Não fossem as estantes dos famosos livros
estar por baixo do piso zero, e os misteriosos contos que se continuavam por
gerações, herdados do boca-em-boca e relatados nas altas horas vespertinas
aquando dos jantares e ceias, pelos avós do menino Timóteo, sobre encantos e
monstruosidades escondidos, fadas e duendes entre páginas que se abrem; que ele
não teria decerto esta curiosidade que agora o ocupara, de descer a íngreme
escadaria do lado da despensa, que conduzia á cave.
O acto não fora ainda consumado. Não só
por falta de oportuno momento, pois era casa sempre cheia, e seria portanto,
inevitavelmente apanhado em flagrante se se aventurasse pela escadaria abaixo,
como pela celebração da habitual hesitação em momentos de risco, que travava já
em pés de chumbo o menino Timóteo nas duas malogradas tentativas da semana
anterior. De todo o modo, era menino persistente. Talvez os dias vindouros
trouxessem novidades mais favoráveis – pensou otimista – e para mais ainda, operações
deste calibre, cujos fins sempre são ocultos e muitas vezes de difícil acesso,
duros de roer, exigem desde já uma mentalidade disposta ao erro, á
tentativa-erro. E bem vistas as coisas, um par de investidas fracassadas não
poderiam jamais justificar um baixar de braços definitivo, uma desistência desanimada
Mas desengane-se quem pensar que o menino Timóteo era desses que se deixam
tombar ao primeiro sopro da ventania, pelo contrário, era antes criança
curiosa, em idade de pura novidade e anseio de medos. Não tarda que por aí
esteja já a empregar planos táticos de intervenção às secretas, numa dessas
noites em que tudo se cala dormindo.
Timóteo comia agora á mesa, rodeado do pai
e mãe, avó e avô e dois irmãos mais novos, que enquanto às ordens da mãe,
fingiam ir comendo de bom-grado, despejavam sorrateiramente, bocado a bocado,
naco a naco, o frango com caril pelo um saco abaixo, que escondiam pendurado
numa das gavetas contidas no tampo. Por norma, o irmão mais velho nada dizia que
os denunciasse, ia rindo como cúmplice da traquinice, mas hoje por excepção, e
numa palavra de ordem, repreendeu firmemente os mais novos que parassem com o
desperdício. Assim o fizeram os pequenitos, bem-mandados, como nunca antes
visto.
O jantar terminara em silêncio, após gritarias
sobrepostas, correções e chamadas de atenção de lá para cá, resultantes da
intervenção quase paternal do irmão mais velho. E ato contínuo, um por um, tudo
fora dormitar para os quartos, como que em refúgio da barulheira, enquanto
sozinho, o menino Timóteo, ainda na sala, sofria o sermão do pai, que lhe dizia
não ter agido da forma correta com a miudeza maior. Timóteo sentira-se alvo de
injusta repreensão, mas calou. Sua vingança estava para breve.
Nessa mesma noite, horas mais tarde,
Timóteo levantou-se do sofá – onde tinha ficado intencionalmente a fingir o
sono – e num golpe de coragem sem berço, pé ante pé foi-se aproximando da
despensa. Seu pensamento fora atormentado milhentas vezes durante o percurso sob
a possibilidade do fracasso, seu corpo tremendo em anseios já conhecidos, suas
pernas cedendo ao frio do inverno que se fazia sentir agora mais, enquanto lhe
brilhavam na testa gotas de suores frios. Porém hoje era noite de bravura, e
esta tomou-o então por completo, a pontos dos pés, outrora convertidos em
chumbo, terem agora ganho asas, e em salto subtil o terem levado até ao destino
tão desejado. Timóteo tinha o mundo a seus pés, ou pelo menos, uns metros
abaixo. Talvez fossem dez os degraus a descer, talvez vinte, ou trinta, ou
sabe-se lá cem ou duzentos. No entanto estava decidido a não vacilar desta vez,
por maior que fosse o negrume para lá da porta aberta, havia de o descer até ao
fim, para depois alcançar em satisfação todas aquelas páginas que se fechavam
por anos, e abrindo-as uma por uma, lê-las, como se estivesse descobrindo as
origens do mundo.
