segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Imaginemos


Já todos havemos de ter por certo, mais uns menos outros, que de determinados assuntos não deve haver mistura. Por isso se costuma pendurar na porta o afamado papelete das reservas, abstratamente falando, claro está, que diz, cá dentro, por ser local de trabalho, não se discutem questões religiosas nem políticas, é permitido que, pessoalmente, cada um as tenha, mas que as guarde para si no momento preciso em que pisar os barbantes felpudos deste tapete. A nós parecer-nos-á, creio que a todos, uma prudente ideia. Queixe-se quem quiser, que estes são preceitos centenários, para não dizer várias vezes centenários, milenários quem sabe, de que até então não resultou problema de maior. Países há em que as coisas são bem piores. Imaginemos se continuasse a fundo o papelete.
(…) Parecendo-nos, desta forma, uns aos outros, iguais e semelhantes, para que de nós não seja feita maior distinção senão aquela que à entrada nos estamparam na lapela, concreta e objetiva, e de que, pelas nela implícitas capacidades, deverá ser retirado o máximo partido para o chefe, sem desvantagem de maior para quem a leva, porquanto lhe será paga, em justa quantidade, a quantia merecedora de dinheiros, podendo o mesmo, de forma educada, objetar, caso este que não se aconselha muito, ou mesmo nada, sabidas que são as dificuldades fiscais de quem emprega. Tirante o referido, o chefe não admitirá discussões. Permitiremos que falem, que gesticulem, que berrem até, desde que a ocasião o justifique, mas nunca, por exemplo, que nos venham falar de Guevara ou Mandela, de Maria ou Josafá. Não consentiremos que se fale tão pouco em família, para isso vos será posto à disposição um anexo por detrás daquela porta ao qual terão acesso e do qual deverão usufruir pelo tempo em que a pausa vos durar. Lá poremos, brevemente, uma janela, para que através dela possam ver a luz do dia. Por agora acendam a luz. Há fardas para todos no armário, mas os tamanhos são medianos, pelo que se pede e espera que por bondade se façam caber dentro. Ser-vos-á dada a quantia suficiente para puderem comer dignamente, mas há ali um micro-ondas para aquecerem o que trazem de casa. E se o caso for de filhos, se a ideia for de vir a tê-los, aconselhemos que ponderem em esperar, o chefe manda dizer que agora o mais importante é o trabalho, o empenho, o abraço ao projeto, pois que dele virá a vossa estabilidade, maneira esta, única, de proporcionar à espécie a digna continuidade. (…)
Já viram se fosse assim? Mais vale estarmos calados e aproveitarmos o que temos.

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