Acabarão com tudo. Por este andar, acabarão com tudo. “Hylas and the Nymphs” foi retirado da Manchester Art Gallery por ser considerado como ofensivo. Está no cerne da ofensa a dita forma pubescente em que se encontram os corpos das mulheres, aquelas tanto pálidas figuras a que pouco ou nada ficou devendo a beleza. Eva teria julgado como normal. Por muito puritana que fosse a primeira dama, nem por isso pertencia àquela casta de horrorizados a quem sufoca o simples vulto de uma desnudada coxa branca.
Como sabemos, uma rápida e pertinente pesquisa naquele vasto poço do conhecimento assim o diz, John W. Whaterhouse faleceu fez agora cem anos. Ora presume-se, e talvez nesta imprudente dedução se cometa o erro capital, que passado cada ano, diga-se, à medida que se avança no tempo, a tendência é que se torne o homem mais nutrido de conhecimento. O sustento desta afirmação está noutra lógica presunção, não menos apropriada, que é a de verificar que nas costas de outros havemos de ver as nossas (por alguma razão se o terá escrito assim). Mas os sucedentes acontecimentos dos quais vamos tomando conhecimento levam-nos a refutar impiedosamente a mais convicta e outrora deduzível conclusão. Pelos vistos, passados cem anos, a humanidade parece ter aprendido nada. Sabe pouco. Recordemos aquele triste acontecimento que tomou lugar nas nossas lusitanas terras, nesta sobre todos pátria, recordemos, de má memória, o nome do senhor Sousa Lara, a quem muito incomodou a obra daquele que viria anos mais tarde a sagrar-se Nobel de Literatura em Português. Não se aprofundará. Nem este nem outros tantos milhentos casos que, eclodindo da penumbra, se estenderam à luminosa luz do dia.
O que se tem é o direito a sentir-se ofendido; não o de proibir uma ofensa.
Talvez tenha sido a boca larga através da qual falou o povo, há que pôr a hipótese, pelo menos parte dele, mas convenhamos, se assim fosse, que haveríamos de fazer com os restantes menos puritanos, com todos os outros a quem apraz o distinto ponto de vista, a opinião divergente, o vislumbre de uma tela a meio traçada por um rasto de sangue, aqueles que não desatam a rugir em clangores sincopados ou coro de banda uniforme perante a expressão artística onde se distingue um corpo nu?
Se as fotografias do Chico Buarque às crianças esfomeadas tivesse despontado a mesma reação noutra gente, eu poderia afirmar mais contente: não é que seja ofensivo, só faz é pesar a consciência. Menos mal. Era ao menos uma esperança.
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