quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Santana Lopes e os violinos de Chopin


De entre a infinda lista de afazeres de que se ocupa um presidente, qualquer ministro que seja, não se supõe que tenha de constar a prova oral sobre o musical repertório. Tanto mais se o não for da cultura, ou comparável delegação, caso que rapidamente se apelidaria de desapropriado ou descabido, ainda que ao certo não se saiba bem porquê. Talvez pela suposta pretensão mais ou menos vaidosa de que gozaria o ousado perguntador ao querer saber por testes caprichosos os saberes mais supérfluos do superior hierárquico, ou, mais provável ainda, por posta a questão, assim ao ar largada como um pombo a quem alguém quisesse apanhar, tardasse no regresso a infeliz criatura sem o conhecido papelinho na pata, enfim, sem a desejada resposta.

No caso de Santana Lopes a coisa foi diferente. Não é tanto pelo costume que um acto é mais ou menos certo, mas, verificada uma simples concordância entre quem escreve e quem lê, estamos em condições de afirmar que, com se diz, e explicando depois a referência, aos mortos falta-se mal ao respeito, (esqueceram-se dos vivos). A eternidade de que goza F. Chopin, não lhe permite, contudo, continuar vestido por estas carnes e mucosas que a nós nos vão levando, queiramos nós acreditar que um espírito, se os há neste mundo, e por não estar sujeito às máculas do corpo e aos seus escrupulosos preceitos, perdurando vai sem desgaste mais profundo, sem quezílias com semelhantes, que para isso teve a vida, enfim sem veleidades. Acredita-se portanto que, a um morto, tanto se lhe dá se dele mal dizem ou proferem mortais virtudes. É-lhe indiferente, porque entre o vulto e a carne distam mais metros do que aqueles que separam um polo de outro. Quando morto, a vida é diferente.

É com este elegante raciocínio sobre foices e gadanhas que se tenta principiar uma defesa. Ora note-se que quando o ex-primeiro ministro, Pedro Santana Lopes, num rasgo digno de um falso erudito, soltou a pérola sobre os violinos de Chopin, talvez a sua intenção fosse só demonstrar aos mais desatentos ouvintes que para além da arte musical, também a ele lhe apraz a construção poética. Repare-se que no lugar de pianos, e precedendo a palavra Chopin, com aquela preposição pelo meio, a palavra violinos toma uma posição bem mais melódica e poética, com aquele l maravilha que tudo faz funcionar, por exemplo, sob a rúbida chama, crescem arcos, e os violinos de Chopin são brisas, continue quem quiser. Salva-se portanto a ética pela estética, e assim se perdoa alguém. É só querer-se.

“ Sei falar e já falei, no tempo anterior de governo, com Gerhard Schroeder, na sua língua natal ou com Vladimir Putin na mesma língua, porque viveu em Dresden muitos anos”.

E exemplificou os seus dotes atuais, com uma nova gaffe musical. “Talvez o Wohltemperierte Preludium, de Bach” 

               Novo caso. Quanto a este não se fará mais do que engolir em seco. As explicações encontrará quem as procurar. Até lá algum defensor de Santana Lopes se há de chegar à frente a fazer a defesa, porquanto o fundamento poético não justifica já esta intempérie, se tamanho conceito pode ser aqui utilizado. E como a sabedoria popular, essa que como temos vindo a observar, poucas vezes falha, descabido não será dizer que sem três não há duas. Esperemos então, sentados de poltrona, preferencialmente em primeira fila, pela próxima demonstração da criatividade institucional, liberdade expressiva ou capacidade poética, do nomeado secretário de Estado da Cultura. E para que não se diga que não terá ajudas, deixo já aqui umas quantas sugestões. Lembro-me de uma que li algures, ficará esta, muito boa por sinal, mas que não logrou propagação de maior calibre, talvez pela desdentada boca que a proferiu, de quem não se exige mais que uma cruz esporádica ou rabisco em cartão na Praça, a quem no lugar de Chopin se ousou prendar com estalidos e batuques, estridentes sons que batem e fogem, não se pode realmente exigir muito mais desta gente. Mas o seu caso é pior senhor ex-primeiro ministro. Veja lá o que acha: Midnight Sonata, acho que é do Bethoven.

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