quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Inspiração

Para onde vais? Tu que és graciosa
Subindo as escalas, deixando uma treita
Que quero guardar.
Teu perfume que me ocupa o tempo morto
E o jeito que se desvanece na ladeira

Quem és tu? Nem o digas de verdade, que não entendo
Um suspiro basta. E tua aura me sobeja
...Beija, meu corpo que se comove, e te acalça.

Uma referência - Tu És. Portanto,
mulher, te fito em meu momento nobre
Sei bem, que não sei que noto
Mas pelo menos, é para o céu que meu olhar aponta

João Luciano
27-10-2016

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A poesia é um manto

A poesia é um manto, que encobre
dentro um ser, que querendo-se expor
não se dá ao mundo, sem que
o mundo se dê a ele

E dá-se então inteiro, o mundo sublime
em uma bandeja de elementos
Que fazem o poeta, ser
Uma rosa de dois ventos

Que sopra para dois lados, sem
muito ressentimento. Dizem que querer
de um mundo que se espera. Mas
que a mudança não vem deles

E se soltam as palavras, disfarçadas
pois bem; sabendo o que são
sem o serem. Diz o poeta: amor,
Sem saber ao certo para que foi

João Luciano
26-10-2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Chegou-me alegria

Não durou eterno, meu íntimo curvado
que se retrai ao mundo, e se abala adentro
Hoje não o houve, hoje não o vi

Se apronta um novo começo. Nem sei
que pensar devo. E que importa o amanhã?
Hoje sou eu, hoje sou feliz

Me deixem estacar quieto, que já não
é longa minha nova quadra. E se vê a neve
de meu sorriso raro. Hoje sou todo, hoje sou amado



João Luciano
25-10-2016









sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Amor

Muito se tem dito sobre o amor. Mas eu, que sei o suficiente para poder opinar, acho que nem tudo sem tem dito bem. Que o digam as linhas das milhentas historietas que o tempo guarda, sempre sobre um indivíduo, num choro de noite perdida, clamando baixinho pela volta da companheira mor. Ou então um outro pobre coitado que nem a volta pede, que nunca houve quem tivesse vindo antes. Variam aqui e ali. Ora falamos de uma cabeleira escura a condizer com carnudos lábios pintados, ora de um dourado que brilha à luz do sol, mais a pele da brancura frágil.  Depois damos nós as cordas da história, e tudo fica confusamente mais profundo e bonito, e nós, emaranhados como gostamos, num sonho de vida inteira. Se termina bem, e o dilema não concretiza, é história pobre, e o interesse perde o tamanho. Ai, se me ouve o Shakespeare! Que lhe dói tanto o peito.

Mas e que mais? Só isto? E tanto disto?

Se é dor? Custa a ouvir, sim. E o amor não é fogo que arde, nem se cobre de uma invisibilidade suave. Ou se é, não é só isso. O amor não dói, e é só isso. O que dói é a dor. Um apego que ao querer demasiado, se desmuronou, numa pancada seca que não lhe trouxe tanto. E vai tudo para o mesmo saco. O amor do buda, e o apego de uma folha persistente. O querer e o não querer mais.  
Tanto é amoroso quem muito quer de outro, e com devoção, o faz ter, como quem nada exige, e tudo abraça conforme está, sem nenhum interesse de tirar nem pôr, ao produto que o tempo esculpiu. 
Mas agora se dói! Oh, que é amor profundo. E não se aperta retraído um coração, se de um acaso se trata. Tem razões para chorar, então chora que não mais tem fim. E a querer e a querer, até não querer mais. 
Quando a alma é outra, daquelas conformadas, que não aqui estão por razão nenhuma, e que respondem direito ou torto na medida em que destapam de manhã os pés flutuantes. Essas que tão pouco anseiam pela vida, e se vão apagando num ofuscar de luzes alheias, lhes chamamos do puro amor. Se deixam o lírio no campo, e lhes basta um olhar contemplativo, aí lhe chamamos de puro amor. E brota a primavera  cheia. 


