terça-feira, 14 de março de 2017

O Riso

Na portada de uma festa, com luz de velas
Passeio nas calçadas do padrão nosso
Olho o refulgente lustre pelas janelas
E o sorriso que de lá vem, também eu o esboço

Então parei a trilha, do meio da rua ali vendo
os gritos e as risadas estridentes, se escusados,
quanto então serão excedentes? Assim sendo,
mais verdadeiros serão os fados

Porém, também as lamúrias se ultrapassam.
E na demasia se derramam de quando em vez
Mas o riso é mais, faz pouco da morte de um ser

Quanto então custa o fazer, pela face cair a gota? Mais que um esticar de beiça, que tanto se o faz sem deixa, em demonstração de um parecer

João Luciano 2017

domingo, 12 de março de 2017

Se soubesse ser amargo

E fui doce, numa escapada de bom-senso, fui doce
Quis ao mundo escabroso, comprazer de verdade
E na minha ingenuidade, talvez produto de idade, fui doce

Fiz escoar meu jarro para o largo extenso, pensando eu
Assim ser doce. Olvidei meu ser de tal maneira
que se evadiu a derradeira, zarpou de algibeira, a essência que fosse

Ah, se soubesse ser amargo no lugar de querer ser doce
Se soubesse, então penetrava pela porta capital de todos vós,
Assim a sós, sem medir prós, nem que me conviesse

Ah, se soubesse ser amargo, diria falando
pela boca do trombone. O que em mim seria, minh'alma fria,
de ousada alvenaria. Não escreveria

Diria alto e ressonante, nem amado nem amante
Era o grito da verdade, estrito pela espinha do ouvinte,
oxalá por conseguinte, ousasse ser metade

Da metade do todo que não sou, e tento ser, ao querer ser doce.
Até mesma essa, onde se acaba?  É contagem de maré,
Onde mar sem pé, me afogando, se desaba

E então me levo, assim pouco de peça, diariamente
Um pingo de lima em travo de amargura,
Pela alma que não pura, pulvilhado ao de cima

Se soubesse ser amargo, no lugar de querer ser doce
Estaria resolvido o mal posto. De acrimonia ou azedume,
sendo amargo, teria ao menos tido gosto































quarta-feira, 8 de março de 2017

Petição

Sobre a talha de mogno me sento
Ao amparo de um ensombro, escrupulosamente anseio
Pela alma suplicando ao vento: Que me chegue alimento
Venha o pão de nossa cerne poetisa, o centeio

E então, tal qual o esmoleiro e sua petição
Tambem assim me eis, de aberta palma pedindo
Ao céu que se abre, fortuitamente, pela escada de vão
Uma brisa descendo traga em mão, o pão de Deus vindo

Palavras outras dizendo, inspirações epifanias
Pão nossos de alguns dias





terça-feira, 7 de março de 2017

A Lisboa chegando

Ali à beira-rio, vão cheias as lezírias
Nas cercanias da cidade,  imundos os charcos
Pelo céu que tanto traz, e só hoje alaga tanto,
o cais onde retumbam os barcos

É a nau que nos leva ao Terreiro do Paço
Assim é linda a Lisboa, ungida de pranto
O alto que se entorpece, as nuvens tom baço
Pelo chão esbarrando, o sol pouco. Que espanto!

Há ainda a periferia, lá no centro do engodo
Turvo manto daqui se vendo, finge ser sem que o seja
Já daqui o sol nascendo, é a Primavera que se arranja














































domingo, 5 de março de 2017

Me encantará teu seio

Por entre as curvas de teu ventre
se me afagam as lembranças
de um passado que é presente
nas memórias de minhas ânsias

E ali me faço acalentar, calmamente
Prezado recanto o de minha musa
Em pele de quente âmago se sente
o que sente minh'alma abstrusa

Me encantará teu seio, me encantará
Quando ao ver tua pele, de rosa seda
se desvele, ao bem-vir oxalá

Me encontrará teu seio, me encontrará
No pardo mato soturno, ou no comum
Sol diurno, bem sei que assim será