairá pela mesma porta que o tem visto passar para lá e para cá durante os já vários rotineiros anos. Se nos for permitida a descabida fantasia de dar ás portas aquilo que a nós nos tem faltado, diriam elas, inteligentemente, as ombreiras da madeira, em tom de impotência, natural das limitações físicas a que estão sujeitas, que se andar pudessem, sob duas pernas humanas, a este homem travariam e impediriam, todo o santo dia que por elas passasse, questionado-o sobre o capital motivo que o estaria fazendo esquecer delas, não lhes notar a presença nem o devido valor.  Como que indignado pela interpelação fantasiastica, o homem não teria outro remédio senão responder perguntando - E porque haveria eu de dar conta de coisa banal, e que interesse nenhum tem? Ao que sabiamente, ato contínuo,  responderia a madeira, para benefício da sua nova habilidade intelectual. Pois se banal somos nós perante ti, e portanto, segundo dizes, desinteressantes, diz-nos de que interesse se veste a tua rotina banal? Os repetidos rituais matinais? as vazias palavras que trocas com os colegas de trabalho? As fragmentadas funções da tua actividade, que essas, se de um todo são parte, basta-se-lhes a sua insignificante pequenez para que se calem? E tudo quanto tens feito até hoje, de que vale mais senão de um caminhar de trilha que de certo só tem o fim? Nada disto te soa banal? Algo disto tem interesse?
A vida tem destas coisas. Portas que se fecham, impeditivas. Outras que se abrem, convidativas. Objetos que parece que falam. Que exprimente qualquer um deitar por mais de um instante a vista ao teto, por exemplo, que logo verá o quão surto de banalidade de lá sairá. Por outro lado, quantas ideias, de lá não sairão também novas, prontas a ser usadas. Já não seria a primeira vez que o teto ou a parede ou a porta nos fariam como que em tom de flash-back de quem tudo vê para trás, ter uma ideia nova para a frente, dessas ideias  que reescrevem os já antes mal previstos futuros.
Portanto que não menospreze o homem o banal, que é lá que muitas vezes está o contraditório. Que o diga o nosso homem que neste dia, de casa não saiu. Paralizaram-no os veios da madeira, a profundidade das gretas das ombreiras. Quem sabe, se dali sairá amanhã a nova sinfonia imortal, a mais recente Mona Lisa ou até mesmo, arrisquemos, a resposta ao porquê de aqui estarmos.


Joao Luciano
2016








quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Essência ou parecer?

Subitamente me veem os caminhos 
ao limiar da conceção humana
Não busco nada, são já vizinhos,
Como antigos azevinhos 
que enfeitam, as paredes de minha religião

Ungidos arvoredos, sagrados de outrora
Renasceram em segredos 
Para iluminar minha hora
Plantas de folhas lustrosas que me vestem 
cintilantes bagas vermelhas suspensas

Tremulante superfície, que nada mais é
Cintilante, a casca de Minh ‘alma
Ó essência de humano ser!
Que fazes tu para te fazeres ver?
Senão vestir-te de um parecer

Se és isto ou aquilo, sê-o então, pois
Não navegues demasiado a barca
Não divagues pelos mares do "ser" ou "estar"
Quem somos nós senão a farsa
Em tentativa de se decifrar?


João Luciano
03-08-2016


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Estória de um abandono

O senhor Fernando não notara que no canto do quarto – talvez por ter sido do lado oposto de onde ficava a cama – já se acumulavam pequenas manchas de umidade. E portanto deitara-se sem preocupações de maior calibre, e dormira uma suave noite de sono. Uma noite calma, como todas as outras o tinham sido antes. O senhor Fernando vivia sozinho, e completara hoje oitenta e sete anos de idade, e catorze de solidão conjugal. Porém, esta absoluta solidão só se havia consumado, nem tinha ainda cumprido uma semana. Tinha ficado neste estado quando, já em alturas de naturais e compreensivas exigências da vida, o recém-adulto seu neto decidira alugar casa fora da aldeia, e dar o nó com a namorada na cidade.

