domingo, 25 de setembro de 2016

O Medo e o Verso

E se a prosa te mordeu hoje,
Com uma bocada de bico feito
Ai, se sei! sangrou e verteu escondido
... O sangue de um eu desfeito

Mas se o verso persiste, morando
Numa alma que o vai vendo
Que mal vem ao mundo, se sem jeito
Escrevinhar no meu caderno?

Então venho a ele, e dito-he sem maneira,
nem amanho de maior segredo
Uma palavra descoberta, nua e deserta
... Quão grande é meu medo!

João Luciano
25-09-2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Chuva

Foi num dia de chuva. E a chuva foi o dia só. O dia "da" chuva. E o comboio me entontava os sentidos num galopear desprendido, mais as pingas, quase a perfurar as vidraças das janelas tristes. Ia já por meio o percurso para Lisboa, e a chuva caindo densa.
Via o Tejo. E a água era abundante Todo um dia que nasceu chorando, e eu, vendo sentado a choradeira, sem verter lágrima alguma. Sério sem porquê, o queixo trancado e o olhar perdido. E contudo tão vulnerável que eu estava. Do meu lado esquerdo vieram dois risos contentes; duas gargalhadas desmedidas a destapar o dia discreto, mas o céu não se contagiou, e o dilúvio parecia o último. Para o ver, que o visse todo, e não ri nem um pouco. Olhei pelo vidro pingado, e continuei vendo o pranto do inicio de semana.
Mas que ofensa era esta? Rir perante este descalabro. Ainda por cima sem qualquer disfarce que se notasse, nem nenhum traço de arrependimento. E continuavam a malvadeza, contando cousas boas da vida, que haviam acontecido no fim-de-semana passado.
"Ai, que meu filho não me dá más noites. Dorme sorrindo. E seu dia é feliz sem birras nem manhas" - disse uma das mulheres enquanto sorria de felicidade, e balançava os ombros num gesto de tremelique do pouco riso que conteve. E eu ao lado ouvindo; entre a janela e as mulheres; entre o defeito e a demasia; forçado a conter a revolta de meu ser absorto.
Toda a gente sabe que não há bebés felizes, nem miúdos sem manhas. Não há direito a tanto! E se a chuva corre assim, não se pode rir daquela forma, nume esbanjar de alegria desnecessário.  Não se pode... Não se pode e pronto!  Tem que se ficar quieto e calado, olhando melancólico para o sítio indefinido, o ponto imaginário do pensamento profundo, que no meu caso ronda o olhar entreaberto a quarenta e cinco graus, vendo quase o chão sem o ver de verdade. Depois deixam-se estar as mãos quietas no colo. Nunca esbracejar repentinamente, nem vozear demasiado. Para isso há o verão, e o sol, e o calor. Mas no inverno, não há cá espaço para movimentos bruscos. Já basta o clima português, de sua virtude tropical, que lhe sobra o quente para dar e vender, para que em alturas de maior aragem, se deixem em paz os amuados, com seus pensares deprimentes, sem que se mostrem demasiado os dentes num ostentar prescindível.
E prosseguiram diálogo, as mulheres felizes. " O meu já faz sete este mês, e na escola já tem amiguinhas que o olhem. Pudera... De olhos verdes. E os amigos que tem, já me enchem a casa com suas malas atoladas, sempre que vêem em grupo depois das aulas da tarde. Às vezes jantam por lá, mas tudo menino de bem. Educados e sorridentes."
E a chuva a cair. E as mãos que quase se  antecipavam para uma palavra de ordem, mas o regaço tomou ordem, e ali se mantiveram paradas. O meu olhar virou ainda duas vezes para trás, e se cruzou por segundo com o sorriso branco da mulher chata. Os olhos viram-se, e logo se deixaram. Nada com esta gente, pensei, gente feliz é do piorio. São os piores. Um dia que a noite nos corra pior, e que o dia nos mande calar num silêncio inocente, que logo vêem dois ou três, em bando de alegria, obrigando-nos a falar, as histórias que tanto ouvem. Eu que nasci em tempo de morte, em alturas de desprendimento, quando os verdes caiem mansos, inevitavelmente, e perdem seu tom bonito. Eu, que tanto prezo o cinzento e sua virtude de ser meio. Eu que vejo o ir das folhas, morrendo ao vento, como se nascessem no ar novamente, talvez não saiba o que é sorrir. Talvez, eu nem saiba o que é viver em uma árvore, preso aos ramos da mãe maior, sem que me dê logo a ânsia de um despegar definitivo. Mas ao menos não pára a chuva, é o que vale é que não pára a chuva, está o céu de acordo comigo. E vai caindo a chuva densa. Lisboa vê-se ao fundo, e já vive sob manto cinza.
Cheguei ao local. Quatro homens se sentaram, e ali ficaram. Um baixinho boa tarde, e foi . As paredes de sombra escura e as persianas entreabertas. Lá fora ainda se ouve a chuva. Ninguém riu. Sentei, e é tudo. Trabalhei contente.

João Luciano


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Numa Mão

Numa mão...
Numa mão, de quem quer
O sopro de um som que ecoa
Se veem rastros de lassidão
Aqui e acolá...
Numa mão nua

Que a minha que vem à luz,
Numa alvorada bagunceira
É a pejar-se, que sorrateiramente
Se desvela ao sol recente

Vai vindo... Vai vendo...
Minha mão mol, desguarnecida
E o quebrado pulso de firmeza
Ao romper da veste envelhecida


João Luciano
15-09-2016


sábado, 10 de setembro de 2016

Intimidade

Do tórrido beijo teu
Fiz meu aninho duradouro
E do palmo de minha medida
Um gear em completude

Que aqueceu depois, da algidez
Um lançar de queimor ampliado
Para no corpo descer forte, em abalo
De sentimento almejado

Mais o pulsar, que era o meu
Coração cego e embevecido
E o olhar que se atreveu
A fechar-se, contemplativo



João Luciano
10-09-2016






domingo, 4 de setembro de 2016

O Homem Novo

Do crer se fez o homem novo
Num sonhar que se continua
E assim se foi vendo, vulto
Por uma nesga de fechadura

Agora ao desvelar-se, enigmático
Se desencontra revolto, entorpecido
Como um vão que desce escada
Ao lugar oprimido

Aventureira contenda
Estranho bando da desgraça
Armamos dois olhos, com venda
Por mais que se morra na praça



João Luciano
04-09-2016


















sábado, 3 de setembro de 2016

Paremos o tempo

Paremos os três ponteiros,
numa alusão de murmúrio tórrido
Sussuremos!
    já ao tempo parco,
    insuficiente,
Todo o pesar do antigamente

Prás lamúrias ocupantes,
do instante diminuto
    Paremos o tempo,
    Doravante!
Que há do passado que era meu?

Paremos o tempo!
Enquanto há tempo...
 
Que se dobra a dor,
De casca dura
Á corrente de rio passante
Escapa-se o mar,
    Amargura...
Nem se vê o viajante


João Luciano
03-09-2016












sexta-feira, 2 de setembro de 2016

1 de Setembro

Se meu amar toca o mundo
De olhos tons de avelã
Já é o vagaroso cair das folhas
Num sopro nu da manhã

Vejo mil mães que se despem agora
Dos agasalhos mais redobrados
Mal a época lhes traz o vento
Logo desnudam braços cruzados

É o chão que se cobre em parte
Num tapar de calçada acabada
E os filhos que se largam absortos
Dos corpos da mãe abastada

Desprende-se miseravelmente
O fio de nuca da gente humana
Para depois, se levantar novo
Num chegar de outra semana

João Luciano