terça-feira, 5 de junho de 2018
Adeus, Pomar
esse grande júlio pomar que parte para o latíbulo e deixa a beleza toda na terra; estais entregue aos anjos, querido pomar, mas o teu lugar é aqui; haveremos de saber-lhes finalmente o género porque vais pôr em telas celestes seus rostos que nem conhecem. obrigado
Eutanásia: que fim?
a seara do latíbulo é desprovida de maquinetas; estende-se única, prazerosa, por mel leitoso.
e o profundo dos infernos, vasto por tudo quanto vastos são os homens, não aglomera gente às cavalitas, espaço há de sobejo, e calor humano.
não se compreende portanto o porquê de nos não lançarem brandos às eternidades, mesmo querendo nós.
afinal a dignidade é um souvenir de vender às pressas, é um adorno para as portinhas da geleira com que, mais tarde ou mais cedo, haveremos de prendar o alto ou o quarto do diabo: aqui tens, senhor meu, em memória de minha terra.
e o profundo dos infernos, vasto por tudo quanto vastos são os homens, não aglomera gente às cavalitas, espaço há de sobejo, e calor humano.
não se compreende portanto o porquê de nos não lançarem brandos às eternidades, mesmo querendo nós.
afinal a dignidade é um souvenir de vender às pressas, é um adorno para as portinhas da geleira com que, mais tarde ou mais cedo, haveremos de prendar o alto ou o quarto do diabo: aqui tens, senhor meu, em memória de minha terra.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Sangue
Assim como qualquer português que se preze por sê-lo, bem sei sobre qual o mal do mundo.
Ter concedido Portugal maior espaço ao mar de sangue na bandeira é talvez a única esperança. Não. Sentido.
Quando Jesus morre, a Terra é um mar perfeitamente decifrável. De dentro dos peitos a promessa se ausenta e a dor propaga largo como o sangue da bandeira. O mundo está por conhecido.
Nenhum prelúdio bestial ou tão pouco qualquer sonata duradoura perdurou no tempo por ter nascido sob um raio de sol bonito.
Como muitos, sei bem sobre o mal do mundo.
As linhas de um texto, para Nietzsche, mais valem pelo sangue. De outra forma escrever é pouco. Pintar é nada. Comer é menos por não se ter fome. Viver, é uma estadia mal escolhida. Morrer é uma impossibilidade. É, no limite, e para o mal do mundo, uma coisa que só nos acontece uma vez, insólita. Por isso o mundo vai para mal, por isso a gente perdura na eternidade que demora a esperança. As pessoas se gastam na esperança. As pessoas se gastam.
Sujei a folha de sal. Foi um princípio para a vida.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
A genuinidade da não oferenda em dia de S.Valentim
Facilitismos. Não passam de meras ocasiões que alguém proporcionou para o sentimento. Está tudo para o amor porque o disseram. Apontaram por dedos para o redor de uma data qualquer. Facilitaram.
Também há quem diga que o bebé mor não veio ao mundo em finais de ano, ou que não foi depois que partiu sangrando numa tarde em que a bátega diluiu na areia.
Sobre amêndoas nem se falará. No fundo, são tudo resumo duma ânsia monstruosa, de uma ânsia. Quer-se mais é engavetar. Dizer-se por alta boca que aqui se chora, ali se ri. E nem me apelidem já de coisas nenhuma. Pensem bem primeiro.
Não amar nem ser amado, hoje, mais que nos outros dias, muito destoa. Não há ninguém que em plena consoada menos valorize quem o rodeia que nos dias anteriores. Depois da data de uma morte, reconsideram-se as achegas, pondera-se a conduta empregada, oferece-se muitas vezes ao arrependimento.
No dia dos meus anos sempre choro. Se soubesse de antemão a data de meu último dia, todos seriam dias mal aproveitados, desperdiçados, não-dias, porque a noção de efemeridade mais se divisava clara sobre as outras.
Melhor se está vivendo a cair, sem previsão de chão ou anúncio da própria queda. A cair, tudo está por natural. Ninguém encena quando cai. Durante uma queda o ator mais virtuoso muito se confunde com a originalidade de um qualquer boneco de palhas.
