quinta-feira, 27 de abril de 2017

Epifania

Aqui, onde a noite mais se entranha, nós que mudos 
E da palavra pouca, p'los recantos nos guardemos 
E se perdidos, pois com vagar também sopremos... 
Pelo doce ócio estirados, num selim de veludos

Até que nos venha o verso... Ressuscitar!
Como candeia que se ascende só, morte num drama contada
Pela calada duma noite, num golpe de faca afiada 
À minh'alma e tua, esventrando, em silêncios e luar 

Chamemos-lhe a mãe nossa! Com seu nome mais altivo 
Donde nascem e brotam rimas e consonâncias 
Eloquentes extravagâncias...

Que assim não vem mais, se só num grito a clamamos
Desesperados tais; A vós, que os tenha a mansidão 
Pois que esperar é virtude, e nós que a tanto amamos 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Posse

Penso; Que mais que as sobras que me trazem
A mim me darão? Serão saldo de gente outra?
Cujas mãos lhes meti, e saquei, parte de mim contra
E que nada em mim, mais agora fazem...

Penso; Quem foi que aqui morou?
Em tempos da passada noite, cujos dias não vivi
E levou meu tronco... Ó, se levou! Que nem eu senti!
E aqui deixou, levemente uma brisa, que soprando, me desabou 

E no dia mais oco, derramando em sal, por olhos meus te verei
Sem saber como,  em cinzas de meio-tom sem cor 
E tu que vens... Deixarás um pouco...

E eu, que assim serei, vago de matiz alguma, a ti beijarei! 
Sem saber como, teus lábios tocarei, tuas asas de condor 
E tu que vens, a ti te copiarei meu amor...

Poss

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ao rio, uma prece

Ao rio, deitemos as mãos folgadas, nos cepos
Dos braços que contemos. É o mar aberto 
Que se desenrola, pois que é lívida de mundo incerto
E esquálida a corrente, p'los seixos e p'los trepos 

Quem nos abraça e nos recebe? Esse mar imenso...
Cujas primícias são dois beijos, de água e sal 
E as margens dos desejos, como o mato jovial 
Donde as mãos lhe estendemos, a esse mar extenso...

E pedimos perdão... Ó mundo este o nosso!
Que tanto nos faz querer. Seria melhor se mar fosse
Esta vida ansiosa...

Invade-nos por inteiro! Com esse teu rio remansado
E afaga-nos as pressas, como um manto que tapa
Esta dor dolorosa...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Amar é

E amar, é ter no mundo, a razão condoída 
Das aves mais sumidas que voejam 
E que no ar se espairecem, vagarosamente
É ver no céu ardente, duas asas que se beijam 

É olhar-se de olhos nus e é também esquecer-se...
É revoar por plainos verdes. Ou p'las eiras dos arvoredos 
Estacar os pés dormentes, pois amar é também perder-se
No empoeirado chão dos silvedos. 

É ser só o tempo todo, como Oliveira em terra firme
Legar o pobre e o mais louco, pois amar é não bastar!
É exceder-se por tão pouco

E viver sempre aquém, numa angústia exaltada
É desejar tanto e tão pouco; pois que é também ver-se louco
E ter a miragem de uma luz, que jamais apagada


João Luciano
13-04-2017



sábado, 8 de abril de 2017

Palavras vãs

Deixemos então, ao vento as palavras
Pois que todas elas são meio canto
E nossos cantares, são preces que almejam tanto
que nos versos faltantes, lhes cortam as quadras

E inutilmente, se diz quanto se pode
Pois só de palavra é o homem curto, desventurado...
Já que só depois da morte, é sabido amado
Aquele que de uma vida, fez a Ode

Ó palavras mudas! Vós que sois fachada
Vos fizemos de olhos sujos, com as mãos encharcadas
E os alfabetos vazios

Vós, palavras tantas! Fartas de um proveito
Quem foi que assim vos fez? Folhas de árvores truncadas
Cujos troncos são dois rios...

João Luciano
08-04-2017