De mal, a pior vai o mundo. Recordar-se-á até o mais desfalcado da virtude elefantina daquele comboio de almas que foi o ano de 2017. Ferreira Gullar disse algo que em tempos concordei, a arte existe porque a vida não basta. Não sei se o terá dito por estas palavras, mas a ideia era esta. Ora passados dois anos desde esse fastidioso período, não está mal que, em jeito a que não chamarei de provatório mas da mais inocente curiosidade, que se pergunte se não será antes a vida que existe porque a arte não basta. Que o diga o criador, com as suas duas mãos portentosas, já que após ter soltado sobre a tela mais negra as vastas gotas espaçadas dos planetas, não se contentou enquanto no meio delas não pulsasse o sangue da primeira humana artéria. Daí veio o resto.
Principiou-se por falar sobre artistas. Mas lembremos aqueles não poucos desgraçados a quem a vida é mais do que um indispensável acessório, a única e primária necessidade.
Ainda ontem li o poema sujo, ouvir falar Gullar apraz de verdade até o mais empedernido dos cérebros, mas reconheçamos nós que se tivesse proferido o poeta frases como esta perante a magríssima figura de um esfomeado, talvez lhe tivesse faltado a voz antes de dizer a palavra última. Teríamos então hoje conhecimento de um diferente verso, inefável e silencioso, porém portador de todas as palavras do mundo.
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