Prefiro mais que me não digam as datas. Que todos os dias sejam pertinentes para a multiplicidade. Igual à grande hipótese de todas as coisas.
Por precária ser a minha capacidade para a representação, quero ser natural e cair. Só os atores podem bem iludir no dia de S.Valentim quando se zangaram com o par na véspera. Quem só é uma pessoa sabe pouco é jogar ao fingimento. Finge só quando quer, não quando é para fingir.
O catorze de Fevereiro só resulta bem se for confundido com a normalidade do treze de Setembro, por exemplo.
Hoje questionaram-me: que vais oferecer? E eu disse: nada, porque não me esqueci que dia era hoje.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Hired: Six months undercover in low wage Britain”
Cornadas e derrames. Manda a moderada agressividade que tenho que vos deixe a nota de rodapé: lembremos o sentido figurado. Só desta forma talvez os chifres dos abastados possam, abstratamente, espetar-se contra o muro rigíssimo, e seu líquido escarlate ouse a humanidade de se estender natural sobre as pedras.
James Bloodworth veio a escrever sobre as portentosas mãos de um grande bicho. Barafustou quanto pôde sobre suas palmas mas, só passado um mês da humilde escravatura decidiu apartar-de dos chicotes e cometer a ousadia de falar.
Não é de admirar que os grandiosos lucros de uma grande besta, aqui e acolá, escondam nas mucosas as maiores atrocidades às suas presas: ordenados baixíssimos, condições vergonhosas, almoços para lá das seis da tarde e revistas de largos minutos a título não pago.
A amazon é só um exemplo. Aquele que James nos mostra em “Hired: Six months undercover in low wage Britain”. Está por aí.
Continuemos com este modo de serventia. Ocultando as temerárias profundezas do rio pelo brilhantismo da superfície. Afinal, mergulhar é de perigo, e sempre se soube que é na mais longínqua fundura do ser que constam os traços capitais dos escrúpulos. Lá onde ninguém vê, quando ninguém vê, porque ninguém vê. James viu, falou. E nós?
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
“Hylas and the Nymphs”
Acabarão com tudo. Por este andar, acabarão com tudo. “Hylas and the Nymphs” foi retirado da Manchester Art Gallery por ser considerado como ofensivo. Está no cerne da ofensa a dita forma pubescente em que se encontram os corpos das mulheres, aquelas tanto pálidas figuras a que pouco ou nada ficou devendo a beleza. Eva teria julgado como normal. Por muito puritana que fosse a primeira dama, nem por isso pertencia àquela casta de horrorizados a quem sufoca o simples vulto de uma desnudada coxa branca.
Como sabemos, uma rápida e pertinente pesquisa naquele vasto poço do conhecimento assim o diz, John W. Whaterhouse faleceu fez agora cem anos. Ora presume-se, e talvez nesta imprudente dedução se cometa o erro capital, que passado cada ano, diga-se, à medida que se avança no tempo, a tendência é que se torne o homem mais nutrido de conhecimento. O sustento desta afirmação está noutra lógica presunção, não menos apropriada, que é a de verificar que nas costas de outros havemos de ver as nossas (por alguma razão se o terá escrito assim). Mas os sucedentes acontecimentos dos quais vamos tomando conhecimento levam-nos a refutar impiedosamente a mais convicta e outrora deduzível conclusão. Pelos vistos, passados cem anos, a humanidade parece ter aprendido nada. Sabe pouco. Recordemos aquele triste acontecimento que tomou lugar nas nossas lusitanas terras, nesta sobre todos pátria, recordemos, de má memória, o nome do senhor Sousa Lara, a quem muito incomodou a obra daquele que viria anos mais tarde a sagrar-se Nobel de Literatura em Português. Não se aprofundará. Nem este nem outros tantos milhentos casos que, eclodindo da penumbra, se estenderam à luminosa luz do dia.
O que se tem é o direito a sentir-se ofendido; não o de proibir uma ofensa.
