sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

“Hylas and the Nymphs”

Acabarão com tudo. Por este andar, acabarão com tudo. “Hylas and the Nymphs” foi retirado da Manchester Art Gallery por ser considerado como ofensivo. Está no cerne da ofensa a dita forma pubescente em que se encontram os corpos das mulheres, aquelas tanto pálidas figuras a que pouco ou nada ficou devendo a beleza. Eva teria julgado como normal. Por muito puritana que fosse a primeira dama, nem por isso pertencia àquela casta de horrorizados a quem sufoca o simples vulto de uma desnudada coxa branca. 
Como sabemos, uma rápida e pertinente pesquisa naquele vasto poço do conhecimento assim o diz, John W. Whaterhouse faleceu fez agora cem anos. Ora presume-se, e talvez nesta imprudente dedução se cometa o erro capital, que passado cada ano, diga-se, à medida que se avança no tempo, a tendência é que se torne o homem mais nutrido de conhecimento. O sustento desta afirmação está noutra lógica presunção, não menos apropriada, que é a de verificar que nas costas de outros havemos de ver as nossas (por alguma razão se o terá escrito assim). Mas os sucedentes acontecimentos dos quais vamos tomando conhecimento levam-nos a refutar impiedosamente a mais convicta e outrora deduzível conclusão. Pelos vistos, passados cem anos, a humanidade parece ter aprendido nada. Sabe pouco. Recordemos aquele triste acontecimento que tomou lugar nas nossas lusitanas terras, nesta sobre todos pátria,  recordemos, de má memória, o nome do senhor Sousa Lara, a quem muito incomodou a obra daquele que viria anos mais tarde a  sagrar-se Nobel de Literatura em Português. Não se aprofundará. Nem este nem outros tantos milhentos casos que, eclodindo da penumbra, se estenderam à luminosa luz do dia. 

O que se tem é o direito a sentir-se ofendido; não o de proibir uma ofensa. 

Talvez tenha sido a boca larga através da qual falou o povo, há que pôr a hipótese, pelo menos parte dele, mas convenhamos, se assim fosse, que haveríamos de fazer com os restantes menos puritanos, com todos os outros a quem apraz o distinto ponto de vista, a opinião divergente, o vislumbre de uma tela a meio traçada por um rasto de sangue, aqueles que não desatam a rugir  em clangores sincopados ou coro de banda uniforme perante a expressão artística onde se distingue um corpo nu? 


Se as fotografias do Chico Buarque às crianças esfomeadas tivesse despontado a mesma reação noutra gente, eu poderia afirmar mais contente: não é que seja ofensivo, só faz é pesar a consciência. Menos mal. Era ao menos uma esperança. 

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