Descidos os três primeiros degraus, já se
via o fim á escada. Era curta e encaracolada, sem corrimão. E como que em tons
de amarelo fogo, no fundo, via-se uma claridade pequena sobre a parede oposta á
qual estava vindo a descer, e donde saia embutida, a escada. Já de pés assentes no piso inferior, Timóteo
dobrou a esquina que vinha no seguimento da descida, e olhando em espanto de
criança para seu lado direito, avistou espalhadas pela cave, quatro enormes
estantes de madeira velha, atoladas de alto a baixo com livros que se pareciam
iguais entre si. O adjetivo, atribuiu-o á coloração das capas, que por sua vez se
apresentavam cobertas de pó castanho carregado, confundindo mesmo os livros com
as inúmeras prateleiras de madeira. De resto, em tamanho, eram diversificados.
Uns grandes e largos, outros finos e de tamanho médio, mas quase todos
amarrotados algures, ou na ponta das páginas, ou mesmo, e em muitos casos, em
todo o seu volume. Fazendo lembrar por vezes, panfletos velhos de importância
nenhuma. Timóteo transbordou alegria, estava extasiado em silêncio, como uma
criança que tenta não rir perante a mais cómica das piadas.
A avaliar pela primeira impressão, era
espaço abandonado, caído em esquecimento por longos anos. A luz era fraca. No
teto sujo, pendia uma lâmpada num fio descarnado, e era só. A atmosfera era
pesada e o ar denso, impessoal, impróprio a crianças. Havia também uma espécie
de fumaça que não o era, um antes nevoeiro sublime que entontava sensações.
Talvez outrora a sala fosse usada por velhos homens fumadores, que bafejando constantemente
charutos ou cigarrilhas, fossem clamando poesias e dizendo histórias de voz
alta e timbre grosso. Timóteo já imaginava um, sentado no cadeirão do canto da
cave. Barbudo, e de cabelos desgrenhados lhe construiu a imagem, quanto ás
vestes, teriam de ser antigas, claro, e de preferência velhos farrapos rotos
que concordassem com o parecer velho da sala actual. Tudo isto não levou minuto
a passar-se na cabeça de Timóteo, foi mais um de seus devaneios passantes que vão
e vêm; este foi e não veio. Não precisou de muito tempo para que a hipnose
contemplativa lhe tomasse o corpo em completude. Não andava como gente normal, Timóteo
deambulava em puro encanto pelos pequenos corredores da cave, e fitava os
livros sem atenção consciente, como se todos fossem um só, unidos, e o olhassem
a ele dizendo-lhe “olha-nos” numa
espécie de feitiço anónimo. Após os instantes do bruxedo (salvo seja o termo),
Timóteo decidiu escolher ao acaso, um dos livros que estivessem á sua altura de
menino, não no sentido figurado, mas no propriamente dito, visto que eram altas
as estantes, o que o impossibilitava de alcançar as prateleiras superiores. Ficou
–se nas que lhe davam pelo joelho. Era categoria filosófica, mas Timóteo não
leu o título, não só pelo pó que dificultava a tarefa, mas também pela ânsia de
lhe ver o interior das páginas. Leu sem grandes assimilações, um ou dois capítulos
introdutórios, era denso de conteúdo, e pesado na volumetria. Uma compilação de
pequenos pensamentos da filosofia antiga. Depois passou sem demoras á secção
das fábulas – que lera com maior proveito – e seguidamente ao corredor da ficção
científica, onde não demorou muito, até chegar, em última leitura da noite – estipulou-se
a si mesmo – á divisão da poesia. Aqui mesmo, deparou-se com um capa que lhe
captou a atenção. Era de tons de vermelho-tinto, com pequenos e delicados
traços de floreado na lombada. O facto de Timóteo se encontrar agora
particularmente desperto, deveu-se também á limpeza de que este livro se fazia
ver, ao contrário de toda a sala, o pó parecia aqui não ter caído abundante. Havia-o
sim, mas apenas em redor do livro, como se este beneficiasse de virtudes
humanas, e tivesse sido limpo em datas de passado próximo. Timóteo estava
decidido em alcançá-lo, não fosse ele estar a dois metros de altura, que já
decerto neste momento lhe comia as palavras. Não havia tempo a ser perdido, por
entre a porta que deixou aberta, já se iam vendo noções de dia nascente.