Talvez tenha sido a boca larga através da qual falou o povo, há que pôr a hipótese, pelo menos parte dele, mas convenhamos, se assim fosse, que haveríamos de fazer com os restantes menos puritanos, com todos os outros a quem apraz o distinto ponto de vista, a opinião divergente, o vislumbre de uma tela a meio traçada por um rasto de sangue, aqueles que não desatam a rugir em clangores sincopados ou coro de banda uniforme perante a expressão artística onde se distingue um corpo nu?
Se as fotografias do Chico Buarque às crianças esfomeadas tivesse despontado a mesma reação noutra gente, eu poderia afirmar mais contente: não é que seja ofensivo, só faz é pesar a consciência. Menos mal. Era ao menos uma esperança.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Eurovisão 2018
Não creio que haja registo na história da eurovisão de um só e solitário país bicampeão. Seja como for, vista que está a lista dos declarados candidatos ao assalto, creio que a defesa se fará de uma forma bastante sólida. Tirante o sunset do Peter Serrado, que me faz pressentir receosamente o retorno aos denunciados fireworks do Salvador, antevisão cuja responsabilidade, certeiro tenha sido o tiro ou fracassado prognóstico, desde já a toma quem escreve, quero crer que nomes como Fernando Tordo com Para te dar abrigo, Jorge Palma com ou Sem medo, ou até mesmo aquela sempre doce voz de quem os textos são nunca recurso aos estrangeiros dicionários, falamos de Capicua e Sobre nós, e sobre nós, estamos bem entregues. Diga-se, como já terá ficado provado em vários tempos, que pela capa não se julga o livro, mas confessemos, não seria agora eu o desavergonhado pioneiro nestas artes de adivinhação. Por alguma razão se põem os títulos na capa. A ver vamos.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
O “Mata-chineses”
Não sei para onde vamos. Não posso saber para onde vamos. À parte disso, tenho em mim todas as certezas do mundo. Dize-mo-lo assim, depois de que Pessoa o tivesse dito, com ligeiras alterações de palavras que por si só já aprazem como delícias suculentas na boca dos curiosos. É para o abismo.
A Índia testou com sucesso o míssil conhecido como o “mata-chineses”. Bonito apelido este. As inúmeras bestas que países como Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e França dispõem, fazem crer que também Portugal se deverá colocar em preparos de guerra, sob pena de se descobrir impotente perante a vasta gama de blindados territórios.
Com o passar do tempo, aquelas que eu julgara serem pessimistas frases construídas pelas mentes mais brilhantes têm tomado de rompante os lugares cativos das mais realistas profecias. Recordemos por exemplo a que atribui virtudes de infinidade ao defeito da humana estupidez. Também Albert era humano, mas duvida-se, mais agora ainda, que naquela cabeça perdurasse sequer por escasso tempo o menor resquício de estupidez.
Com um alcance superior a 5.500 quilómetros, o “mata-chineses” têm capacidade para dizimar depressa o mais atento dos pele-amarela, proezas não subestimáveis, fazem jus à ideia que diz que tão grande é a evolução do homem quanto a distância que separa o alvo do canhão, a presa do predador, o gato do rato. Com tudo isto, por daqui a duzentos anos, oxalá se deixe de espetar à queima-roupa a lâmina afiada, caso que claramente provaria que num mundo tão evoluído ainda pisava gente do mais retrógrado passado. Fosse hoje concretamente dita a frase e creio que Einstein teria completado a fórmula matemática com a seguinte terminação: a estupidez humana mede exatamente, 5.500 quilómetros. Não tem de quê.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Vender a alma ao diabo - M.Ferreira Leite
Recorre m.f. leite à expressão que diz mercar ao cornudo o tão afamado lençol que não é osso rijo nem carne mole, aquele vulto a que, não se sabendo se existe realmente, se atribui adjetivações de penadas. Esqueceu-se a senhora que nos registos apócrifos das negociações infernais não consta caso algum em que o diabo vantagem tenha perdido, resta saber se algures na mancha escarlate do rabo do príncipe das trevas se esconde toldada a laranja nuance. Foi enfim o caso por querer limpar do campo de visão a tão impertinente esquerda, como dela dizem. Afinal com facilidade se invade a assembleia pelos nomes mais fundos dos infernos, oxalá não lhe venha a resposta sob a forma de um quadrado de incenso ou parcela de mirra, caso que seriamente se duvida que percebesse.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Ferreira Gullar
De mal, a pior vai o mundo. Recordar-se-á até o mais desfalcado da virtude elefantina daquele comboio de almas que foi o ano de 2017. Ferreira Gullar disse algo que em tempos concordei, a arte existe porque a vida não basta. Não sei se o terá dito por estas palavras, mas a ideia era esta. Ora passados dois anos desde esse fastidioso período, não está mal que, em jeito a que não chamarei de provatório mas da mais inocente curiosidade, que se pergunte se não será antes a vida que existe porque a arte não basta. Que o diga o criador, com as suas duas mãos portentosas, já que após ter soltado sobre a tela mais negra as vastas gotas espaçadas dos planetas, não se contentou enquanto no meio delas não pulsasse o sangue da primeira humana artéria. Daí veio o resto.
