De entre a
infinda lista de afazeres de que se ocupa um presidente, qualquer ministro que
seja, não se supõe que tenha de constar a prova oral sobre o musical
repertório. Tanto mais se o não for da cultura, ou comparável delegação, caso
que rapidamente se apelidaria de desapropriado ou descabido, ainda que ao certo
não se saiba bem porquê. Talvez pela suposta pretensão mais ou menos vaidosa de
que gozaria o ousado perguntador ao querer saber por testes caprichosos os
saberes mais supérfluos do superior hierárquico, ou, mais provável ainda, por
posta a questão, assim ao ar largada como um pombo a quem alguém quisesse
apanhar, tardasse no regresso a infeliz criatura sem o conhecido papelinho na
pata, enfim, sem a desejada resposta.
No caso de
Santana Lopes a coisa foi diferente. Não é tanto pelo costume que um acto é mais
ou menos certo, mas, verificada uma simples concordância entre quem escreve e
quem lê, estamos em condições de afirmar que, com se diz, e explicando depois a
referência, aos mortos falta-se mal ao respeito, (esqueceram-se dos vivos). A
eternidade de que goza F. Chopin, não lhe permite, contudo, continuar vestido
por estas carnes e mucosas que a nós nos vão levando, queiramos nós acreditar
que um espírito, se os há neste mundo, e por não estar sujeito às máculas do
corpo e aos seus escrupulosos preceitos, perdurando vai sem desgaste mais
profundo, sem quezílias com semelhantes, que para isso teve a vida, enfim sem
veleidades. Acredita-se portanto que, a um morto, tanto se lhe dá se dele mal
dizem ou proferem mortais virtudes. É-lhe indiferente, porque entre o vulto e a
carne distam mais metros do que aqueles que separam um polo de outro. Quando
morto, a vida é diferente.
É com este elegante
raciocínio sobre foices e gadanhas que se tenta principiar uma defesa. Ora
note-se que quando o ex-primeiro ministro, Pedro Santana Lopes, num rasgo digno
de um falso erudito, soltou a pérola sobre os violinos de Chopin, talvez a sua
intenção fosse só demonstrar aos mais desatentos ouvintes que para além da arte
musical, também a ele lhe apraz a construção poética. Repare-se que no lugar de
pianos, e precedendo a palavra Chopin, com aquela preposição pelo meio, a
palavra violinos toma uma posição bem mais melódica e poética, com aquele l maravilha
que tudo faz funcionar, por exemplo, sob a rúbida chama, crescem arcos, e os
violinos de Chopin são brisas, continue quem quiser. Salva-se portanto a ética
pela estética, e assim se perdoa alguém. É só querer-se.
“ Sei falar e
já falei, no tempo anterior de governo, com Gerhard Schroeder, na sua língua
natal ou com Vladimir Putin na mesma língua, porque viveu em Dresden muitos
anos”.
E exemplificou os seus dotes atuais,
com uma nova gaffe musical. “Talvez o Wohltemperierte Preludium, de Bach”
Novo
caso. Quanto a este não se fará mais do que engolir em seco. As explicações
encontrará quem as procurar. Até lá algum defensor de Santana Lopes se há de chegar
à frente a fazer a defesa, porquanto o fundamento poético não justifica já esta
intempérie, se tamanho conceito pode ser aqui utilizado. E como a sabedoria
popular, essa que como temos vindo a observar, poucas vezes falha, descabido
não será dizer que sem três não há duas. Esperemos então, sentados de poltrona,
preferencialmente em primeira fila, pela próxima demonstração da criatividade institucional,
liberdade expressiva ou capacidade poética, do nomeado secretário de Estado da
Cultura. E para que não se diga que não terá ajudas, deixo já aqui umas quantas
sugestões. Lembro-me de uma que li algures, ficará esta, muito boa por sinal,
mas que não logrou propagação de maior calibre, talvez pela desdentada boca que
a proferiu, de quem não se exige mais que uma cruz esporádica ou rabisco em
cartão na Praça, a quem no lugar de Chopin se ousou prendar com estalidos e
batuques, estridentes sons que batem e fogem, não se pode realmente exigir
muito mais desta gente. Mas o seu caso é pior senhor ex-primeiro ministro. Veja
lá o que acha: Midnight Sonata, acho
que é do Bethoven.
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