Timóteo pensou em escalar as prateleiras, pegar o dito-cujo, e á falta de
melhor ideia, correr em silêncio para seu quarto com o livro debaixo do braço.
Mais tarde teria tempo de o ler, embrulhado nos lençóis de seu aposento. Assim
fez. Numa acção de pura loucura, subiu torto a estante acima, e facilmente
tocou o objeto num gesto que o fez tombar, e consequentemente cair-lhe com peso
em cima do olho esquerdo. Afinal havia pó, sim. As mil páginas abriram-se em
obrigação, como que acordadas á força, e de lá saíram mil grãos de areia
autêntica, que, em conformidade com o choque, danificaram generosamente a vista
esquerda do menino Timóteo. Como o sangue era ainda quente, a dor só se fez
sentir minutos depois, quando já se embrulhava no edredão da cama de seu
quarto, simulando um sono quieto.
O que iria dizer agora Timóteo, com um
olho negro? Esconder-se não podia. A manhã aproximava-se em pressa, e a luz que
perfurava as precianas fez roxear ainda mais o inchaço. Não tarda muito teria
sua mãe á porta dizendo-lhe que se despachasse. O autocarro do colégio não
atrasava um minuto. E o pior é que Timóteo por norma também não.
Poupem-se os meios ao leitor, que agora
são dispensáveis. Atalhe-se o caminho, deixando em suficiência os termos do que
aqui veio depois a acontecer. Timóteo, para além de sermões valentes, levou
acoitadas de força, e sem alternativa, fora obrigado a confessar o crime
perante o agregado inteiro. Foi manhã de mau começo, e o dia que se prevenisse.
No colégio, a rebelião da miudagem encheu
de insultos e troças a nova mancha de Timóteo. E se ele não verteu lágrimas,
foi só porque o abcesso assim o impedia. Foi tortura desmedida, tanto em casa
como fora. Timóteo já ao tempo que se havia arrependido do ato que tivera, e
perguntava-se a si mesmo se já não lhe havia servido de castigo, a cegueira
temporária.
Durante as noites seguintes, sua cama foi
sua companheira mor, a par do livro que havia furtado da cave misteriosa. Lia
lentamente cada palavra como se delas viesse um mundo novo, uma flor que
desabrocha no cimento de um muro, e na quebra dos versos sentia a quebra da
alma, a melodia da poesia que acorda suavemente do sono o músico, e que o faz
dormir em seguida, o sono do sensível. O mais sublime de todos os sonos. Via
como se tornava agora um deles, sensível, de dia para dia, cada vez mais. Timóteo
dormia enquanto acordado, jamais havia saído da cave, tudo eram estantes de
livros. Sentia cada toque de alma, cada nota do vento, cada choro alheio era
lágrima também sua. Via o mundo em profundidade. Porém o mundo era cinza,
impenetrável. A lidação social uma tortura. A escola, um período longo e
doloroso. Timóteo via-se procurando cascata em muralha de castelo. Um esforço
inglório. A troça havia piorado. Timóteo era cego do olho esquerdo.
Numa manhã igual ás outras, na sala de
aula, a professora pediu a Timóteo que lesse um texto que ela havia escrito no
quadro, mas ele não conseguira ver bem, sua vista defeituosa o impedira de
assimilar coisa longe. Então num calafrio de vergonha íntima, Timóteo leu
conforme pôde. Era poesia bonita e leve. Aqui e ali, ia trocando palavras por outras
que pensava ter visto. A ordem do poema ficou completamente alterada, e a
essência, desvanecendo, foi perdendo sua magia. No final da leitura, a classe
soltou uma gargalhada diabólica que havia suspendido até então, em troça já
familiar e de má memória. A professora calou, e todos disseram quase em coro “ Cegou-te o olho esquerdo, mas não vês
direito, com o direito!”.
Timóteo chorou e calou por completo, mas no
fundo de seu íntimo, sabia que via muito mais para além dos olhos.
João Luciano
20-08-2016