Principiou-se por falar sobre artistas. Mas lembremos aqueles não poucos desgraçados a quem a vida é mais do que um indispensável acessório, a única e primária necessidade.
Ainda ontem li o poema sujo, ouvir falar Gullar apraz de verdade até o mais empedernido dos cérebros, mas reconheçamos nós que se tivesse proferido o poeta frases como esta perante a magríssima figura de um esfomeado, talvez lhe tivesse faltado a voz antes de dizer a palavra última. Teríamos então hoje conhecimento de um diferente verso, inefável e silencioso, porém portador de todas as palavras do mundo.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Imaginemos
Já todos
havemos de ter por certo, mais uns menos outros, que de determinados assuntos
não deve haver mistura. Por isso se costuma pendurar na porta o afamado
papelete das reservas, abstratamente falando, claro está, que diz, cá dentro,
por ser local de trabalho, não se discutem questões religiosas nem políticas, é
permitido que, pessoalmente, cada um as tenha, mas que as guarde para si no
momento preciso em que pisar os barbantes felpudos deste tapete. A nós parecer-nos-á,
creio que a todos, uma prudente ideia. Queixe-se quem quiser, que estes são
preceitos centenários, para não dizer várias vezes centenários, milenários quem
sabe, de que até então não resultou problema de maior. Países há em que as
coisas são bem piores. Imaginemos se continuasse a fundo o papelete.
(…) Parecendo-nos,
desta forma, uns aos outros, iguais e semelhantes, para que de nós não seja
feita maior distinção senão aquela que à entrada nos estamparam na lapela, concreta
e objetiva, e de que, pelas nela implícitas capacidades, deverá ser retirado o
máximo partido para o chefe, sem desvantagem de maior para quem a leva,
porquanto lhe será paga, em justa quantidade, a quantia merecedora de
dinheiros, podendo o mesmo, de forma educada, objetar, caso este que não se
aconselha muito, ou mesmo nada, sabidas que são as dificuldades fiscais de quem
emprega. Tirante o referido, o chefe não admitirá discussões. Permitiremos que
falem, que gesticulem, que berrem até, desde que a ocasião o justifique, mas
nunca, por exemplo, que nos venham falar de Guevara ou Mandela, de Maria ou
Josafá. Não consentiremos que se fale tão pouco em família, para isso vos será
posto à disposição um anexo por detrás daquela porta ao qual terão acesso e do
qual deverão usufruir pelo tempo em que a pausa vos durar. Lá poremos,
brevemente, uma janela, para que através dela possam ver a luz do dia. Por
agora acendam a luz. Há fardas para todos no armário, mas os tamanhos são
medianos, pelo que se pede e espera que por bondade se façam caber dentro. Ser-vos-á
dada a quantia suficiente para puderem comer dignamente, mas há ali um micro-ondas
para aquecerem o que trazem de casa. E se o caso for de filhos, se a ideia for
de vir a tê-los, aconselhemos que ponderem em esperar, o chefe manda dizer que
agora o mais importante é o trabalho, o empenho, o abraço ao projeto, pois que dele
virá a vossa estabilidade, maneira esta, única, de proporcionar à espécie a
digna continuidade. (…)
Já viram se
fosse assim? Mais vale estarmos calados e aproveitarmos o que temos.