Mas o mal é que não há quem seja um só lado, e portanto, todos bebem dos dois rios. Tratar destas coisas como se fossem água e azeite, não resulta bem. E o amor não é como dizem ser, um crescendo que se levanta firme e que abraça o mundo inteiro. Eu já cortei o amor, e já me cortaram também a mim, o meu. O amor pode ser cortado, e ainda assim ser amor. O amor não pode ser dor, mas não há amor que não doa. Qualquer coisa sobra, e a tentativa sempre falha. 

O amor não tem caixa onde se o possa pôr como um vaso que brota rosas. O amor nunca cabe.
O amor não é o fogo de Camões, nem o reencontro de Platão. Nem a cegueira de Shakespeare, nem sequer a eternidade de Pessoa, ao afirmar que amar, para ser amar , tem de ser para sempre.

O amor é o que falta. 

O amor é como o ovo da Clarice, não existe. 






sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Melodia

Ao ouvir a tocar, o piano
em passadas de pézinho manso
Deixei o mundo em sua mão

E quando as notas pretas
Soaram transitando, de dedo em dedo
Também eu era escuridão

Tocaram sostenidos, sombria a minha alma
Me descera pelo corpo atiçado
Um embrião de sujo negro, inofensivo
Mas que corroera por dentro, adocicado

Mas logo, as brancas, ao virem
Me salvar suavemente, me deixei ir
Em suas palmas da salvação

E andei, interpolado, entre os dois
Sons que se opondo, não opostos
Me quebraram o coração

Se termina bem, numa nota maior
Se verte uma lágrima, verdadeira
Comoção de quem faz, soar o mundo
Tal como o pranto da vez primeira

João Luciano

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Há por aí um bando

Há por aí um bando, que
Dizem uns; não se sabe ser
Mas que vão no roteiro, atados
Desprendidos e apegados
Em um caminho de nascer

Não se vêem na testa traços
É olhar profundo; dizem outros
Ora há dias muito amados
Que tocam os lírios estimados,
Mas há muito choro noutros

São meninos do tempo todo
E é sempre primeira vez,
Quando olham um pé descalço, ou
Num cair de teto falso, são
Tudo espantos sem porquês



domingo, 2 de outubro de 2016

Na quarta-feira não estou

Vamos contar coisas.
Uma coisa que é boa de contar, é o dia de quarta-feira.  O meu dia de quarta, que por norma é sempre dia nulo.  Como se não entrasse na contagem decrescente para o fim da semana, o dia de quarta é um já conformado momento que se converteu sem saber ao curso do rio passante. Nem acordo irresoluto, nem passeio aluado, e o plano que não foi concebido, funciona perfeito, num balanço imperceptível, que nunca se sabe quando começou. Nem há a meu ver, maior definição de meio termo que o meu dia de quarta. 
Se me perguntarem quem sou, um pouco previsivelmente, direi que não sei, mas que não me venham conhecer em dia de quarta, que lá não estarei sendo eu. Venham antes na segunda, quando meu ar é vagabundo e as olheiras se me encrostam na cara. Quando a cama se embrulha á toa, e os lençóis se me acorrentam aos braços finos. E se me virem de colarinho mal amanhado, assim o deixem estar, que há de chegar a quarta. É só uma questão de tempo. Dois dias a mais e o mundo vira certo. 
Ou então venham na sexta, que não sei que vos diga! E se virem um êxtase pequenito,  é contar o tempo na parede, para que abrande antes da quarta. É só uma questão de tempo e tudo dá certo. 

Mas na quarta já nem me lembro, que foi que se deu? Ai, que não sou eu! 

Que veio no prato que comi? Que o passado se abriu em fenda, e tudo lá sumiu. O que se passa na quarta fica na quarta. Não há registos que comprovem o sucedido neste dia. Sou um insensível que pisa a calçada no dia de quarta, e nem que pingue do céu, uma chuva dourada, me bate no peito o coração comovido. Não há memória que tome nota, e a semana decresce, e perde o tamanho. Quarta é então, á falta de melhor lembrança, um passado distante, um vórtice no tempo, que em abuso dos procedimentos convencionais dos ponteiros, me fez tombar os compassos e perder a melodia. 


Quem sou eu? Tudo menos quarta, creio.






João Luciano
03-10-2016