Facilitismos. Não passam de meras ocasiões que alguém proporcionou para o sentimento. Está tudo para o amor porque o disseram. Apontaram por dedos para o redor de uma data qualquer. Facilitaram.
Também há quem diga que o bebé mor não veio ao mundo em finais de ano, ou que não foi depois que partiu sangrando numa tarde em que a bátega diluiu na areia.
Sobre amêndoas nem se falará. No fundo, são tudo resumo duma ânsia monstruosa, de uma ânsia. Quer-se mais é engavetar. Dizer-se por alta boca que aqui se chora, ali se ri. E nem me apelidem já de coisas nenhuma. Pensem bem primeiro.
Não amar nem ser amado, hoje, mais que nos outros dias, muito destoa. Não há ninguém que em plena consoada menos valorize quem o rodeia que nos dias anteriores. Depois da data de uma morte, reconsideram-se as achegas, pondera-se a conduta empregada, oferece-se muitas vezes ao arrependimento.
No dia dos meus anos sempre choro. Se soubesse de antemão a data de meu último dia, todos seriam dias mal aproveitados, desperdiçados, não-dias, porque a noção de efemeridade mais se divisava clara sobre as outras.
Melhor se está vivendo a cair, sem previsão de chão ou anúncio da própria queda. A cair, tudo está por natural. Ninguém encena quando cai. Durante uma queda o ator mais virtuoso muito se confunde com a originalidade de um qualquer boneco de palhas.
Prefiro mais que me não digam as datas. Que todos os dias sejam pertinentes para a multiplicidade. Igual à grande hipótese de todas as coisas.
Por precária ser a minha capacidade para a representação, quero ser natural e cair. Só os atores podem bem iludir no dia de S.Valentim quando se zangaram com o par na véspera. Quem só é uma pessoa sabe pouco é jogar ao fingimento. Finge só quando quer, não quando é para fingir.
O catorze de Fevereiro só resulta bem se for confundido com a normalidade do treze de Setembro, por exemplo.
Hoje questionaram-me: que vais oferecer? E eu disse: nada, porque não me esqueci que dia era hoje.
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