sábado, 26 de novembro de 2016

Esqueceste-me, Pessoa

Esqueceste meus períodos hiatos. Que é isso de amar para sempre, Pessoa? Não me digas que sempre te veio o choro, que não te trouxeram manhãs nuas e dias sem miolo, que ás vezes não morreste um pouco, ou lá o que é morte.
Nem me digas que sempre sentiste. Arr! Que te invejo! Meu roteiro nem sempre alegra ou faz dor, tem dias destes, em que a noite vem antes, e um sono me invade muito, até que eu deixe de Ser, e passe apenas a Estar, ou lá o que é estar.
Morrer é menos, certamente. O pior é ver. Ver que não há par que me assista. Há quem diga"vem, que te amo" outos "que te vás, que te odeio" e eu, tão no meio, sem a virtude de que se fala tanto. Só não morto, porque vejo, ou lá o que é ver.


João Luciano
26-11-2016


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

25 de Novembro

Adiado. Palavra nua que me despe consigo. Sim, sou isso, um adiado que não fez ontem; hoje não conta, e o amanhã não vem nunca.

Cá estou. A esteira que me trouxe, me leva devagarinho, e meu registo será oco, sem muito que se conte.

Venha a brisa até aqui. E que faça aplanar tudo o resto. Se cante baixinho,  que a vida é balada muda. Ouçam.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tente-se o poeta

Tente-se o poeta. A ele lhe pôr prazo na produção.
Como na montagem, as mãos repetentes
tocam o ferro, e o moldam de certeza.

Tente-se o poeta. E lhe peçam os favores,
para presentes de aniversário
Assim como quem quer coisa, e faz o pedido, esperando alegria

Tente-se o poeta. E se lhe mostre o sorriso, alegrando-o pois bem
Assim como se fácil fosse, o trabalho de viver contente

Tente-se! E se vá tentando, o poeta, e seu procedimento. Daqui a mais virá, como brinquedo de fabrico, seu mais fingido lamento.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Movimento

Tique-Taque... Batem teclas na fundura
Já é a mão morta, a repetir movimento
Apagando, escrevendo, sentindo...

Se me acabou o carvão. Que farei agora eu
Mais um cruento teclado? Se nem me sente ele a mim, 
nem meu pranto desanimado

Quero a folha mais antiga, antes que 
venha a mim rasgada. Minha grafite
companheira, quantas vezes foi quebrada?

Do que este bem todo manhoso, de letreiro 
organizado. Suas formas em quadrado
E um A-M-O-R separado

Não é assim a folha branca. Que essa
me toca direto o pêlo. Até me sente o arrepio
E me acolhe um cabelo

Nem é assim o pergaminho. Que esse
se abre desenrolando. E em toque de carinho, 
um riscar de tom brando

Para que veio este escusado, automatismo 
muito medido? Uma seta para cada lado
e um alfabeto perdido 

Não é assim meu pulso mole,  se curvando
ao verso quebrado. Desenhando uma por uma
da palavra ao fraseado

Nem é assim a lapizeira, que atua 
se esguiando. Quebra o bico e vai avante
e continua rabiscando

Tique-taque... Batem teclas na fundura
Já é a mão morta, a repetir movimento
Apagando,  escrevendo, sentindo...




João Luciano
08-11-2016



domingo, 6 de novembro de 2016

Os meninos brincando

Os meninos da minha vila, com balões e papagaios
pintaram o céu riscando. E no pardo céu soturno
encolheu a chuva os ombros, e nasceu um céu brando

Pouco a pouco, nuvem a nuvem. Lá se foi
o céu fingido. E seu tom gris, com a tralha colorida
dos balões e papagaios, partiu sem alarido

E se viram as cruzes vermelhas, dos fios enrolados
Os estrondos dos balões! Um grito afortunado!
Lá no fundo um sol novo, trouxe um dia inesperado