Nas noites primeiras, o sono ainda se escondia por entre os lençóis, e o senhor Fernando, cansado como estava das amarguras da vida, limitava-se a esperar que ele chegasse. Enquanto o fazia – eram sempre longas as esperas – dava voltas e voltas ao cérebro, em tentativas malogradas de compreender os misticismos deste destino, que agora o encurralara entre a espada e a parede. Ou entre a cama e a flanela. Por um lado as saudades apertavam-lhe o coração, e as lembranças dos viveres passados eram – apesar da idade – como memórias vivas, detalhadas de pormenores imensos, que quase o faziam implorar o regresso do neto a casa. Lembrara-se do chá das cinco. Ritual em que o neto tanto fazia questão de estar presente. Passavam-se duas e três horas na conversa um com o outro pela tarde fora, até á hora do sol-posto. Depois jantavam á mesa juntos, onde naturalmente também não faltavam trocas de palavras e novidades diárias – estas últimas, mais do neto. Na maior parte das vezes, o neto apenas ouvia. Os assuntos do avô eram-lhe ainda incompreensíveis para sua idade fresca, mas, e para que não se pense que só de ouvido preenchia suas presenças, saiba-se – e nisto pensava agora o avô – que sempre que a conversa tombava para as lágrimas, em assuntos de maior delicadeza, comovia-se de tal modo o neto a pontos de com a sua mão macia, num gesto de pura ternura e indizível compaixão, limpar do avô as gotas salgadas á medida que lhe iam escorrendo o rosto.
- As lágrimas não podem secar na pele avô. Tenho de as limpar antes que desapareçam nos poros. Cada lágrima que a pele seca é cada tristeza na vida futura – dizia o neto em tons de sabedoria de pouca idade. Só quando se certificasse que já haviam terminado as amarguras, ficava descansado, e podia ir á sua vida.
Se por um lado tudo isto palpitava no pensar do Senhor Fernando, dizíamos, por outro lado, sabia como era a vida, e os seus inescapáveis ciclos. E que de uma certa forma, tudo estava seguindo o rumo normal.
No final do primeiro mês, o sono já era de fácil encontro, e o senhor Fernando já não se embrenhava como antes nos seus debates introspetivos de prós e contras quando se ia deitar. Seu pensamento era outro. As manchas da umidade tinham subido parede acima e já se haviam transformado numa espécie de aquosidade saburrenta que chegava a pingar os azulejos e a tresandar a mofo.

O senhor Fernando pensou em chamar alguém para o ajudar. Mas o neto nunca fora para si uma opção válida para este trabalho. Além disso não sabia trabalhar com o telemóvel que este lhe havia oferecido, nem o queria incomodar, se conseguisse. Portanto decidiu chamar o vizinho da casa ao lado. Um homem robusto e de bons princípios como este era, jamais diria que não a um velhote em fim de vida. Foi portanto assim que fez. Com maior determinação que nunca, o senhor Fernando despiu as vestes caseiras que já cheiravam a mofo, vestiu o que melhor pôde, e pôs os pés a caminho.
Não precisou de andar meio caminho para que logo dali visse – admirado – uma tabuleta na janela do vizinho que dizia “Vende-se”. Não queria acreditar. Indignado com o mundo, o senhor Fernando tornou atrás a trilha, cabisbaixo, e percebera que havia passado já mais de mês e meio desde a última vez que fechara a porta de sua casa. Que se ainda se tinha podido alimentar em todo este tempo, fora só pela bondade do padeiro local, que não tardava na sua hora matutina, a entrega do pão nosso de cada dia.
O senhor Fernando não dormiu nessa noite. Ou então dormiu mal. Um levanta-deita que mais se parecia com um sonâmbulo acordado. As paredes pioravam a cada dia passante. Já o teto era preto, e o corredor que se prevenisse.