sábado, 13 de janeiro de 2018
Qualquer coisa reino de deus
Se de paz é
apropriado falar (o autor acha que não), oxalá seja desta vez que, e após
denunciados os escandalosos acontecimentos, para que pior não seja dito do auto
proclamado qualquer coisa reino de deus, encabeçado pela sua rara avis de quem
as doiradas penas já se vão soltando,
esperemos que seja desta vez, dizíamos, que ao sono profundo se abandone de uma
vez o portentoso reino dos céus. Pode dizer-se, o problema é dos homens, não
dos céus, notação pertinente à qual com não menor grau de adequação se responderá,
ora também de homem eram os caminhos de josafá, quarto rei de judá, de quem o
reinado perdurou por vinte e cinco anos, com grande combate à idolatria por ter
quebrado ao firme golpe as mais rígidas estatuetas, conquistando depois edom e
executando reformas militares, políticas e religiosas, quando mais tarde,
repreendido pelo profeta jéu, por acreditar este serem os caminhos daquele de
aborrecimento ao Senhor, viu destruídos os navios que pelo ouro navegavam para
Társis, despedaçando-se assim ao meio caminho, não logrando proezas de maior,
faltará pois saber quem foi que os destruiu, se não está já mais do que evidente.
Sabe-se muito
de Deus, provavelmente mais do que ele sabe de nós, talvez isso explique o
porquê de na vida Dele nos metermos tanto e Ele nada na nossa.
Enfim, falemos do homem. Do Macedo. Ouvi
dizer que o mínimo que se pode exigir é um pedido de desculpas. Bem sei que às
palavras leva-as o vento, resta saber para onde este está soprando, se não é
por exemplo para a vastidão de uma eira despovoada ou para o manto infindável das
águas do atlântico, casos estes em que de nada serviriam as proferidas
justificações, falsas fossem ou verdadeiras, mais destino teriam as súplicas
iludidas ao Deus perene, que ao menos essas são sinceras e de coração aberto.
Tanta gente por
aí se vai ocupando do caso, até agora com os sucessos conhecidos, depois, mais tarde, com os meritórios
reconhecimentos. A mim, permita-se-me acrescentar, porquanto se o não fizer
desta forma creio que rebento. Com a quantidade de coisas que se têm feito em
nome do altíssimo senhor, temo que no final de contas, no fim dos dias,
consumado o derradeiro somatório, mais culpas no cartório tenha deus que o
diabo, esse realmente eterno perdedor, em nome de quem, que eu me lembre, não se
fez sangrar nem a mais microscópica centopeia.
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Santana Lopes e os violinos de Chopin
De entre a
infinda lista de afazeres de que se ocupa um presidente, qualquer ministro que
seja, não se supõe que tenha de constar a prova oral sobre o musical
repertório. Tanto mais se o não for da cultura, ou comparável delegação, caso
que rapidamente se apelidaria de desapropriado ou descabido, ainda que ao certo
não se saiba bem porquê. Talvez pela suposta pretensão mais ou menos vaidosa de
que gozaria o ousado perguntador ao querer saber por testes caprichosos os
saberes mais supérfluos do superior hierárquico, ou, mais provável ainda, por
posta a questão, assim ao ar largada como um pombo a quem alguém quisesse
apanhar, tardasse no regresso a infeliz criatura sem o conhecido papelinho na
pata, enfim, sem a desejada resposta.
No caso de
Santana Lopes a coisa foi diferente. Não é tanto pelo costume que um acto é mais
ou menos certo, mas, verificada uma simples concordância entre quem escreve e
quem lê, estamos em condições de afirmar que, com se diz, e explicando depois a
referência, aos mortos falta-se mal ao respeito, (esqueceram-se dos vivos). A
eternidade de que goza F. Chopin, não lhe permite, contudo, continuar vestido
por estas carnes e mucosas que a nós nos vão levando, queiramos nós acreditar
que um espírito, se os há neste mundo, e por não estar sujeito às máculas do
corpo e aos seus escrupulosos preceitos, perdurando vai sem desgaste mais
profundo, sem quezílias com semelhantes, que para isso teve a vida, enfim sem
veleidades. Acredita-se portanto que, a um morto, tanto se lhe dá se dele mal
dizem ou proferem mortais virtudes. É-lhe indiferente, porque entre o vulto e a
carne distam mais metros do que aqueles que separam um polo de outro. Quando
morto, a vida é diferente.
