sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Pacto

De manhã, na casa das loiças, Maria Fragoso desistiu de lançar pirraças ao destino. Achou ter visto mais do que os olhos logravam - a obra de um destino cruel - abrir-se um mar a meio com um fundo muito negro, sem se lhe ter anunciado foi, no mínimo, um acto de ostentação divina. Afinal até Deus erguia o peito. Ao menor pensamento ousado fez saber que ali estava. Mas o pensamento de Maria nem era nada de mal.  Um único desejo que não merecia o segredo de uma intimidade muito sua, nem um recanto num lugar longínquo de sua alma onde não o pudesse lembrar, era aquele que de manhã a ocupava, enquanto lavava a louça  e devaneava sobre a eternidade da vida; de como não vir a perdê-la. Assim como, eterna? Mas o susto que a deteve fez com se conformasse, sem sequer ter pensado em conformar-se. E tranquilizou-se.

Os pratos que ao de leve recebiam os primeiros rios de água morna, tilintavam como espadas sem ritmo, contra os copos e talheres, e quando Maria se distraía olhando pela janela, sem ver, por vezes se rachava um e outro, frágeis como sua alma tremebunda. Recebera-os numa comunhão de amigas, quando sem vontade se haveria deslocado ao pátio no dia anterior, afim de comemorar os oitenta e nove da dona Alberta que não tinha cá o neto. Terá sido por razão essa e não outra (achava Maria) que haveria concebido todo aquele aparato; convidado toda aquela gente louca, de primaveras muitas e outonos outros tantos. Foi um fiasco, afinal. A coitada não merecia tanto; morrer assim, em festejo iminente - o Pai que nos trouxe nos leva, é ele Quem sabe nossa hora; nosso momento derradeiro é para nós como um sopro na areia, que vem como vai, sem que se deia conta alguma ou se acerte em cálculo de mãos e cabeça; assim, pensar na morte é um devaneio insensato - pensou. Ter na pele que é nossa, a dor de um outro ser é por outro lado um acto muito digno. Ora Maria sempre sentia no corpo e na alma uma angústia que não era sua, como alguém que, sem que em momento algum tivesse pedido para cá estar, vir ao mundo fosse um sacrifício enormíssimo, e estar nele vivendo, um desastre escandaloso. Mas enquanto lavava as loiças fez para consigo um pacto muito metido - não contrariar aquilo que por mão maior foi feito. E tranquilizou-se. 

Quando Maria fechou a torneira, já tinha os pés na terra e as mãos muito cheirosas. Podia ser outra mulher, mas Deus não deixou. Matou-a ali. Com um golpe muito súbito retirou-lhe o que por defeito lhe pertencia. Sem mais, num desmaio, embateu com a cabeça contra uma quina de bancada. E tranquilizou-se.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Juntos por Todos" - A propósito

a comunhão das gentes, hoje, é quase um fenómeno muito inaudito. e lembrar uma dor que não tive, um passo valoroso e crucial para o entendimento do outro, o acudimento do outro. que bom ver parte de uma noite bonita. saber de uma união que quero enquanto efetiva foi experimentar um suco de um desejo que sempre tive. 
no passado dia vinte e sete minha esperança recuperou um terreno generoso. minha vontade se tornou momentaneamente real. e foi então que acreditei, como em tantas outras ocasiões, numa humanidade ressurgindo. minha fé se restaurou por instantes ao saber que a tragédia que abateu Portugal foi Realmente sentida de verdade. 
não pude deixar de manifestar meu agrado; meu alento recomposto.
para alguém que se alega dormente, crer sempre é algo longínquo; acreditar é, como um jeito meio-infantil, de criança mesmo. mas tenho para mim que há um mundo melhor; como aquele a quem, nesse dia, Portugal deu berço. 
saber ainda que pelo menos mais de vinte eram artistas que se deram assim só; fez-me sentir. e sentir não é coisa pouca. não precisa de palavras que lhe sucedam. 

resta o sonho.

Imagem: http://myway.pt/juntos-por-todos-uma-noite-magica-de-solidariedade/38339


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Tripulação, tribulação

E esse é meu mar, rio que se esguia adonde
Escrito tenho, p'las ondas mares e marés
De sol posto; pensares; condados de terras e conde 
E onde, com vagar o vento, vai trepando o convés

Assim me eis; sem que dado me tenha, nem eu 
Que num batel ondulante que oscila, me sei 
Imaginem! Que será viver assim? Feito ateu 
E ter nas mãos a Vida, um ser fora-de-lei 

Mais valia uma desgraça; uma nau esbarrando 
No cais mais despejado, contra fragas e penedos 
E que estilhaçasse por fim 

Pois que nem vale a maior rota, se não a tem a razão
E há dias que nem o mar, nem a terra ou abegão 
Se apoderam de mim 















sexta-feira, 2 de junho de 2017

Viver

Ás vezes, há uma necessidade meio turva que me impele; sopro de uma fonte inescrutável. Outras, há o hiato, onde a vida é tempo que se perde. escrever, é então impulso; assim tudo. E viver, é um evento inaudito, que se comemora de quando em vez; descomprometidamente.