Meses mais tarde, o padeiro já não entrava em casa do senhor Fernando. Pendurava na porta os papos-secos ensacados, e seguia seu rumo até ao seguinte domicílio. Eram escassas – para não dizer nenhumas – as pessoas que por ali deambulavam. Era aldeia velha. O neto do senhor Fernando não dava sinais de vida, e no entanto, seu avô já quase sinalizava a morte. Seu quarto já era um negrume sombrio, seu corpo como um palito seco, e suas unhas como garras sujas. Não era o mesmo o homem. Era um pobre homem abandonado pelo seu neto. E pior, pelo mundo. O mundo que brincava na cidade luminosa a quarenta quilómetros daqui. Tão perto, tão longe. “Nada posso fazer, senão esperar”- disse. Como se ainda lhe sobrasse tempo para esperas. E sentou-se no fundo da cama olhando os carregados tons que tocavam o teto. Nesse momento, o senhor Fernando lembrou-se do neto. E perguntou-se o porquê de ainda não ter vindo, porém não encontrou respostas. Este cérebro já não era o mesmo. As ideias morriam embrionárias, como se não corressem tempo suficiente para serem assimiladas. A memória já falhava, e as mãos tremiam sem frio. Deitou-se. E ali ficou aguardando como tinha dito, não se sabe bem pelo quê, nem por quanto tempo esperou ele deitado.

Certa noite, quando o senhor Fernando já havia apagado o candeeiro de cabeceira. A porta da rua bateu. Era o neto. Acendeu a luz do corredor, e foi como se de nada valesse. A casa parecia uma gruta escura. O chão brilhava de água suja que pingava do teto. Sentia-se um pesar de atmosfera, um silêncio de fim do mundo. O neto não sacudiu os pés como sempre tinha aprendido a fazer, antes de avançar. Boquiaberto pelo facto visto, chamou pelo nome de avô, sem se perceber o que sentia quando clamava em alta voz. Do quarto nada veio, a não ser uma leve brisa de uma chama que se apaga com um sopro. Já não foi a tempo de limpar a última lágrima que lhe secou na face.


João Luciano
09-08-2016




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

De cada pedaço teu

São pedaços de um outro eu
deambulando nas avenidas
sopros de tinha desordeira, 
azulões, carregados tons
espalhados pelo meu pincel
pela tela de pano routo
De cada pedaço teu
retirei minha porção
Enlinhado estou, confusamente
nas malhas do presente, sente
sente-se quem é de boa gente
Sente demasiado este eu
e lhe transbordam as sensações
como filhos que nascem constantemente
estima-os ele, estimo-os eu
Cuido de todos os que há em mim

João Luciano
21-06-2016


Realismo

E numa galáxia de palmas abertas, flutuavam planetas como ideias suspensas.
Minha leitura de primário aluno, permitiu-me interpretar o universo de forma própria. E foi isto que disse á minha mãe quando me perguntou o significado dos círculos que ia rabiscando nas folhas brancas – já profetizando meu destino.
Não são bolas mãe, isto são planetas no espaço. Talvez tenham sido estas as palavras escolhidas para explicar meus gatafunhos imensos. Estes que, estando em fase ainda embrionária daquilo que viriam a ser mais tarde, eram portanto inexplicáveis por si mesmos. Necessitavam de uma voz que guiasse a mensagem até á outra margem. Um auxiliar intermediário, um tradutor de devaneios infantis. Mas esse sujeito, era eu mesmo. Assumia o cargo de peito feito, e convictamente respondia sem hesitações.
Quando meu rosto não previa ainda a escassa barba, e meus cabelos brilhavam como ouro derretido. Eu era criança. Quando a ânsia de descobrir se sobrepunha ao medo da queda e do fracasso, me chamavam de criança. E eu o era sem saber. E respondia convicto.