É com este elegante
raciocínio sobre foices e gadanhas que se tenta principiar uma defesa. Ora
note-se que quando o ex-primeiro ministro, Pedro Santana Lopes, num rasgo digno
de um falso erudito, soltou a pérola sobre os violinos de Chopin, talvez a sua
intenção fosse só demonstrar aos mais desatentos ouvintes que para além da arte
musical, também a ele lhe apraz a construção poética. Repare-se que no lugar de
pianos, e precedendo a palavra Chopin, com aquela preposição pelo meio, a
palavra violinos toma uma posição bem mais melódica e poética, com aquele l maravilha
que tudo faz funcionar, por exemplo, sob a rúbida chama, crescem arcos, e os
violinos de Chopin são brisas, continue quem quiser. Salva-se portanto a ética
pela estética, e assim se perdoa alguém. É só querer-se.
“ Sei falar e
já falei, no tempo anterior de governo, com Gerhard Schroeder, na sua língua
natal ou com Vladimir Putin na mesma língua, porque viveu em Dresden muitos
anos”.
E exemplificou os seus dotes atuais,
com uma nova gaffe musical. “Talvez o Wohltemperierte Preludium, de Bach”
Novo
caso. Quanto a este não se fará mais do que engolir em seco. As explicações
encontrará quem as procurar. Até lá algum defensor de Santana Lopes se há de chegar
à frente a fazer a defesa, porquanto o fundamento poético não justifica já esta
intempérie, se tamanho conceito pode ser aqui utilizado. E como a sabedoria
popular, essa que como temos vindo a observar, poucas vezes falha, descabido
não será dizer que sem três não há duas. Esperemos então, sentados de poltrona,
preferencialmente em primeira fila, pela próxima demonstração da criatividade institucional,
liberdade expressiva ou capacidade poética, do nomeado secretário de Estado da
Cultura. E para que não se diga que não terá ajudas, deixo já aqui umas quantas
sugestões. Lembro-me de uma que li algures, ficará esta, muito boa por sinal,
mas que não logrou propagação de maior calibre, talvez pela desdentada boca que
a proferiu, de quem não se exige mais que uma cruz esporádica ou rabisco em
cartão na Praça, a quem no lugar de Chopin se ousou prendar com estalidos e
batuques, estridentes sons que batem e fogem, não se pode realmente exigir
muito mais desta gente. Mas o seu caso é pior senhor ex-primeiro ministro. Veja
lá o que acha: Midnight Sonata, acho
que é do Bethoven.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Analogia pertinente
Obra tão pia que é o homem. Algum deslize terá tido o aprumado pulso do escultor mor, quando, amputadas cerce, nos privou das asas mais penadas. Mofina sorte a nossa, que só por esvoaçar querermos nos é deitada logo a mão mais densa que conserva o chão. Vai-se a pontos de se escarrapachar na testa de quem sonha a desprezível nota de bolso, em nada proveitosa: artista. Do mesmo modo se estampou no pau da cruz determinada tabuleta, sabendo de antemão que nem um vasto reino com o mais prendado e educado dos povos serviria de nada a quem, por momentos antecessores ou seguintes, se haveria de pregar as mãos.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Luis Preto
Uma desprezível tendência que tenho, que por várias vezes já se me traduziu em sérios problemas e trabalhos apertados, acontecimentos estes não agora trazidos ao relato, levaram-me a identificar relações entre o Preto do Luís e o preto que é o negro que se lhe mostra na fotografia. Foi instantâneo.
De todo o modo, é para felicita-lo que escrevo e não para dizer-me um pouco. Maciço Antigo venceu o prémio novo talento fnac 2017. Não sei quem eram os sobejantes interessados, mas estou certo que as boas mãos do Luís farão jus a maciez de uma eventual estatueta.
