Já todos
havemos de ter por certo, mais uns menos outros, que de determinados assuntos
não deve haver mistura. Por isso se costuma pendurar na porta o afamado
papelete das reservas, abstratamente falando, claro está, que diz, cá dentro,
por ser local de trabalho, não se discutem questões religiosas nem políticas, é
permitido que, pessoalmente, cada um as tenha, mas que as guarde para si no
momento preciso em que pisar os barbantes felpudos deste tapete. A nós parecer-nos-á,
creio que a todos, uma prudente ideia. Queixe-se quem quiser, que estes são
preceitos centenários, para não dizer várias vezes centenários, milenários quem
sabe, de que até então não resultou problema de maior. Países há em que as
coisas são bem piores. Imaginemos se continuasse a fundo o papelete.
(…) Parecendo-nos,
desta forma, uns aos outros, iguais e semelhantes, para que de nós não seja
feita maior distinção senão aquela que à entrada nos estamparam na lapela, concreta
e objetiva, e de que, pelas nela implícitas capacidades, deverá ser retirado o
máximo partido para o chefe, sem desvantagem de maior para quem a leva,
porquanto lhe será paga, em justa quantidade, a quantia merecedora de
dinheiros, podendo o mesmo, de forma educada, objetar, caso este que não se
aconselha muito, ou mesmo nada, sabidas que são as dificuldades fiscais de quem
emprega. Tirante o referido, o chefe não admitirá discussões. Permitiremos que
falem, que gesticulem, que berrem até, desde que a ocasião o justifique, mas
nunca, por exemplo, que nos venham falar de Guevara ou Mandela, de Maria ou
Josafá. Não consentiremos que se fale tão pouco em família, para isso vos será
posto à disposição um anexo por detrás daquela porta ao qual terão acesso e do
qual deverão usufruir pelo tempo em que a pausa vos durar. Lá poremos,
brevemente, uma janela, para que através dela possam ver a luz do dia. Por
agora acendam a luz. Há fardas para todos no armário, mas os tamanhos são
medianos, pelo que se pede e espera que por bondade se façam caber dentro. Ser-vos-á
dada a quantia suficiente para puderem comer dignamente, mas há ali um micro-ondas
para aquecerem o que trazem de casa. E se o caso for de filhos, se a ideia for
de vir a tê-los, aconselhemos que ponderem em esperar, o chefe manda dizer que
agora o mais importante é o trabalho, o empenho, o abraço ao projeto, pois que dele
virá a vossa estabilidade, maneira esta, única, de proporcionar à espécie a
digna continuidade. (…)
Já viram se
fosse assim? Mais vale estarmos calados e aproveitarmos o que temos.
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