Há nas crianças um certo clarão que emana, uma clarividência que não se deixa pegar, um diamante em bruto que se vai esculpindo com a vida. E que se perde em completude. A busca do adulto, é em parte pela que criança que foi, e que jamais poderá ser. A busca pela poeira do cristal que o tempo lixou.

Hoje não respondo às perguntas da minha mãe. Aliás, sou eu quem a questiono.

Aos quadros dos rostos que vou fazendo, não se lhes sobram espaços para interpretações. São realismos exatos, que objetivam o concreto. Talvez neles se reflita a minha busca pelo certo, a ânsia de respostas que dantes tinha, ou o medo da oscilação das marés, ou dos planetas. O querer um mundo parado. Mais que não fosse, que por um momento se quebrassem os malditos ponteiros.

Portanto, creio que o realismo nada mais é senão um escape da realidade, Uma tentativa malograda e efêmera de desumanização. E contudo, mascarando-se de um traje belo. Uma ilusão de realidade.
Se me chamarem de artista, alegro meu rosto e agradeço. Porém, de que vale a paisagem que banha o rio, se mesmo perto não lhe toca? Assim me escapa o real. Diria melhor, sou eu quem foge dele. E corro que me falta o fôlego.



João Luciano
08-08-2016


domingo, 7 de agosto de 2016

Posse


Soltemos os braços da alma, para que
Límpidos sejam os lírios, de nosso quintal
E se possam eles ver, dando-se a ver
de nudez integral

Do lume que espantou, da fogueira antiga
Que cresceu e se fez o fogo de hoje
Não restou dele intriga, nem malograda vida
A não ser de quem o arroje

Querer ter, é perder
Um domínio que pisa, e faz rebelar a Primavera.


João Luciano
07-08-2016



A minha mão direita (e o meu pensar torto)

Sem notar o que estava a fazer, olhei com distraído parecer a palma de minha mão direita. Não havia nela diferença maior do que no dia anterior, só a firmeza, de que hoje padecia. Ali estava, nua e esbranquiçada. Tremia com a naturalidade conveniente á posição pouco cómoda do cotovelo que assentava no joelho - também este era abatido -. E no entanto, enquanto a olhava, não a conhecia. 

Parecia ter perdido a noção de minha mão. Tinha a ideia de nunca a ter visto assim, e de nunca a ter olhado por tanto tempo seguido. Pareceu-me palma de muitos anos, com dores de vinco vincado, durezas que não podiam ter existido, calos que não eram meus - nem sei de quem eram - verdades escondidas a punho, vontades perdidas como sonhos. O culminar de um sofrimento anónimo. 
Nesse mesmo minuto chorei. Mas foi choro de olhos secos, como se tivessem secado as lágrimas, ou já se tivessem esgotado. Senti-me velho. Senti-me outro. Aquela não era a minha mão, não podia ser. E contudo ali estava. 
Ainda no dia anterior, a esta mesma mão tinha-lhe sido empregado um trabalho de minúcia enorme, e fê-lo com quase perfeição total. Um quadro de tamanho A2, pintado de alto a baixo com peles,  poros e desgovernados cabelos humanos. A poesia de um retrato sob grafite de vários lápis. Um realismo exigente de punhos firmes. Um sonho tornado realidade. Sim, esta mesma mão que aqui se fazia ver velha, já havia realizado sonhos. E dos grandes. 
E agora parecia que o sonho era outro, uma espécie de pesadelo acordado. Uma inútil mão direita que nem no antebraço se aguentava de pé. Que  lhe bastava no dedo médio enfeitar-se de um anel, para que não maior utilidade tivesse. 
Amargurado, fiz descer meus olhos em direcção ao antebraço, comprimi o queixo contra o peito. O movimento fizera meu corpo encolher, as pernas subiram ao banco e os joelhos tocaram-se. Eu era como um feto velho que não sabia se estava para nascer, ou se já se havia esquecido de o ter feito. 
No seguimento do punho, tudo normal. O braço era o de ontem, e também o resto de mim. Só a mão direita tinha sido afectada. 
E de repente, nma breve sensação de inefável desprezo, todo o meu corpo parecia ter-me fugido do controlo. Escaparam-se-me os braços como que fugindo de algum vírus. As pernas voltaram á posicão inicial, os pés tocaram a calçada, e lá ficaram. Tudo o mais longe possível da mão direita, ordenou o cérebro - também ele fora de mim. Eu estava assistindo a tudo. Vi com meus olhos (só eles é que me obedeciam) o meu próprio corpo rejeitando-se a si mesmo, como se não fosse ele apenas um. Um inteiro, um todo. Impossível de se subtrair. 