Oprah Winfrey nos globos de ouro
disse-o o valter h.mãe, inteligentemente, em mais do que uma entrevista que tem dado, que o mais aproximado fenómeno do milagre que a figura humana experimenta é aquele que traz à luz o rebento que germina. protesta veemente a ideia primária, que por esta adjetivação já denúncia também a opinião de quem o cita, sobre ser o homem o sexo forte.
quero crer que há um problema a resolver entre os homens, entre homens, repito, que as mulheres já o sabem faz tempo e antecipam-nos as reações; enquanto que para o primata mais desprovido, e isto não é dizer poucos, é esta um ainda perigoso enigma que se desvenda por debaixo de uma saia.
a oprah w. achou por bem empregar a palavra horizonte, pertinente solução muito mais palpável e real do que aquela que tudo põe além e que nada traz de produtivo, mais uma notável revolução do dito sexo fraco. Ora proponha que eu assino, sra. oprah, desde já, a remoção da palavra oca, utopia, daquelas páginas mais velhas do livro das definições.
domingo, 7 de janeiro de 2018
7 de Janeiro
pasmei por ver incrédulos os três comandantes das barcas cujas cores são dos semáforos sem abrandamento. foi como se lhes não tivesse ainda aparecido pelas ventas ou saído pela boca um desprovido ou infeliz comentário, afinal é tão fácil simular um espanto, estes o fazem com distinção - incoerente aquele senhor! - Dá-se a entender que chegados agora à terra se depararam com esta raça meio frouxa de memória e que disso tiraram partido. Vale-nos a nós não serem só destes os problemas do mundo.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
O certo sentido
Tirante as farras mais ou menos expectáveis que se evadiram das goelas dos moçoilos mais rebeldes, porque destes coisa diferente não podia ser esperada, a passagem de um ano para outro sucedeu com relativo silêncio. A Bárbara, talvez por recurso ao conhecido certo sentido (não sexto), cometeu a benfeitoria, só mais tarde reconhecida, de me querer levar a ver o Tejo, a estacar os pés sobre o cais povoado e mergulhar naquele mar de gente que por dias antes já se adivinhava. Disse não. Que ficaria no recato da casa a escutar pelas brechas do estore o ronco pavoroso dos foguetes e a olhar sobre as telhas dos prédios um ou outro fogo que rebentasse em purpurina. Era o bastante.
Se o nome de festa a cerimónia mereceu, foi então não mais que aqueles brindes forretas que os vizinhos dão aos filhos nos finais de outubro, presentinho mais poupado, duas não eram quando a madrugada fez soltar o último esperneio, a última rosa largada sobre a nuvem passageira, para logo se afundar no silêncio de uma noite qualquer, sem distinção.
O que valeu foi àquela hora estar a casa do campo ainda em preparos de algazarra, liguei ao meu irmão e metemos os pés a caminho. Cantámos e dançámos, partilharam-se sorrisos e abraços, felicitações, beijos de faces mergulhadas enfim em um choro de alegria. Até os cães pareceram sorrir por lhes estar tão perto a lareira humana.
Deitei-me eram seis com a nítida sensação de um enfardamento bom na alma. Na manhã seguinte, dia um, vi-me obrigado a admitir que, uma vez mais, a Bárbara havia tido a escolha melhor que eu recusara. Reconheci-o, mas não lho disse. Para o ano que vem direi, amor, tive uma ideia excelentíssima, que achas tu de irmos ao Terreiro do Paço? Não tens de quê.
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Crítica a Kant ou bocarras desmedidas
Quezílias e querelas. Com tudo isto se pintam páginas. Pareceram perturbar-se os cibernautas com aquele enxotar de correção acerca do escasso grau de capacidade crítica. O que não se podia ter previsto é terem-se remendado os visados por tão desmedidas bocas e por escrúpulos tão desprovidos de elegância. Talvez a culpa a tenha o professor, por não lhes ter feito este chegar a máxima que diz sobre o silêncio as eternas virtudes. Já não vou a mais: ao menos que o não troquem por tão básica e desprezível linguagem, como foi a do caso que li, Kant é um filha da puta, a culpa não é minha.
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