sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O certo sentido

Tirante as farras mais ou menos expectáveis que se evadiram das goelas dos moçoilos mais rebeldes, porque destes coisa diferente não podia ser esperada, a passagem de um ano para outro sucedeu com relativo silêncio. A Bárbara, talvez por recurso ao conhecido certo sentido (não sexto), cometeu a benfeitoria, só mais tarde reconhecida, de me querer levar a ver o Tejo, a estacar os pés sobre o cais povoado e mergulhar naquele mar de gente que por dias antes já se adivinhava. Disse não. Que ficaria no recato da casa a escutar pelas brechas do estore o ronco pavoroso dos foguetes e a olhar sobre as telhas dos prédios um ou outro fogo que rebentasse em purpurina. Era o bastante. 
Se o nome de festa a cerimónia mereceu, foi então não mais que aqueles brindes forretas que os vizinhos dão aos filhos nos finais de outubro, presentinho mais poupado, duas não eram quando a madrugada fez soltar o último esperneio, a última rosa largada sobre a nuvem passageira, para logo se afundar no silêncio de uma noite qualquer, sem distinção. 
O que valeu foi àquela hora estar a casa do campo ainda em preparos de algazarra, liguei ao meu irmão e metemos os pés a caminho. Cantámos e dançámos, partilharam-se sorrisos e abraços, felicitações, beijos de faces mergulhadas enfim em um choro de alegria. Até os cães pareceram sorrir por lhes estar tão perto a lareira humana.

Deitei-me eram seis com a nítida sensação de um enfardamento bom na alma. Na manhã seguinte, dia um, vi-me obrigado a admitir que, uma vez mais, a Bárbara havia tido a escolha melhor que eu recusara. Reconheci-o, mas não lho disse. Para o ano que vem direi, amor, tive uma ideia excelentíssima, que achas tu de irmos ao Terreiro do Paço? Não tens de quê. 

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