Chegou uma lágrima tardia. Pingou na palma da mão direita, e alastrou-se, subdividindo-se em mil gotas que chegaram a cobri-la por completo. Atrás dela veio outra, e outra, e uma mais, e mais outras tantas que inundaram meus olhos e os impediram de ver além. A mão direita ficou cheia de água, e depois transformou-se numa mão diferente. Uma mão de criança, que obviamente também não era minha, porém era esta de mais agradável vista. Toquei-lhe com a mão esquerda - que agora não vacilou. Juntei os dez. Cinco da esquerda com cinco da direita, unidos pelas extremidades, como que fazendo um acorde de piano. Uma nota maior. Depois senti-os um por um. Percorri a escala. Era macia a pele, e lenta a melodia. Uma espécie de Chopin, mas com intimidade própria de meu ser. O ar mudou. Mas a mão não era minha. 

Levantei-me e desci a rua com a mala ás costas. Ia com o ânimo renovado, e uma mão de cada tempo.

Se tivesse olhado de novo o banco, teria visto a quantidade de pessoas que lá tinha deixado. 




                                                                                                                                              João Luciano
                                                                                                                                                07-08-2016

sábado, 6 de agosto de 2016

Trouxeram-nos o Outouno

O vento tornou a soprar forte. Leva agora consigo as inúteis tralhas que se lhe vão intrometendo no caminho. Esvoaçam os opacos plásticos das garrafas, já gastas de transparência pela persistência das areias, arrastam-se os bocados de coisas dispensáveis que para o chão foram atiradas, bailam os cartões de caixas e pacotes já vazios de conteúdo, sentem-se cheiros de sobras de comidas já por duas ou três bocas caninas mastigadas, por todo o lado caiem folhas secas, umas ainda verdes outras de castanho cansado. Trouxeram-nos o Outono. Voa o tempo. Pairam no ar pedaços de esquecimento, fragmentos de víveres passados, recordações que vão e voltam. Nem tudo é lixo, mas tudo levou o vento.
Corre agora com mais força, desprendido de exitações, não se lhe adivinham delicadezas nem calmarias, tudo leva consigo. 
Ao fundo avista-se a linha imaginária separadora. De um lado o infinito, doutro tudo quanto tem fim. Atraem-se os opostos. 
Corre o vento pela tarde fora.
João Luciano

"O outro", quem é?

Não sou o que visivelmente
Se parece comigo
Nem o que quando me olhas
Se reflete no espelho de tua vista
Não sou o preto que trajo hoje
Nem o amarelado sorriso esporádico
Nem as barbas semeadas 
Nem os cabelos despenteados
Não sou um poeta que nasce
Tão pouco uma morte de artista
Nem sou o pintor que tudo faz
Nem a obra toda vista

(Sou aquilo que se esconde de mim mesmo)

Sou o mundo do avesso
Que se vestiu ao contrário
O oposto ao progresso
Um irregular calendário
Sou parte da lágrima, que é tua
Pedaço da tua amargura
Sou fracasso de um mero acaso
Sou água outrora pura
Sou bicho de cova funda
Que se mostra de quando em vez
...Ò inútil poesia...
...Ò escritos que nada são...
Sou nada do que digo antes
Sou afinal, contradição


João Luciano
06-08-2016